Mesmo com coronavírus, ainda se pode brincar com a morte, diz Ricky Gervais

Comediante estreia segunda temporada de sua série, a sombria 'After Life'

Dave Itzkoff
The New York Times

O timing cômico de Ricky Gervais costuma ser confiável. Ele ajudou a impulsionar o renascimento da comédia em estilo documental na versão britânica de “The Office”. E se posicionou contra a elite de Hollywood como apresentador do Globo de Ouro. Mas será que o momento cultural atual será receptivo à segunda temporada de “After Life”, a série cômica sombria de Gervais?

Na série, que criou, escreve e dirige, ele interpreta Tony Johnson, viúvo que continua a sofrer com a perda da mulher. Na sua dor, Tony resolve se tornar assertivo, rude e resistente aos esforços dos amigos que esperam encaminhá-lo a percursos mais positivos.

Como está indo sua quarentena? Vivemos em um dos melhores lugares, conhecido como Vale da Saúde. Estamos confinados mas temos autorização para exercícios a cada dia. Tornei-me um desses caras ranzinzas —se vejo alguém fazendo um piquenique, quero logo chamar a polícia.

As coisas mudaram muito para você? Além das apresentações adiadas, não muito. Sempre temos bebida suficiente em casa até para um inverno nuclear. Não vou reclamar. Não quando, a cada dia, vejo alguma celebridade milionária se queixando de estar triste por não estar na TV naquela noite. Ou dizendo que estava triste, mas nadou na piscina e melhorou um pouco.

Você acha que a pandemia ajudou a intensificar o desapreço pela cultura das celebridades? Não tenho coisa alguma contra quem é famoso ou as celebridades. Mas as pessoas estão meio saturadas de levar sermões. As celebridades estão pensando agora: “O público precisa ver meu rosto. Ninguém pode ir ao cinema. Preciso fazer alguma coisa”. E é quando você olha em seus olhos que percebe que, mesmo que estejam fazendo algo de bom, ao mesmo tempo estão pensando: “Nossa, sou uma pessoa tão boa que sinto até vontade de chorar”.

Mas quando você faz uma apresentação como a que fez no Globo de Ouro deste ano, não fica preocupado com as reações? Não, ninguém me olha diferente. E eu não tenho coisa alguma contra essas pessoas.

Esse é o erro que muita gente comete. Acham que cada brincadeira revela a alma do humorista.

Eu às vezes inverto uma piada na metade do caminho e mudo meu ponto de vista, para a coisa ficar mais engraçada. Finjo ser de direita, finjo ser de esquerda. Tenho de ser o bobo da corte, mas um bobo da corte precisa tomar cuidado para não terminar executado. Tenho de fazer os camponeses rirem do rei, mas o rei tem de gostar da brincadeira.

Muita gente conservadora passou a admirar você depois daquela apresentação, porque sentiram que alguém tinha dado um tranco na elite de Hollywood. Você acha que esses novos fãs se afastaram ao descobrir que você não compartilha de seus pontos de vista? Não percebi isso no Twitter até que dois progressistas que ficaram incomodados afirmaram que “Gervais é da direita alternativa”. Fiquei perplexo. Desde quando zoar algumas das empresas mais ricas e poderosas do planeta é uma atitude de direita?

A maioria das pessoas segue alguém online por um motivo ou dois. Se alguém escreve mais tuítes que detesto do que tuítes de que gosto, paro de seguir a pessoa. Ninguém precisa ser perfeito para ter amigos. Os amigos só precisam ser OK, em média.

Os temas da morte e de como lidar com perdas são muito presentes em ‘After Life’. Isso faz a série ser adequada para o momento? Ou a torna mais difícil de ver? Nos esforçamos demais para antecipar as reações das pessoas. A vida real é pior. Elas são capazes de suportar isso tudo. Fico atônito por as pessoas ainda pensarem que eu não deveria brincar sobre isso.

No caso da série —já antes do coronavírus—, as pessoas me paravam para dizer coisas como “perdi
minha irmã três semanas atrás” ou “perdi meu marido”. Ninguém me disse: “Tive de desligar porque fiquei perturbado”. Todo mundo tem perdas a lamentar.

Há uma cena em um dos novos episódios na qual Tony diz que ‘tudo faz mal, ser saudável quer dizer só morrer mais de devagar’. Você mudou de opinião sobre momentos como esse, agora? Creio que seria diferente se fizéssemos uma série especificamente sobre o coronavírus, e haverá centenas delas. E romances. Mas em termos abstratos, é uma brincadeira sobre a morte, e pessoas morrem o tempo todo.

Tony age de um modo niilista. Ele lembra às pessoas que não superou o que aconteceu. Ainda quer punir o mundo. E ele confronta pessoas que estão pior do que ele e fazem com que se sinta mimado. Todo mundo passa por isso.

O que nos leva a superar o niilismo e atitudes como essa? Uma das ideias de “After Life” é que as coisas corriqueiras nos salvam. Precisamos das coisas pequenas. O fato, por exemplo, de que o cachorro salva a vida de Tony, literal e metaforicamente, em um monte de ocasiões. Eu digo para o cachorro “se você soubesse como abrir uma lata, eu estaria morto agora”.

A morte é o tabu final. Vai acontecer. Não queremos que aconteça agora, quando quer que o agora seja.

Mas ainda podemos brincar a respeito. Não sei se isso torna a série mais ou menos pungente ou divertida do que tornaria em qualquer outro momento.

Mas as pessoas fazem todas as coisas que supostamente deveriam fazer, agora. Ficam em casa. Lavam as mãos. Telefonam para seus parentes. E depois acho que querem assistir a “A Máfia dos Tigres”. Sabe? Ninguém pensa no coronavírus enquanto assiste à série. E a vida segue. A vida precisa seguir. A vida segue.

Tradução de Paulo Migliacci

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