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George Orwell, morto há 70 anos, fez romances proféticos e distantes da realidade

Autor de '1984' e 'A Revolução dos Bichos', britânico volta a aparecer nas listas de livros mais vendidos

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Já faz alguns anos que a distopia pós-apocalíptica —ou seja, a ideia de que o futuro será forjado por catástrofes planetárias que transformarão a Terra numa espécie de inferno— virou uma das formas dominantes de narrativa.

O britânico George Orwell, morto há 70 anos, em janeiro de 1950, ajudou a definir a estrutura do gênero com seus romances “1984” e “A Revolução dos Bichos”, mas é significativo que ele tenha preferido entender esses livros como utopias, e não como distopias.

homem olhando imagem de ditador à sua esquerda
Ilustração de Fido Nesti para a HQ '1984', inspirada no romance de George Orwell, que será lançada pela Companhia das Letras no segundo semestre - Reprodução

É claro que não parece haver nada de utópico no mundo de guerra perpétua, tortura sancionada pelo Estado e lavagem cerebral do IngSoc, o “socialismo inglês”, e do Grande Irmão de “1984”. A questão, porém, é que o pesadelo descrito por Orwell foi formulado como crítica à longa tradição de ficção científica utópica.

O nome mais influente dessa corrente é um conterrâneo de Orwell, H.G. Wells. Conhecido por aventuras como “A Máquina do Tempo” e “A Guerra dos Mundos”, Wells produziu diversas variantes da mesma descrição ficcional —um futuro brilhante, no qual ciência e tecnologia dominam a natureza em favor da humanidade, com o fim das doenças e da pobreza.

Orwell admirava a capacidade imaginativa do veterano da ficção científica, mas desprezava a ideia de que fosse possível criar o paraíso na Terra com engenharia social e avanços tecnológicos. Na visão dele, qualquer “utopia da vida real” seria, na melhor das hipóteses, insuportavelmente chata e, com mais probabilidade, desumanizadora.

E, diante de outro romance seminal da tradição distópica, “Admirável Mundo Novo”, do também britânico Aldous Huxley, Orwell notou que no livro “não há nenhuma fome de poder, nenhum sadismo, nenhuma dureza de qualquer tipo”.

Foi ao pôr a fome de poder no centro da narrativa, levando em conta o que tinha presenciado em regimes totalitários de direita e de esquerda, que Orwell conseguiu dar a “1984” seu caráter único.

Outro elemento do livro mais na moda do que nunca é a luta pelo controle da história, dos fatos e da própria linguagem, com a criação do idioma totalitário “novilíngua”.

“Quem controla o passado controla o futuro”, diz o livro, e paira sempre a dúvida em relação à sobrevivência de uma visão não oficial sobre o que realmente acontece dentro desses regimes. Esse ponto seria retomado pela canadense Margaret Atwood em “O Conto da Aia” e “Os Testamentos”.

Não à toa, os volumes de Atwood acompanham os de Orwell nas listas recentes de mais vendidos —o que fez a Companhia das Letras, no Brasil, preparar uma série de lançamentos para este ano, caso de uma HQ de “1984” feita por Fido Nesti, uma nova edição de “A Revolução dos Bichos” e as obras “O Ministério da Verdade: Uma Biografia de 1984” e “Orwell e a Verdade”.

De um lado, dizer que Orwell foi profético ao escrever seu maior romance equivale a reiterar uma obviedade; de outro, para a sorte de todos nós, não faz muito sentido.

A raiz desse paradoxo é que, embora não tenham faltado regimes cuja intenção era reescrever o passado e transformar seus cidadãos em servos, nenhuma dessas tentativas pareceu ser capaz de durar mais do que poucas décadas.

É nesse ponto que a profecia de Orwell fracassa. Numa de suas frases mais aterradoras, o torturador O’Brien afirma: “Se você é um homem, Winston, é o último homem. Sua raça está extinta; nós somos os herdeiros”. Tudo indica que esse tipo de transfiguração é impossível a longo prazo e que tentar chegar a isso gera um tipo de instabilidade inerente a regimes totalitários, que acabam implodindo, corroídos por dentro.

Talvez o próprio Orwell tenha intuído esse fato. Como notaram alguns leitores do romance, entre eles a própria Atwood, o apêndice sobre os “princípios da ‘novilíngua’” que se segue à narrativa está escrito em inglês, enquanto o objetivo da “novilíngua” era obliterar o idioma; além disso, traz verbos no passado.

Isso seria um indício de que o Estado totalitário estaria sendo descrito de fora e a partir do futuro, por alguém que já sabia de sua queda. Botas talvez não possam pisotear rostos humanos para sempre.

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