Colocar peças em pedestais é muito ocidental, diz curadora do New Museum

Organizadora da próxima trienal do museu nova-iorquino, Margot Norton visitou o Brasil em busca de novos talentos

São Paulo

​A curadora americana Margot Norton anda numa verdadeira maratona artística. Nos últimos meses, visitou seis países, entre eles Grécia, Índia e México, em busca de artistas emergentes.

No Brasil, onde esteve no final de agosto para um debate na SP-Foto, calcula ter visitado entre 30 e 40 ateliês em São Paulo e no Rio de Janeiro. De quem, ela não revela.

A correria é justificada. Norton é uma das organizadoras da próxima trienal do New Museum, museu de arte contemporânea em Nova York, onde trabalha. Ela e Jamillah James, do Instituto de Arte Contemporânea de Los Angeles, têm mapeado nomes das mais diversas nacionalidades e práticas para a edição de 2021 do evento, conhecido por apresentar talentos emergentes ao cenário internacional.

Entre os brasileiros que já participaram da mostra, estão Dalton Paula, um dos ganhadores do prêmio Marcantonio Vilaça no ano passado, e Cinthia Marcelle, que recebeu uma menção honrosa pelo pavilhão que apresentou na Bienal de Veneza há três anos.

A tradicional mostra italiana, aliás, costuma ser montada em um ano e meio, cerca de metade do tempo que ela e James têm. “É insano”, diz Norton, bem-humorada.

Questionada se sua volta ao mundo, que incluía planos de visitar a Argentina e o norte da África até o final do ano passado, são um procedimento comum na organização da trienal, a curadora diz que acha que esta mudou muito desde a sua primeira versão, em 2009.

“Hoje temos muito mais acesso ao que está acontecendo no planeta. Mas acho que todo mundo que já ocupou esse cargo ao menos tentou chegar ao máximo de lugares possível”, afirma, acrescentando que mesmo assim ela deve apelar para entrevistas por Skype quando o prazo final se aproximar.

É só nos 45 minutos do segundo tempo, aliás, que ela e Jamillah James devem definir  um tema para a mostra, conta Norton. “Como sabemos que o mundo se transforma a cada minuto, estamos nos mantendo abertos para tratar dos assuntos que forem importantes então”, diz.

Até lá, portanto, não dá para saber se temas hoje centrais para a arte contemporânea vão se manter. Mas Norton avalia que algumas pautas vieram para ficar.

É o caso, por exemplo, dos protestos contra a filantropia tóxica —como é chamada a presença de empresários ligados a negócios controversos nos conselhos dos museus—, que no ano passado levou um dos membros da diretoria do Whitney, em Nova York, a abdicar do cargo, após diversos artistas retirarem obras de uma exposição no local.

Ou a tendência dos museus de reavaliarem seus acervos e mostras permanentes em busca de mais diversidade, justificativa para a mais recente (e bilionária) reforma do MoMA, também em Nova York.
Em relação a esse último movimento, no entanto, Norton faz uma ressalva.

“As pessoas estão acordando em relação a essas culturas, e a como as fronteiras entre o que entendemos como cânone e outras produções podem ser fluidas. Mas é preciso sensibilidade. De outro modo, há o risco de nivelar as coisas e tratar objetos criados em contextos completamente diferentes de maneira idêntica.”

“Colocar peças em pedestais, por exemplo, é muito ocidental, e isso precisa ser indicado”, continua a americana.

Mulher com brincos azuis e cabelo enrolado sorri
A curadora Margot Norton, do New Museum, em Nova York, durante a SP-Foto, no Shopping JK Iguatemi - Jéssica Mangaba/Divulgação

Norton elogia a liberdade dos artistas nacionais. E conta ter ficado impressionada com a quantidade de pessoas preocupadas com a fisicalidade, além do uso de materiais têxteis por aqui. “Principalmente em São Paulo, o que é curioso numa cidade tão grande”, diz.

“Sinto que, com todos os avanços dos últimos anos, é quase como se esses artistas estivessem olhando para as fundações da tecnologia, indagando como criar a partir de matérias-primas naturais”, afirma Norton. “Ao mesmo tempo, é quase um continuum, né? Muitas vezes, essas obras remetem aos sistemas biológicos que estão na base do corpo humano.”

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