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Coronavírus

Delivery de grandes restaurantes é uma contradição histórica

Em tempos de pandemia, pedir comida em casa não é opção, mas a única forma de reatar laço afetivo da boa gastronomia

A mesa está posta, impecável, até mesmo com taças para cada tipo de vinho. A comida é de um dos aclamados restaurantes paulistanos. Mas não é aquele cenário especial o que você tem diante de si —e sim a conhecidíssima paisagem da sua própria sala. São os tempos da pandemia, da reclusão; são os tempos do delivery.

Pedir comida de grandes restaurantes para entrega é escancarar uma contradição histórica que o coronavírus trouxe à luz. A comida de delivery sempre foi associada à conveniência, raramente à gastronomia. Não à toa seu país mais emblemático, os Estados Unidos, a transformou num hábito urbano meio brutal, o do "TV dinner", a refeição diante da TV, comida selvagemente nas embalagens.

Os restaurantes sempre foram o oposto disso. Nasceram como alternativa à refeição em casa. Desde seus primórdios, cabia-lhes servir não apenas uma comida mais refinada e trabalhosa do que aquela do cotidiano doméstico, mas também servi-la de forma teatral.

Algum tipo de restaurante sempre existiu, desde que os seres humanos começaram a constituir comunidades urbanas, e de alguma forma impunha-se, vez por outra, a necessidade de comer fora de casa. Mas eram bem diferentes do que conhecemos hoje: eram salas de refeição em estalagens, para os viajantes; ou um panelão de algum cozido para os ébrios, nas tavernas.

Embalagens de delivery de diferentes restaurantes paulistanos
Embalagens de delivery de diferentes restaurantes paulistanos - Gabriel Cabral/Folhapress

Só no século 18, na França, surgiria o restaurante moderno, gastronômico. Um pouquinho antes nascera o parisiense Café Procope, em 1674; mas este não tinha a ousadia que teria o senhor Boulanger, cujo estabelecimento homônimo, de 1765, inicialmente servia somente um caldo para restaurar convalescentes (o "bouillon restaurateur"), mas passou a servir pratos mais consistentes (como um portentoso pé de carneiro).

Com isso ele desafiava os limites impostos pelas corporações de então, que interditavam que um mesmo lugar servisse produtos de diferentes ofícios (pão, vinho, embutidos, assados, queijos, cozidos, o comércio de cada um desses itens era exclusividade de uma corporação particular).

Começava uma era em que surgiriam estabelecimentos marcantes, como o Beuvilliers (de 1782) e o Trois Frères Provençaux (de 1786). Mas a explosão destes "restaurantes" (como passaram a ser conhecidos) viria a ocorrer nas décadas seguintes, depois da Revolução Francesa.

A subida da burguesia que havia enriquecido ao poder e a expropriação de terras (e cabeças...) da aristocracia criaram uma curiosa dualidade nas cidades, Paris em primeiro lugar. Já não havia mais aristocracia para torrar dinheiro em seus palácios com faustosos banquetes; por outra parte, a burguesia que tinha poder econômico para sustentar hábitos custosos, não tinha o refinamento ancestral capaz de produzir (ou reproduzir) a sofisticação dos paladares, vinhos e serviços dos antigos palácios.

Cozinha para o delivery do restaurante Aizomê, nos Jardins, durante o período de quarentena - Adriano Vizoni/Folhapress

Os nascentes restaurantes propiciaram aos novos donos do dinheiro viver esta experiência de refinamento à mesa, que vinha pelas mãos de antigos cozinheiros, mordomos (que se prestavam, no antigo regime, também ao papel de maîtres e sommeliers) e serviçais das casas senhoriais da aristocracia apeada. Seu novo cenário de trabalho, não raro, eram antigos palacetes que os senhores de terra mantinham na cidade.

À burguesia era oferecido aquele teatro perfeito (para o qual não se requeria lustro, apenas bom dinheiro): a cozinha sofisticada, os vinhos adequados, mas também uma cenografia elegantemente aristocrática e o serviço —um verdadeiro balé— ensaiado como o que seria numa recepção ao rei, e pronto para esclarecer detalhes como o que comer e beber, e como.

Até hoje pedir em casa, para viagem, uma refeição de um restaurante que se preze por todo o detalhismo e teatralidade do seu ofício será sempre uma experiência parcialmente mutilada. Nada ali foi feito para viagem, tampouco a comida, que raramente terá o mesmo esplendor.

