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'Corpos Secos' cresce ao fazer mortos-vivos enfrentarem o Brasil

Companhia das Letras até discutiu internamente se seria de bom gosto lançar o livro neste momento de quarentena

Corpos Secos

  • Preço R$ 44,90 (192 págs.) e R$ 29,90 (ebook)
  • Autor Luisa Geisler, Marcelo Ferroni, Natalia Borges Polesso e Samir Machado de Machado
  • Editora Alfaguara

A maior atração de “Corpos Secos”, escrito a oito mãos por três gaúchos e um paulistano, é que se passa numa pandemia. Foi escrito antes do novo coronavírus chegar, e a editora Companhia das Letras, dona do selo Alfaguara, até discutiu internamente se seria de bom gosto lançar o livro neste
momento de quarentena.

Para quem acha que histórias de zumbis são nojentas, não há mesmo o que fazer. Já quem vê beleza em mortos-vivos mastigando humanos vai encontrar no livro uma boa diversão, com uma quantidade razoável de sexo e muito sangue e violência crua.

Quando a história começa, o vírus zumbi (palavra não usada no livro), que deixa os corpos secos, já se alastrou por todo o país. O primeiro personagem é a única esperança da humanidade brasileira —um rapaz que foi infectado, mas desenvolveu anticorpos e não virou morto-vivo.

A cada capítulo, um novo personagem narra a história. Eles estão inicialmente em diversas partes do Brasil, e rumam para Florianópolis, cidade ilha que está sendo controlada pelas Forças Armadas e, teoricamente, se mantém livre do vírus.

É a saga de quatro desses personagens, mais seus agregados, que vai conduzir o livro. Talvez devido à troca de autor a cada capítulo (o que parece ter sido o caso), algumas das histórias acabam sendo mais interessantes do que outras. Na jornada a Santa Catarina, eles enfrentarão um Brasil devastado. Aqui vale tudo, ou seja, todos os clichês dos filmes pós-apocalípticos.

Estão lá os supermercados saqueados, os caminhões virados nas ruas, a falta de gasolina, os bandos armados, a desconfiança agressiva com os desconhecidos, a pesquisa médica para a vacina, a empresa gananciosa responsável pelo vírus, as aglomerações de infectados vagando a esmo, o andar lento do zumbi até que ele se aproxima e dá um bote relâmpago, as cabeçadas nos vidros dos carros.

Mas o livro cresce quando traz essas batidas situações para a realidade brasileira. As descrições de São Paulo, da serra gaúcha, das praias da região Sul ou do aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, aproximam o leitor, que está mais acostumado a ver mortos-vivos em Londres, Seul e no interior dos Estados Unidos.

A mais engenhosa dessas ideias, no entanto, é a passagem de alguns personagens pela Flip. O nome da festa literária de Paraty não é citado de forma explícita, mas os autores sentem um prazer óbvio ao narrar a transformação de colegas em zumbis comedores de carne. Vale dizer que os escritores desse livro são todos romancistas vencedores de prêmios literários.

Numa ótima passagem em Paraty, um personagem pergunta a outro se todos estão mesmo mortos na cidade. Resposta: “Acho que sim. Vi o Houellebecq numa janela, mas era difícil dizer, ele já tinha cara de morto antes disso tudo”.

A ida de São Paulo para o Rio de Janeiro pela BR-101, aliás, talvez homenageie um outro livro com situação parecida de terra arrasada.

Certamente lembra “Blecaute”, livro de Marcelo Rubens Paiva escrito em 1986, que, no entanto, parte de outro princípio —todo mundo morreu misteriosamente e só três pessoas sobreviveram.

E, se o final não chega a surpreender, deixa aquelas pontas soltas típicas de filmes de terror. Sim, dá vontade de ler uma continuação. O que mais se pode esperar de uma história de zumbis?

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