Descrição de chapéu Livros

Como respeitar o lugar de fala ao escrever um livro de ficção

Autores que retratam realidades sexuais e sociais diferentes das suas sofrem pressão nas redes sociais

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

São Paulo

Era para a escritora americana Jeanine Cummins estar saltitando de alegria. Seu novo romance, “American Dirt”, causou frisson no mercado editorial, foi disputado com cheques polpudos pelas editoras, ganhou elogios de nomes como Stephen King e chegou a ser recomendado por Oprah Winfrey —o que fez com que aparecesse em várias listas de mais vendidos.

Mas o que seria um sonho se tornou pesadelo para Cummins, em que ela é perseguida por conceitos como lugar de fala, apropriação cultural e oportunismo racial.

bocas em preto e branco
Ilustração feita a partir de fotogramas do vídeo ‘Not I’, que tem monólogo escrito por Samuel Beckett  - Jairo Malta

Embora se autodeclare latina por ter uma avó porto-riquenha, a autora é claramente uma mulher branca americana. Enquanto isso, seu romance gira em torno de uma mãe e de um filho mexicanos que fogem para a fronteira dos Estados Unidos depois que um cartel massacra sua família.

A distância étnica e social entre Cummins e os protagonistas do livro gerou o caldo ideal para a proliferação de críticas e ataques online. 

De acordo com o tribunal da internet, a americana explorou comercialmente o trauma dos imigrantes, foi oportunista ao falar de mexicanos para ganhar destaque num mercado editorial em grande maioria branco e não tinha lugar de fala para criar o livro.

Para piorar a situação, a editora fez na última semana um evento de promoção da obra todo decorado com arame farpado. A ideia era simular a capa do título, mas o efeito foi a criação de uma espécie de “fronteira chique”, cheia de drinques e quitutes, o que só ajudou a aumentar a temperatura.

Mas a discussão, que se tornou inflamada a ponto de um lançamento de “American Dirt” na Califórnia ter sido cancelado nesta semana, não diz respeito só a Cummins —ela é a face visível de um bate-boca global.

Autores têm legitimidade para escrever sobre realidades sociais, sexuais, raciais, geográficas, econômicas ou de gênero completamente diferentes das suas? Como aplicar o conceito de lugar de fala quando o assunto é ficção? Existe apropriação cultural em algo que foi inventado?

“Em nível social e político, tem todo sentido que alguém não deva falar no lugar do outro. Para representar as mulheres, tem que ser uma mulher. Mas, em nível literário, isso não tem sentido”, disse o escritor moçambicano Mia Couto no ano passado, em sua última viagem ao Brasil, em entrevista a este repórter.

Na época, ele lançava no país um livro feito a quatro mãos com o angolano José Eduardo Agualusa. “Um escritor que não saiba ser mulher, negro ou lagartixa não é um escritor. É como se fosse um ator que só representasse a si próprio”, afirmou Agualusa. 

“Tenho cuidado quando alguém quer proibir palavras. Porque é o princípio de um pensamento totalitário que, no limite, chega a um momento em que estamos a queimar livros”, completou o angolano.

Para eles, aplicar o lugar de fala na ficção impediria, por exemplo, que Franz Kafka escrevesse “A Metamorfose” (pode um homem se pôr no lugar de um inseto?). Ou que Dostoiévski lançasse “Crime e Castigo” (há exploração do trauma no assassinato?).

No Brasil, não existiriam romances como “Gabriela, Cravo e Canela”, de Jorge Amado (autor homem, protagonista mulher), “Grande Sertão: Veredas”, de João Guimarães Rosa (diplomata escrevendo sobre o homem sertanejo), ou “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos (escritor de classe média dando voz a uma família e um cachorro miseráveis).

“A literatura é o espaço da liberdade”, opina Itamar Vieira Junior. O escritor baiano recebeu o prêmio Leya há dois anos com “Torto Arado”, no qual duas irmãs são protagonistas e narradoras. “É esvaziar-se do que o autor pensa e olhar com outros olhos.” 

Vieira Junior concorda com Mia Couto e Agualusa ao lembrar que, seguindo essa ideia, grande parte dos clássicos não teriam sido escritos, já que seus autores não passaram na vida real pelas situações descritas nos livros. 

“O lugar de fala tem seu espaço no debate público, nos ensaios, na política. Na ficção, eu nunca falo por ninguém. Quero contar uma boa história”, diz o escritor.

Mas quem levanta a bandeira do lugar de fala não aponta o dedo só por inconsistências entre o perfil do artista e o dos personagens. Tenta iluminar um problema estrutural na indústria cultural —do cinema à literatura, das artes plásticas ao teatro—, ainda muito branca e elitista.

É o que mostra a autora portuguesa Djaimilia Pereira de Almeida. Nascida em Angola, ela ganhou o último prêmio Oceanos com o romance “Luanda, Lisboa, Paraíso”.

“A literatura lida com o imaginário, que é selvagem. Experimente inverter os termos. Pode uma negra transexual escrever um livro cujo protagonista é um homem branco heterossexual? Pode perfeitamente”, reflete. “Mas quem está interessado em ler mais um livro sobre um branco heterossexual?”, provoca.

Djaimilia Pereira de Almeira em visita à Flip, em Paraty (RJ), em 2017
Djaimilia Pereira de Almeira em visita à Flip, em Paraty (RJ), em 2017 - Bruno Santos/Folhapress

Um estudo da Universidade de Brasília coordenado por Regina Dalcastagnè mostra que o perfil dos autores e personagens da literatura brasileira publicada por grandes editoras pouco mudou desde 1965. 

O levantamento aponta que o escritor é um homem branco, de classe média, nascido no Rio de Janeiro ou em São Paulo. E que seus narradores e personagens são, em geral, também homens brancos, de classe média, heterossexuais e moradores da cidade.

Segundo a colunista deste jornal Djamila Ribeiro, autora de livros como “O Que É Lugar de Fala?”, existe uma confusão entre lugar de fala e representatividade —sendo mais importante discutir de onde os escritores partem, e menos as comparações entre a figura do criador e a dos personagens.

“A questão é que, quando eu parto de um lugar diferente, o meu olhar sobre outro grupo não vai ser o mesmo que essas pessoas têm”, diz Ribeiro. 

Para ela, o lugar de fala não busca impor uma regra sobre o direito ou a legitimidade de uma americana escrever sobre mexicanos ou de homens heterossexuais falarem sobre mulheres trans. Mas questionar por que há poucos mexicanos e trans publicando livros, por exemplo.

“A depender do lugar social que partimos, vamos ter muito mais oportunidades de fala e de criação. Esse é o ponto que muitos não entendem.”

E é uma das principais mensagens que Cummins vem recebendo com “American Dirt”. De acordo com esses críticos, se um escritor latino contasse a mesma narrativa, ele não receberia os mesmos elogios nem se tornaria famoso.

Em entrevista ao site Publishers Lunch, a escritora disse esperar que seu livro se defenda sozinho. “Se as pessoas lerem e depois decidirem que odeiam a história com base no que está escrito, tudo bem.”

Ou, como diz o já antigo meme, o livro que lute.

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.