Descrição de chapéu The New York Times

Como a Ópera de NY está organizando um concerto de gala com smartphones

Não há substituto para as apresentações ao vivo, mas isso pelo menos nos dá alguma coisa para fazer, diz diretor

Joshua Barone
The New York Times

“A luz é suficiente?”, perguntou o barítono Peter Mattei.

Ele estava na sala de estar de sua casa, perto de Estocolmo, falando por Skype com um pequeno grupo de membros da equipe da Companhia Metropolitana de Ópera de Nova York, a Met Opera, e recebendo instruções sobre como se preparar para o At Home Gala, um evento que a companhia está organizando para o sábado —uma transmissão mundial de apresentações por streaming que, em contraste com a grandeza costumeira da ópera, serão filmadas usando apenas o equipamento que os artistas tiverem em suas casas.

An image provided by the Metropolitan Opera shows a screen capture of members of the Met?s orchestra and chorus, which will perform at the At-Home Gala on Saturday. Closed by the coronavirus, the company is streaming its biggest stars, performing live across nine time zones. (Metropolitan Opera via The New York Times) -- NO SALES; FOR EDITORIAL USE ONLY WITH NYT STORY MET OPERA LIVESTREAM BY JOSHUA BARONE FOR APRIL 25, 2020. ALL OTHER USE PROHIBITED. --
Captura de tela que mostra membros da orquestra e do coral, que irão se apresentar via streaming - Metropolitan Opera/New York Times

No caso de Mattei, isso significará transmitir uma ária de Mozart usando seu smartphone e o plano de dados do celular, de uma casa que, evidentemente, não foi planejada para ser estúdio. Por isso, ele precisava da ajuda do Met, no mínimo para estabelecer o enquadramento de sua câmera. Ele andou de aposento em aposento da casa, e seu cachorro, um labradoodle chamado Yoda, entrava de vez em quando no quadro. Mas nada estava funcionando como deveria.

Olhando pelas janelas da casa, Peter Gelb, o diretor geral da Met Opera —que estava em sua casa em Nova York— viu a linha da costa, e um sereno crepúsculo escandinavo. Ele teve uma ideia –"você não quer tentar cantar do lado de fora?”.

Mas Mattei descartou a sugestão com uma risada. “Eu ficaria envergonhado”, ele disse. “Todo mundo vai pensar que estou maluco, que estou sem trabalho e por isso agora fico cantando no quintal.”

Foi um momento de humor funesto em meio a um período catastrófico para a ópera.

A Met Opera suspendeu suas apresentações em 12 de março por causa da pandemia do coronavírus e por fim cancelou o restante da temporada, estimando prejuízos de pelo menos US$ 60 milhões, ou R$ 334 milhões.

Com a Met Opera fechada ao público, a equipe administrativa da companhia está ocupada com uma campanha de emergência de arrecadação de fundos e, pelas duas últimas semanas, com a organização do At Home Gala.

O evento, que será transmitido pelo site metopera.org às 13h do sábado, horário da costa leste americana, (às 14h no horário de Brasíla) e poderá ser visto online até a noite de domingo, apresenta um nível de ambição e de dificuldade que só a ópera encararia –um elenco de mais de 40 dos mais famosos cantores associados à companhia, além de membros de sua orquestra e coral, se apresentando ao vivo de nove fusos horários diferentes.

Entre eles estão Lisette Oropesa, que cantará de Baton Rouge, no estado americano de Louisiana, Anna Netrebko, de Viena, e Piotr Beczala, que cantará, como ele descreveu a Gelb, de uma aldeia no fim do mundo, na Polônia.

Eventos de gala de longa duração não são novidade para a companhia, mas nada desse tipo havia acontecido até hoje na história da instituição.

Gelb —que apresentará o evento, de Nova York, com a ajuda de Yannick Nézet-Séguin, o diretor musical da companhia, que está em Montreal— disse que a ideia surgiu porque “estou determinado a manter o Met na consciência do público mais amplo e determinado a usar todos os meios para fazê-lo”.

Desde que o teatro de ópera suspendeu suas apresentações, seu site vem mostrando espetáculos de sua vasta coleção Met Opera On Demand a cada noite. (Gelb disse que nas cinco últimas semanas, o número de assinantes pagantes do serviço de acesso online havia dobrado, para 30 mil pessoas.)

Cada uma das apresentações vem acompanhada por um botão de “doe já”. O Gala At Home terá o mesmo recurso, ainda que Gelb tenha se apressado a enfatizar que “não estamos falando de uma maratona de caridade televisiva”.

“Creio que as pessoas reconhecem o que o Met vem tentando fazer”, ele disse, “e que estejam dispostas a expressar essa compreensão sem que precisemos martelar demais a mensagem”. O evento de gala, ele acrescentou, na verdade é mais para que os espectadores possam sentir que estão de volta aos teatros, pelo menos por alguns momentos.

