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Editora 34 relança títulos de João Antônio e prepara livro sobre período em sanatório

Reedições de obras do contista almejam novo público para o autor de 'Leão de Chácara'

São Paulo

Tal qual um de seus personagens perambulando meio sem rumo pela metrópole, os livros de João Antônio têm uma história editorial de idas e vindas. Trocas constantes de editora, projetos inacabados, títulos há décadas fora de circulação.

A nova tentativa de resgatar a obra do escritor paulistano partiu da editora 34, que lança agora as reedições de “Malagueta, Perus e Bacanaço” e “Leão de Chácara” —os dois primeiros de uma carreira de 15 livros publicados pelo autor, morto em 1996, aos 59 anos.

Está prevista ainda a aguardada reaparição de “Calvário e Porres do Pingente Afonso Henriques de Lima Barreto”, o inclassificável misto de biografia romanceada, memória e reportagem, publicado em 1977, sobre o período em que o autor se internou no antigo Sanatório da Muda, no Rio de Janeiro, e lá conheceu um amigo de Lima Barreto.

O escritor João Antônio (1937-1996) durante uma partida de sinuca
O escritor João Antônio (1937-1996) durante uma partida de sinuca - Divulgação/Arquivo pessoal

A escolha dos dois títulos mais consagrados para dar o pontapé inicial das reedições, diz o editor Milton Ohata, foi feita pensando em “apresentar João Antônio para um público maior”, de olho no leitor que ainda não teve contato com a obra do contista e jornalista.

As novas edições contrastam com a encarnação mais recente do escritor na Cosac Naify, editora que, antes de fechar as portas há cinco anos, havia publicado tanto títulos avulsos como um luxuoso volume em capa dura reunindo os contos do autor.

Com “Malagueta”, lançado em 1963, João Antônio, então com 26 anos, venceu o Jabuti do ano seguinte nas categorias de conto e autor revelação. Suas nove histórias são a porta de entrada para o universo dos marginalizados que ele alçou a protagonista de seu projeto literário.

O trabalho com a linguagem das ruas ganha força em “Leão”, publicado 12 anos depois da estreia. Nesse intervalo, uma experiência decisiva como repórter da revista Realidade, com a qual o autor arriscou novos formatos como o conto-reportagem, e uma mudança para o Rio de Janeiro, cenário de três dos quatro contos do livro.

Segundo Ohata, títulos também publicados pela Cosac como “Dedo-Duro”, de 1982, e “Abraçado ao Meu Rancor”, de 1986, estavam previstos para sair neste ano, mas o impacto da pandemia do coronavírus no cronograma pode deixá-los para 2021.

A editora prepara ainda uma coletânea de textos que o escritor publicou na imprensa sobre o Rio de Janeiro, cidade onde viveu quase 30 anos, com o título provisório de “Águas-Fortes Cariocas”.

Uma nova edição dos “Contos Reunidos” também deve ganhar forma, acrescida de textos encontrados no acervo do autor, hoje sob a guarda da Universidade Estadual Paulista em Assis, no interior de São Paulo.

Nesse material se destaca o conto inédito “Dia de Bomba”, descoberto por Julio Cezar Bastoni da Silva, pesquisador da Universidade Federal de São Carlos, há três anos. O texto, provavelmente escrito na segunda metade de 1968, traz à tona uma faceta ainda pouco conhecida de João Antônio na ficção –a resistência à ditadura militar.

As mais de quatro décadas fora de catálogo, porém, lançam uma expectativa maior sobre a nova edição de “Calvário”, elaboração do tempo que o autor passou num sanatório, onde se internou em 1970 para fugir de uma rotina estressante.

A preparação ficou a cargo de Augusto Massi, professor de literatura brasileira da USP e ex-diretor da Cosac. Ele diz esperar entregar o livro até julho à editora, mas ainda não há previsão de publicação.

As cerca de 90 páginas enganam quem pensa que se trata de tarefa simples. “As pessoas não souberam como lidar com esse livro. É uma reportagem? É uma biografia? É uma biografia romanceada?”, questiona Massi.

Na instituição médica, o contista conheceu Nóbrega da Cunha, jornalista que no final dos anos 1910 conviveu com Lima Barreto. O autor de “Triste Fim de Policarpo Quaresma” era admirado por João Antônio, que na década de 1970, 50 anos após sua morte, buscava reabilitar seus escritos.

“João fala na apresentação que trabalhou como se fosse um roteiro numa moviola. Ele escutou o depoimento de uma pessoa que conheceu Lima Barreto e fez esse trabalho de montagem. Selecionou pequenos trechos da obra de Lima, que acompanham o fluxo da entrevista”, afirma Massi.

O professor da USP diz que, ao recordar o trajeto de bares e livrarias que Barreto frequentava no Rio de Janeiro daquela época, João Antônio retraça não só o roteiro do boêmio ou do intelectual, mas de todo trabalhador com ofício no centro que se deslocava até o subúrbio.

Cerca de sete anos se passaram entre a internação e a publicação, o que mostra que “João Antônio não escrevia sem fazer pesquisa”, conclui Massi. “Ele teve que ter esse tempo para reacomodar todas essas informações e achar uma forma que desse conta dessa complexidade de relações. É inclassificável por isso, todos os livros importantes rompem os escaninhos tradicionais de gêneros.”

Massi rechaça a pecha de popular que o autor recebeu, já que se trata de uma “obra formalmente muito elaborada, que pode dar a impressão de algo popular, mas não é fácil fazer aquilo com a densidade que ele faz". "Por trás tem um conhecimento urbanístico, um corpo a corpo com a cidade.”

Ele ressalta ainda um aspecto particular desse livro. “O João Antônio faz o trabalho de resgatar o escritor esquecido, resgatar o jornalista que está internado. Uma literatura com elemento ético, de interferir na vida.”

Malagueta, Perus e Bacanaço

  • Preço R$ 47 (160 págs.)
  • Autor João Antônio
  • Editora 34

Leão de Chácara

  • Preço R$ 42 (120 págs.)​
  • Autor João Antônio
  • Editora 34

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