Mas nos tempos de agora, pedir para viagem não é uma opção, mas a única possibilidade de reatar, ao menos na memória, e debilmente, o laço gustativo e afetivo com o conjunto da obra que, possivelmente, com o tempo voltaremos a frequentar. Mas não são restaurantes de conveniência, e sim, de experiência: para fruí-los integralmente, há que se estar lá.

Restaurantes estrelados com delivery em São Paulo

Arturito ★★★★★
A cozinha da chef argentina Paola Carosella prioriza o uso de alimentos sazonais e de pequenos produtores. A casa oferece pratos para retirada no local ou delivery via Rappi. No menu, pratos como frango orgânico assado lentamente com limão, ervas e verdes orgânicos no forno a lenha (R$ 48). Veja mais em arturito.com.br.
Pedidos para retirada via telefone: (11) 3063-4951; WhatsApp (11) 97531-6679; ou Rappi. R. Artur de Azevedo, 542, Pinheiros. Seg. a dom.: 12h às 16h e 19h às 22h30.

Fasano ★★★★★
Primogênito da grife de alta gastronomia, funciona no hotel de mesmo nome, nos Jardins. O restaurante estreia no delivery com sua clássica gastronomia italiana com entrega para um raio de até 5 km com taxa de entrega de R$ 12. São pratos como a lasanha à bolonhesa (R$ 69) e o frango à milanesa (R$ 74), entre outros. O menu está no aplicativo próprio da casa, disponível no iOS e Android, ou por telefone.
Pedidos via telefone: (11) 3896-4148; e aplicativo Fasano. Hotel Fasano - R. Vitório Fasano, 88, Cerqueira César, região oeste

AE Cozinha ★★★★
É possível saber as opções da casa pelo Instagram (@aecozinha). A entrega pode ser feita mediante pagamento de taxa de R$ 5 (para um raio de 3 km) ou via iFood (para até 7 km). Também dá para fazer a retirada no local. O cardápio traz petiscos, entradas, principais e sobremesas. Para o dia a dia, o pê-efe tem salada, arroz, feijão, farofa e proteína mais um docinho (R$ 25 a R$ 30).
Pedidos via WhatsApp (11) 94446-8953; e iFood. R. Áurea, 285, Vila Mariana, região sul. Qua. a sex.: 12h às 15h e 19h às 23h. Sáb.: 13h às 16h e 19h às 23h. Dom.: 13h às 16h.

Aizomê ★★★
Comandado por Telma Shiraishi, o restaurante japonês criou um delivery próprio (com entrega para até 2 km da matriz, nos Jardins) de bentôs, as marmitas japonesas. São duas opções de tamanho: pequena (R$ 25) e grande (R$ 40). A casa também está no iFood, em que oferece, além dos bentôs, pratos do menu tradicional, sashimis, sushis, saquês e cervejas japonesas.
Pedidos via telefone: (11) 2222-1176 (opção 1); e iFood. Al. Fernão Cardim, 39, Jardim Paulista, região oeste. Seg. a sáb.: 11h30 às 14h30 e 18h30 às 22h.

Carlota ★★★★
Depois de 25 anos, o Carlota, da chef Carla Pernambuco, lançou serviço de delivery (para um raio de até 5 km) e take away, o Carlota Very Deli. O cardápio é renovado semanalmente, mas tem preço fixo: entradas a R$ 35, principais a R$ 50 e sobremesas por R$ 25. Também são fixas as sugestões de sábado (feijoada) e domingo (estrogonofe de camarões).
Pedidos via telefone: (11) 3661-8670 ou (11) 98225-6030. R. Sergipe, 753, Higienópolis, região central. Ter. a dom.: 12h às 18h.

Charco ★★★★
Tuca Mezzomo, chef desta casa cuja cozinha é orientada pela brasa, reduziu os preços e as opções do menu para atender a mais pessoas. Funciona em serviço de retirada, pelo telefone 3063-0360, mas nos próximos dias deve aparecer no Rappi. Dá para conhecer o menu no Instagram (@charcorestaurante), com opções como o porco preto, com quiabo e mostarda (R$ 54).
Pedidos via telefone: (11) 3063-0360. R. Peixoto Gomide, 1.492, Jardins, região oeste. Seg. a sex: 19h às 23h. Sáb.: 13h às 16h e 18h30 às 22h30.

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