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Albert Uderzo nos ajudou a reconhecer Asterix como ele é hoje

Artista, morto aos 92 anos, criou o visual de um dos maiores sucessos das histórias em quadrinhos

São Paulo

Um magistral desenhista de quadrinhos que criava personagens graciosos com rigor histórico, o francês Albert Uderzo, tinha 92 anos quando morreu em sua casa nesta terça-feira. Segundo a família, a morte foi causada por problemas cardíacos, sem relação com a pandemia de Covid-19.

Deve ter sido terrível para ele ver uma ameaça se espalhando pelo mundo todo, já que o artista passou mais de seis décadas viajando por inúmeras regiões da Terra. Na verdade, quem viajava mesmo era Asterix e Obelix, a genial dupla de personagens criada por uma dupla de quadrinistas geniais, Uberzo e René Goscinny.

Com mais de 350 milhões de livros vendidos, "Asterix, o Gaulês" é o maior sucesso mundial em HQ não produzida nos Estados Unidos. Só fica atrás dos patos, camundongos e cachorros de Walt Disney e dos super-heróis da Marvel e da DC Comics.

Uderzo criava a arte visual para os roteiros de Goscinny. Os dois passaram a década de 1950 trabalhando juntos ou separados em várias publicações, inclusive quando Asterix apareceu nas páginas da revista Pilote, em outubro de 1959.

Levou dois anos para que fosse lançado o primeiro álbum exclusivo, "Asterix, o Gaulês". O sucesso dos gibis que misturam aventura e humor ultrapassou as fronteiras da França rapidamente.

Os parceiros trabalharam na ideia durante anos. Seus personagens habitam a última aldeia da Gália que ainda não se rendeu à ocupação da França pelos exércitos romanos de Júlio César. Esses camponeses irredutíveis recorrem a uma poção mágica que os deixa superfortes, derrotando facilmente qualquer investida romana.

Goscinny criou a maior parte dos personagens, entre eles os protagonistas Asterix, o mais esperto e corajoso entre os gauleses, e Obelix, um gordão imenso e fortíssimo, que nem precisa da poção. Motivo —ele caiu dentro de um caldeirão da mistura quando era bebê.

Uderzo faz parte do seleto grupo de artistas de quadrinhos que criou um visual único e plenamente reconhecível para um grupo de personagens. As roupas, cabelos, barbas e bigodes dos gauleses são uma marca registrada. Num imaginário hall da fama de HQ, teriam lugar entre os garotos cabeçudos de Mauricio de Sousa e o icônico uniforme do Homem-Aranha criado por Steve Ditko.

Mas a colaboração de Uderzo com os roteiros não pode ser desprezada. Ele convenceu Goscinny a trabalhar histórias que levassem Asterix e Obelix muito longe de sua aldeia. Acompanhar os 38 álbuns da série é percorrer uma boa parte do mapa-mundi.

A ideia obrigou Uderzo a realizar uma pesquisa constante sobre o visual de várias partes da Europa, da Ásia e do norte da África, levando em conta que todas as aventuras se passavam no ano 50 a.C., tanto que cada história tinha a mesma introdução. "Estamos no ano 50 antes de Cristo. Toda a Gália foi ocupada pelos romanos... Toda? Não! Uma aldeia povoada por irredutíveis gauleses ainda resiste ao invasor."

Além da preocupação com a identidade visual, a dupla de autores retratava o comportamento em cada região com detalhes. Os bretões já eram fleumáticos como os ingleses de hoje e guiavam charretes do lado esquerdo das estradas. Os godos surgiam como rigorosos e militaristas, uma prévia do que seriam depois os alemães na visão de Goscinny. Os italianos falavam aos berros e abraçavam todo mundo.

Os nomes dos personagens seguiam um código especial criado por Goscinny e Uderzo, que usavam trocadilhos com terminações comuns a cada região. Como já demonstram a dupla principal, "asterisco" e "obelisco" com a terminação "ix", aplicada a todos os gauleses. Os romanos têm nomes terminados em "us", como a impagável dupla Apagalus e Ancendealus. Os nomes normandos terminam em "af" (Telegraf), os escaninavos em "sen" (Kerosen), os egípcios em "is" (Quadradetenis), e por aí vai.

Um ano antes de começar a publicar Asterix, Goscinny e Uderzo já tinham conquistado muitos fãs com Humpa-Pá, um índio de pele vermelha em aventuras durante a presença francesa na América do século 18 —outro trabalho que também exigiu do desenhista uma pesquisa apurada.

Quando Asterix foi lançado, Uderzo tinha fôlego para desenhar outra série, "Les Aventures de Tanguy et Laverdure". Num traço mais realista, ele ilustrava os roteiros de Jean-Michel Charlier com as missões de Tanguy e Laverdure, dois pilotos de caça da Força Aérea francesa. Uderzo ilustrou os oito primeiros álbuns da série, que continuou por mais 19 edições com outros artistas. Os exemplares originais das edições com seus desenhos, notadamente o álbum número um, publicado em 1961, alcançam altos valores em leilões.

Humpa-Pá foi abandonado em 1967, porque o sucesso de Asterix levou a dupla a uma dedicação total ao título. Pelos dez anos seguintes, os personagens alcançaram uma popularidade mundial. Os livros de Asterix foram traduzidos em 111 idiomas.

Em 1977, depois da publicação de 23 álbuns da série, Goscinny morreu, aos 51 anos, de infarto. Abalado, Uderzo levou dois anos para ilustrar o último roteiro do parceiro, "Asterix entre os Belgas", publicado em 1979. No ano seguinte, ele assumiu também os roteiros e voltou a trabalhar em novas histórias.

Até 2009, Uderzo produziu sozinho dez edições, que ele sempre creditava também a Goscinny, admitindo usar muitas ideias sugeridas pelo amigo em tantos anos de convivência. Alguns fãs radicais gostam de considerar a fase escrita por Goscinny como muito superior aos esforços individuais de Uderzo, mas nesse período de trabalho solitário há pelo menos dois álbuns clássicos, "O Filho de Asterix", de 1983, e "As 1.001 Horas de Asterix", de 1987.

Desde que passou a fazer as histórias de Asterix sozinho, em 1980, Uderzo criou sua própria empresa para as publicações, chamada Albert René. Em 2007, ele demitiu sua única filha, Sylvie, e seu genro, que dirigiam a editora.

Em seguida, Uderzo voltou atrás em seu declarado desejo de que a série de Asterix terminasse quando ele morresse. Vendeu então os direitos para a editora Hachette Livre, assinando um contrato que permite a publicação de novas histórias depois de sua morte. Sylvie processou o pai, e os dois chegaram a uma acordo financeiro anos depois.

Há nove anos, Uderzo decidiu passar o bastão para novos artistas, ficando só na supervisão do trabalho. Jean-Yves Ferri, no texto, e Didier Conrad, nos desenhos, já produziram quatro álbuns, o último lançado no ano passado, "A Filha de Vercingétorix".

São quadrinhos sem a mesma graça do Asterix de Goscinny e Uderzo. Muitos seguidores deixaram de comprar os álbuns e quase não há publicação deles fora da França. Agora, com a Covid-19, um deles ganhou notoriedade, "Astérix et la Transitalique", obra de 2017 que tem um personagem chamado Coronavírus.

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