Pandemia do coronavírus esvazia a noite do bairro mais agitado de Nova York

'Na semana passada, fiz um show para o qual só um espectador apareceu', diz dançarina de casa noturna

David Gonzalez Kwame Opam John Taggart
The New York Times

Nos bares e casas noturnas do Lower East Side de Manhattan, em Nova York, o começo do final de semana parecia mais com o fim. Táxis vazios circulavam pelas ruas escuras, entre carrinhos de comida solitários posicionados nas calçadas pelas quais poucos pedestres caminhavam. Algumas casas estavam fechadas e outras imaginavam que isso logo poderia acontecer com elas.

“O clima é como que o de fazer sua última interação social antes que a falta de interação se torne inevitável”, disse Leah Dixon, uma das donas do Beverly’s, um pequeno bar na rua Essex.

Em seguida, na noite do último domingo, o prefeito Bill de Blasio, que estava sendo submetido a pressões cada vez mais intensas, anunciou o fechamento generalizado de dezenas de milhares de bares, restaurantes, casas noturnas e casas de espetáculo de Nova York, em um esforço para conter a difusão do coronavírus.

Um século atrás, o Lower East Side era uma das regiões mais densamente povoadas dos Estados Unidos, graças a ondas de imigrantes; hoje, a região se aburguesou e é um polo da vida noturna, com ruas ladeadas por restaurantes da moda, bares, pequenas casas noturnas e casas de espetáculo, em geral muito ativos e lotados.

Mas, mesmo antes que as autoridades municipais ordenassem que as casas reduzissem à metade sua lotação máxima, na quinta-feira, para reduzir o risco de transmissão, os negócios haviam começado a esfriar em muitos lugares, e pela noite de 13 de março o clima de desânimo era palpável.

Funcionários do Departamento de Vida Noturna da prefeitura ofereciam orientação a proprietários de estabelecimentos sobre como solicitar empréstimos e verbas de resgate que a cidade pôs à disposição dos empresários e sobre como manter as operações e, ao mesmo, tempo reduzir a exposição dos frequentadores.

No entanto, algumas autoridades de saúde pública afirmavam que as restrições de capacidade precisavam ser muito mais severas –imediatamente– e que qualquer aglomeração de pessoas tornava os esforços de contenção muito menos efetivos.

“Como alguém que foi dona de um bar por muito tempo, entendo os medos da comunidade da vida noturna”, disse Ariel Palitz, diretora executiva do departamento. “As pessoas me dizem que estão preocupadas com sua saúde, com o bem-estar de seus fregueses e empregados e com o seu ganha-pão”.

Bandas, DJs, seguranças e garçons estão tentando descobrir como sobreviverão a essa catástrofe, já que muitos deles dependem de trabalhos como free-lancer, no ramo de serviços, para ganhar a vida.

As restrições de capacidade anunciadas pela Prefeitura de Nova York na noite de quinta-feira espelham esforços semelhantes em outros lugares dos Estados Unidos e do mundo, como parte dos esforços dos governos para desacelerar a difusão da infecção.

As autoridades municipais de Hoboken, no estado vizinho de Nova Jersey, anunciaram no dia 14 que estavam fechando os bares e que os restaurantes só poderiam trabalhar com entregas e com retirada de comida. E sinais preocupantes também surgiram no exterior, como na França, cujo governo no sábado tomou a drástica medida de ordenar o fechamento de todas cassas noturnas, cafés e teatros.

O primeiro final de semana de Nova York sob as restrições iniciais surgiu no momento em que a população, cada vez mais nervosa, parece ter percebido o futuro nebuloso que está enfrentando. Alguns estabelecimentos decidiram não correr riscos e fecharam as portas, e restaurantes antes muito movimentados pareciam palcos bem produzidos, mas despovoados, à espera do retorno do espetáculo. Outros lugares mantiveram as portas abertas, batalhando por manter os empregos de seu pessoal.

“Estou permitindo que meu pessoal escolha o que prefere”, disse Cliff Cho, dono do Fat Buddha Bar, na avenida A, onde DJs estavam entretendo cerca de 25 fregueses na noite do dia 13. “A maioria deles quer trabalhar. Mas também quero que as pessoas se sintam seguras.”

Cho havia acabado de reinaugurar seu bar, no final de outubro, oito meses depois de ter que fechá-lo devido aos graves danos causados pelo incêndio em um apartamento três andares acima. Ele ainda não tinha realizado uma cerimônia formal de reinauguração, mas está em busca de um empréstimo da Administração de Pequenas Empresas para continuar pagando o aluguel e seu pessoal. Se isso não acontecer, ele diz não estar certo de que será capaz de sobreviver à crise, atendendo a um número de fregueses muito inferior ao que costumava antes dos problemas. A medida anunciada pelo prefeito Bill de Blasio no dia 15 pôs fim a esse dilema, por enquanto.

“Esse é o nosso ganha-pão”, ele disse. “Em alguns finais de semana, recebemos 400 pessoas. Agora, eu ficaria feliz se tivesse cem fregueses. Talvez eu devesse organizar uma festa no meu supermercado local, porque está tão lotado.”

Rachel Joan, de 26 anos, sabe como ele se sente. A humorista se apresentou para sete pessoas no Old Man Hustle Comedy Bar, na rua Essex, na sexta-feira. O tema de seu monólogo? Brincadeiras sobre lavar as mãos, correr em pânico ao supermercado e desinfetante.

“Estamos todos arriscando a vida pelo humor stand-up”, disse ela.

A audiência respondeu com risadas nervosas.

“É bizarro fazer stand-up no meio disso tudo”, continuou. “Mas a sensação é a de que isso é o que eu devia estar fazendo. Não fui paga pela apresentação. É assim que tenho certeza de que humor é o que realmente quero fazer”.

Mas o Hard Swallow estava lotado de fregueses, que aplaudiam ruidosamente as apresentações de dançarinas go-go, em trajes sumários mas com maquiagens de palhaço. No fundo da casa, uma delas, Alaska, repousava em um leito de pregos.

“Foi assim que peguei o coronavírus!”, gritou para os fregueses.

Mais tarde, Alaska, que também é subgerente do bar, parecia mais contida.

“Dançar é minha principal fonte de renda”, disse. “Se não posso me apresentar ou dançar, não posso pagar o aluguel. Na semana passada, fiz um show para o qual só um espectador apareceu.”

Big Lee e Sasha Lloyd, os donos do Hard Swallow, estão preocupados com seu pessoal e ao mesmo tempo orgulhosos do espaço que conquistaram na comunidade, mas os negócios caíram em quase um terço.

“Para nós, fechar não é opção”, disse Lee. “Quero deixar claro que estamos aqui, vamos continuar, e tudo ficará bem.”

Por quanto tempo é outra questão. Ele havia se preparado para o Dia de São Patrício (17 de março), contratando pessoal adicional e comprando mais cerveja e outras bebidas. O cancelamento do evento já o tinha posto numa situação difícil mesmo antes da ordem de fechamento total dos bares. Normalmente, ele faturaria o bastante no dia de São Patrício para bancar seu aluguel mensal de US$ 12 mil (R$ 60,5 mil). Agora, Lee está preocupado com sua capacidade de cobri-lo com seu faturamento diário.

Ele e a mulher estavam esperando para ver se haverá assistência e se estão qualificados para ela.

“Tínhamos um dólar e um sonho”, disse Lloyd. “Vamos resolver a situação. Espero que o governo federal intervenha e ofereça socorro, porque estamos sangrando.”

Tradução de Paulo Migliacci

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