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Mercado de livros se prepara para pior crise da história com novo coronavírus

Fechadas, livrarias suspendem ou renegociam pagamentos e entram em embate com editores

São Paulo

O clima azedou. Com o pânico gerado pela pandemia do novo coronavírus e o fechamento das livrarias —bem de como quase todo o varejo—, o mercado editorial ainda busca soluções para atravessar uma crise que é vista como sem precedentes em sua história. Enquanto não se chega a uma solução, se é que haverá alguma, o ambiente é de desentendimento.

Embora o comércio online já seja responsável por cerca de 45% do faturamento, segundo números da Nielsen Bookscan, as livrarias físicas ainda são o cerne do negócio. E as duas maiores delas já estão em apuros. Depois de primeiro pedir a renegociação, a Saraiva anunciou a suspensão dos pagamentos por tempo indeterminado. Nesta semana, a Cultura fez o mesmo em comunicado a seus fornecedores.

As duas já haviam sido responsáveis, nos últimos anos, por uma profunda crise no setor livreiro —atrasando pagamentos em uma bola de neve, que culminou na entrada em recuperação judicial das duas empresas, no ano passado.

Desta vez, é claro, elas não estão sozinhas. Por isso, todas as livrarias mais importantes já pediram renegociação de prazos com editores, gerando um nó na cadeia difícil de desatar. Com o fechamento das lojas, o natural é que o faturamento de cada livraria caia a zero imediatamente, no caso das que não tenham operações relevantes de ecommerce.

Ainda é cedo para ter números exatos, mas é preciso trabalhar com projeções —e o mercado prevê uma retração imediata que fica entre 60% e 70% do faturamento. Isso se o varejo reabrir daqui a dois meses. Mesmo que isso aconteça, em algumas editoras a queda pode chegar a 50% no fim do ano.

Essa crise encontra um mercado menos exposto a uma eventual falência da Cultura. Depois da novela que resultou na recuperação judicial, a empresa vinha enfrentando dificuldades em retomar sua credibilidade com editores —eles vinham restringindo o crédito à rede e vendendo livros em quantidades menores e com prazos de pagamento mais curtos. Novos atrasos já haviam ocorrido no ano passado com editores pequenos e médios.

Já no caso da Saraiva, o cenário é mais sombrio, sobretudo com grandes editores, porque casas menores não costumam vender lá. A rede havia conseguido convencer os credores de sua recuperação, e eles voltaram a fornecer à livraria —obviamente, uma pandemia global não estava nos planos. O receio, como se comenta à boca pequena, é que o coronavírus seja a pá de cal nas duas redes.

Ao mesmo tempo, a Amazon, que já conseguira surfar na crise anterior e crescer de forma sólida, é a única que continua pagando —e agora pode conquistar uma fatia maior do mercado de livros.

O cerne da desavença é simples de entender: Fora no caso das livrarias em que há percepção de risco, o setor livreiro ainda trabalha de forma significativa com a consignação. Ou seja, as livrarias deveriam acertar agora em março, por exemplo, o pagamento de livros vendidos em janeiro. O dinheiro recebido antes do fechamento do varejo, portanto, elas têm no caixa.

"Essa suspensão do pagamento imediato, sendo que as livrarias já pagam com 60 dias de prazo, nos pareceu absurdo e unilateral. Deixou todo mundo numa situação bastante desconfortável. Parece de certa forma oportunista, aproveitando a crise para salvar só a sua pele", diz Pedro Almeida, da Faro Editorial, sugerindo que elas paguem pelas vendas até o fechamento do varejo.

O cenário resultou, nesta semana, em uma dura carta de mais de cem editoras independentes falando em "quebra de confiança" das relações comerciais, exigindo o pagamento e ameaçando cobrar os valores na Justiça. É raro, num setor de relações aparentemente cordiais, agentes do mercado tornarem públicos seus conflitos, o que dá ideia da dimensão do impasse.

"Vindo de dois anos tão terríveis, ninguém estava preparado para, de uma hora para outra, o faturamento cair a zero", diz Elisa Ventura, dona da Blooks, uma das primeiras a fechar. "A forma como as editoras estão se posicionando não me parece a melhor forma de conversarmos. Ninguém está querendo dar calote em ninguém. O pouco dinheiro que eu tinha usei para colocar meus funcionários de férias e não demitir, pelo menos nesse primeiro momento."

