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Entenda por que clássicos dos anos 1990 estão retornando às telas

Onda que sucede o revival oitentista provoca debate sobre ciclo vicioso da nostalgia da cultura pop

São Paulo

“Os Bad Boys”, “Dr. Dolittle”, “Convenção das Bruxas”. Você já assistiu a esses filmes. Mas há trinta anos, mais ou menos, nos idos anos 1990 —e, provavelmente, em VHS. Agora, em plenos 2020, esses e outros estão de volta, no cinema (ou no streaming) mais perto de você.

elefante pisa num carro
Cena de 'Jumanji', de 1995; filme foi revivido em franquia com início em 2017 - Divulgação

A onda vem depois de um revival dos anos 1980 que incluiu refilmagens de “Os Caça-Fantasmas”, “Karatê Kid” e “Blade Runner”, além de títulos que beberam diretamente daquela estética, como o fenômeno “Stranger Things”. E também das muitas referências aos mesmos 1990 que pipocaram na moda nos últimos tempos, como as calças de cintura alta, sem elastano, apelidadas de “jeans de mãe”, e os
tênis brancos grandalhões.

O que motiva a pergunta: a cultura pop está condenada a viver num ciclo eterno de nostalgia, em que as tendências de décadas passadas voltam a cada par de anos? Ou a sensação de que o passado se repete no presente é só isso —uma sensação, sem lastro na realidade?

Henrique Diaz, especialista em tendências da Box1824, diz que não estamos exatamente mais nostálgicos do que nossos antepassados. Mas, graças à tecnologia, temos mais oportunidades do que eles de pôr esse sentimento em prática.

Em parte, porque as próprias redes sociais suscitam que tenhamos uma relação mais intensa com memórias pessoais e coletivas —basta pensar na hashtag #tbt (throwback thursday, ou quinta-feira de recordações, em inglês) ou na aba “lembranças” do Facebook.

Por outro lado, hoje as empresas têm como mapear esses desejos nostálgicos de forma muito mais eficiente, oferecendo, digamos, um ingresso para a turnê de Sandy & Junior no segundo em que você procura uma música da dupla no Google. “E isso vira uma indústria”, afirma Diaz.

No caso de Hollywood, vira uma indústria muito bem-sucedida, já que títulos testados e aprovados pelo público apresentam muito menos riscos financeiros. Coisa que a Disney, atual líder de bilheteria, parece ter notado.

Além das refilmagens com atores de seus clássicos animados —que renderam quase US$ 3 bilhões, ou R$ 12,5 bilhões à empresa no ano passado—, ela anunciou que ao menos três versões de clássicos dos anos 1990 entrarão no catálogo do Disney+, sua recém-lançada plataforma de streaming. São títulos como “Esqueceram de Mim”, “Mudança de Hábito” e “Abracadabra”.

Mulher negra vestida de freira reflete
Whoopi Goldberg em cena de 'Mudança de Hábito', de 1991; longa ganhará versão do Disney+ - IMDb/Divulgação

Outras plataformas vão pelo mesmo caminho. A Hulu anunciou uma versão repaginada de “Alta Fidelidade”. A Netflix, um novo “O Clube das Babás”.

Vale avisar que isso não significa que a nostalgia pelos anos 1980 tenha se esgotado. Diaz afirma que esse ciclo de retomada de ideias não é exato, e sim renovado a cada vez que uma geração conquista um certo nível de poder aquisitivo.

É o caso dos millennials de hoje, faixa etária que compreende dos 25 aos 40 anos —ou seja, quem cresceu nos anos 1990 atingiu há pouco a independência financeira.

Além disso, continua o analista, essas apropriações são sempre releituras.

A adaptação da comédia romântica britânica “Quatro Casamentos e um Funeral” da Hulu mostra isso. Na série, lançada no ano passado, Hugh Grant e Andie MacDowell foram substituídos por um casal multirracial, formado por Nathalie Emmanuel (a Missandei de “Game of Thrones”) e o indiano Nikesh Patel.

homem e mulher sentados em café
Andie MacDowell e Hugh Grant em cena de 'Quatro Casamentos e um Funeral'; filme de 1994 virou série da Hulu em 2014 - IMDb/Divulgação

Algo semelhante aconteceu com “Jumanji”. A versão atual do longa de 1995 já ganhou até mesmo uma sequência, “Jumanji: Próxima Fase”, lançada no Brasil na última quinta (16).

Nela, os protagonistas wasp —sigla que designa os americanos brancos e protestantes— deram lugar a um time composto pelo humorista Kevin Hart, negro, Awkwafina, asiática, além do musculoso Dwayne Johnson e de Jack Black.

A trupe se completa com a escocesa Karen Gillan. Ela conta ter ficado irritada quando soube do remake. “Pensei: nada mais é sagrado?”, relembra a atriz, de passagem por São Paulo para promover a franquia Mas, continua, mudou de ideia ao ler o roteiro, que transforma o jogo de tabuleiro original num videogame. 

“Não é um remake, mas uma recriação que mantém traços do filme original para satisfazer os fãs”, afirma.

“A maior diferença é que, em vez de o jogo contaminar a realidade, você é que entra dentro dele. O que é incrível para quem sempre imaginou como seria dentro daquele mundo selvagem e assustador.”

Christine Sprengler, professora da Universidade Western, no Canadá, é outra a defender que esses remakes todos podem oferecer algo para além do conforto das memórias.

Autora de “Screening Nostalgia” (sem edição no Brasil), ela argumenta, em entrevista por email, que eles têm o potencial de revelar conexões entre o passado e o presente de um modo que obras originais talvez não conseguissem. E, por mais que a cultura seja cíclica, ela nunca deixa de traçar comentários sobre seus respectivos contextos sociais, políticos, econômicos, ambientais.

Há quem seja mais pessimista acerca dessa perspectiva de eternos retornos. É o caso de um texto de Amanda Mull para a revista The Atlantic que circulou neste finzinho da década. Nele, a jornalista argumenta que as tecnologias destruíram nossa noção de tempo linear, e vem daí a sensação de que vivemos num presente difuso e onipresente.

Doutora em literatura comparada pela Universidade Federal de Minas Gerais, Camila Figueiredo diz que alguns teóricos, como o alemão Hans Ulrich Gumbrecht, têm interpretações parecidas. Mas põe na roda uma pergunta mais simples: “Até que ponto essa nostalgia representa um período de escassez de boas ideias?”.

Jumanji: Próxima Fase

  • Quando Em cartaz
  • Classificação 12 anos
  • Elenco Dwayne Johnson, Jack Black, Kevin Hart, Karen Gillan
  • Produção EUA, 2019
  • Direção Jake Kasdan

Quem é quem nos remakes

‘Quatro Casamentos e um Funeral’
Hugh Grant virou Nathalie Emmanuel, a Missandei de ‘GoT’, nesta série disponível na Hulu

‘Dr. Dolittle’
A versão com Robert Downey Jr., que estreia em fevereiro, é mais fiel ao livro de que foi adaptado do que ao filme de 1998 com Eddie Murphy

‘Alta Fidelidade’
Zoë Kravitz é o novo John Cusack nesta série da Hulu com lançamento em fevereiro; a mãe da atriz, Lisa Bonet, participou do longa original

‘Convenção das Bruxas’
Anne Hathaway assume o papel que foi de Anjelica Houston no filme comandada por Robert Zemeckis e esperado para outubro

‘Esqueceram de Mim’
Archie Yates, de ‘Jojo Rabbit’, vai interpretar um papel semelhante àquele de Macaulay Culkin no filme do Disney+ ainda sem data de estreia

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