“Não há substituto para as apresentações ao vivo”, ele disse. “Mas isso pelo menos nos dá alguma coisa para fazer.”

Depois de conceber a ideia do evento de gala, no começo de abril, em menos de 48 horas Gelb já contava com a adesão de Nézet-Séguin e de dezenas de participantes. Ele só pediu aos artistas que cantassem uma ária e que “vestissem algo intermediário entre roupas de sauna e um traje formal”, como ele disse ao tenor Jonas Kauffmann. As coisas se ordenaram com tanta rapidez que um release já tinha sido distribuído para a imprensa antes que os cantores realizassem seus testes de vídeo e som.

A soprano Renée Fleming, uma estrela da ópera que está em isolamento em sua casa no estado americano da Virgínia, recorda que, quando Gelb a procurou, sua resposta foi “bem, ninguém vai poder dizer que está ocupado demais”.

Mas ela acrescentou, em tom mais sério, que tinha concordado em fazer parte por querer ajudar o Met e outras organizações a “manter uma conexão com sua audiência”. (Fleming já tem alguma experiência com apresentações caseiras, depois de ter realizado recentemente uma gravação remota de “Ave Maria”, de Schubert, acompanhada pelo pianista Evgeny Kissin.)

Todos os artistas que participarão do evento estão doando seu tempo. “As pessoas vão fazê-lo por amor, e acho que a apresentação também representa uma oportunidade para que elas sintam que estão fazendo alguma coisa”, disse Gelb.

Com apoio financeiro milionário da filantropa Mercedes Bass e da Rolex, a Met Opera montou, por menos de US$ 100 mil, uma empreitada que combina a baixa resolução sonora do Skype ao poderio televisivo de sua série "Live in HD".

Algumas das participações serão pré-gravadas. Nézet-Séguin –usando não um metrônomo mas um vídeo que o mostra regendo, o que ele diz ser “mais humano e caloroso”– já regeu membros da orquestra da companhia na execução de excertos de “Cavalaria Rusticana” e “Lohengrin”, e o coral da ópera em uma execução de “Va, Pensiero”, uma das árias favoritas do público, da ópera “Nabucco”, de Giuseppe Verdi.

As apresentações ao vivo ocorrerão em quatro canais, dois dos quais para a base técnica do streaming. Isso deixa um canal para quem estiver apresentando o convidado e um canal para o cantor que se apresentará a seguir –cuja imagem só vai surgir na tela pouco antes de ele começar a cantar.

Isso significa que a semana de Gelb está repleta de testes –conversas via Skype de meia hora de duração com cantores e técnicos, entre os quais Gary Halvorson, o veterano diretor da série "Live in HD". Por meio de tentativa e erro, eles procuraram os melhores pontos para transmissão via wi-fi e para balanceamento do som, nas casas dos cantores.

Mattei por fim encontrou a luz ideal não na sala de sua casa ou em seu abrigo de barcos, mas em um estúdio próximo onde ele ensaiou o papel título de “Wozzeck” para a produção dessa ópera no Met.

Mesmo os cantores mais bem preparados encontram dificuldades. A soprano Angel Blue –que cantará do porão de sua casa no estado americano de Nova Jersey, diante de uma foto emoldurada do velho teatro do Met– tinha fita adesiva para marcar o posicionamento no piso, e uma boa iluminação. Mas o microfone de seu celular não era confiável e produzia um som metálico. Ela foi instruída a mudar de aparelho e voltar para um novo teste.

“Vou estar aqui”, ela respondeu. “Não tenho outro lugar para ir.”

A segunda passagem de som de Blue foi um sucesso, mas a tecnologia foi menos cooperativa no caso de outros cantores. Nomes foram acrescentados à lista dos cantores que participarão do evento de gala, mas também houve cortes, por causa de acesso insuficiente à internet ou, no caso de Christine Goerke, da incapacidade de um iPad para lidar com o poderoso som da soprano wagneriana.

Alguns dos artistas estão cantando pela primeira vez em semanas. Fleming brincou que está agradecida pelo convite porque isso a fez começar a ensaiar de novo. “Jamais tive de me preocupar com disciplina”, ela disse, “porque sempre tinha alguma coisa em que estava trabalhando”.

No sábado, porém, problemas vocais serão a menor das preocupações. Se alguma coisa sair errado —se, por exemplo, o sinal for cortado—, o Met preparou alguns vídeos para ocupar o espaço até que o cantor seguinte esteja pronto para aparecer na câmera.

Isso não seria necessário caso as apresentações fossem pré-gravadas, como vem sendo o caso em eventos pop como o recente “One World: Together at Home”. Mas Gelb optou por algo mais parecido com o perigo e a emoção do palco do Met, onde nunca se pode saber se um cantor vai passar do ponto em um agudo ou se vai atingir a nota com sublime perfeição.

“É isso que torna a ópera tão especial”, disse Gelb. “Sempre vivemos no limite.”

Tradução de Paulo Migliacci

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