Alexandre Martins Fontes atua nas duas frentes, com a editora e a livraria que levam seu sobrenome. Como livreiro, ele pegou as editoras cujas vendas são responsáveis por 70% do seu faturamento —as grandes, portanto— e já está renegociando prazos. Com as responsáveis por 30% das receitas, as menores que divulgaram a carta, ele planeja continuar pagando como combinado.

"O lado do livreiro é o seguinte —o que tenho a pagar são acertos de consignação. Livros que, de fato, eu já vendi e teria não só condições mas obrigação de pagar, como faço há 60 anos. Mas a situação é que, se pagarmos rigorosamente tudo, ficamos sem fluxo de caixa. O que estamos fazendo é uma socialização do prejuízo", diz ele.

"Mas seria ridículo pensar que quem vai pagar a conta são os editores. Não são. Por isso estamos separando o joio do trigo, vendo qual editor tem mais capital e podemos atrasar o pagamento e quem é pequeno e pode fechar se fizermos isso."

Em sua editora, a WMF Martins Fontes, já começou a sentar à mesa com todas as livrarias para renegociar. E reconhece que o impacto com a Saraiva é maior, porque já não vinha fornecendo para a Cultura.

As editoras já apertaram o cinto, diminuindo ou adiando por tempo indeterminado seus lançamentos —caso de Sextante, Record, Companhia das Letras e outras—, mas sabem que a situação não pode durar muito. As vendas online não devem compensar o impacto, sobretudo porque, em um cenário de incerteza quanto ao futuro, haverá retração do consumo na economia como um todo.

O consultor financeiro André Castro, que atende casas médias e pequenas, já está refazendo o orçamento de seus clientes e teme um cenário de quebradeira no mercado —primeiro, entre as livrarias e, depois, entre editoras.

"Estou trabalhando com uma previsão de 60% de queda, porque precisamos trabalhar com uma previsão, mas ainda não dá para saber com certeza. É preciso cortar gastos", diz.

"Muito editor, é claro, fica irritado com os livreiros —se eles já fizeram as vendas, poderiam pagar, eles dizem. Mas não é assim que funciona. São empresas com caixa apertado, que antecipam seus recebíveis. Quando a roda para, elas não conseguem pagar a conta de hoje. Qualquer pessoa que trabalha dessa forma quebra na hora."

Mas é claro que editoras também começarão a quebrar se não receberem, num cenário de cobertor curto. Todas elas, obviamente, têm contas e funcionários a pagar. As livrarias serão fundamentais numa eventual retomada das vendas, mas o dilema na equação é como fazer todos sobreviverem.

Quem sofre também é a multidão de colaboradores —revisores, tradutores, designers— que, como no resto do mercado cultural, são freelancers. Se os lançamentos são interrompidos, todos ficam sem trabalho.

Além das mudanças nos planos de lançamentos, já se buscam soluções. A Companhia das Letras, por exemplo, ofereceu às livrarias que usem a logística da editora para fazerem vendas online —tanto as que já tinham operações na internet quanto as que não. Quase 60 livrarias já aderiram ao projeto, como Blooks, Leonardo da Vinci e Martins Fontes, entre outras. A casa também pagará o frete.

"Não é possível que o governo brasileiro não se mova. Agora temos anúncios promissores do BNDES, de linhas de crédito mais simpáticas, mas não combinaram com os russos. Depende dos agentes financeiros, os bancos privados, que estão com o freio de mão puxado", diz Rui Campos, dono da Travessa, acrescentando que a prioridade agora é manter os empregos.

O conselho do Plano Municipal do Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas de São Paulo divulgou um documento com uma série de propostas que vão desde a isenção de IPTU para editoras e livrarias até a compra de livros pela prefeitura, passando pela criação de uma linha de crédito com condições de pagamento generosas.

Já a Câmara Brasileira do Livro sugeriu medidas ao Ministério da Economia e ao BNDES. Entre elas está o pedido de que se adie o pagamento do imposto de renda, contribuição social e INSS, além da abertura de linhas de crédito —no caso do BNDES, que já tem linhas de financiamento, eles pedem que, entre os itens nos quais o dinheiro pode ser usado, seja incluído o pagamento dos funcionários e o capital de giro.

Costa, o consultor financeiro, contudo, acha que apenas mais crédito não vai resolver o problema. "Não adianta o governo vir com empréstimo. Para não provocar desemprego em massa na cadeia, é preciso fazer a roda girar. E o único jeito que vejo é fazer uma compra grande, de preferência das livrarias."

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