Descrição de chapéu The New York Times

Público sai do confinamento na Alemanha para ouvir Schubert e Mahler

Menos de 200 foram a um concerto no Teatro Estadual de Hesse, que normalmente recebe mil pessoas

Jack Ewing
Wiesbaden (Alemanha) | The New York Times

Normalmente, quando um músico olha para além dos holofotes que iluminam o palco, na direção da plateia escurecida de um teatro, e vê um em cada quatro assentos ocupado, isso não é um bom sinal.

“Será que não somos bons?”, recorda o barítono austríaco Günther Groissböck de ter pensado ao subir ao palco diante de uma audiência esparsa, segunda-feira (18) à noite no Teatro Estadual de Hesse, em Wiesbaden. “Será que somos impopulares?”

Pelo menos três assentos desocupados separavam cada assento ocupado, no auditório neobarroco que normalmente acomoda mil espectadores mas recebeu menos de 200 na noite de segunda-feira.

Isso era proposital, como parte de uma tentativa debatida vigorosamente e potencialmente perigosa de retomar os espetáculos ao vivo, à medida que a primeira onda do coronavírus se abranda na Europa. O concerto em Wiesbaden poderia servir como modelo para outros teatros —ou como alerta, se qualquer dos presentes adoecer.

Ainda que Groissböck compreendesse o arrazoado de distanciamento social que explica os assentos vazios, a sensação ainda era estranha, ele disse, depois da apresentação de obras de Schubert e Mahler.

“No começo parecia quase que uma instalação de arte, um experimento”, ele disse. “Mas de canção em canção a situação se tornou repentinamente muito humana.”

Os espectadores tinham de usar máscaras de proteção para a chegada ao teatro, embora estivessem autorizados a removê-las assim que se acomodassem em seus assentos. Os ingressos não traziam lugares marcados, e membros de uma mesma família ou companheiros de residência podiam se sentar ao lado uns dos outros.

O teatro registrou o nome e endereço de todos os espectadores para que pudesse contatá-los mais tarde caso descobrissem que alguém lá estivesse infectado.

A força motora do evento foi Uwe Eric Laufenberg, um veterano ator que é diretor do teatro de Wiesbaden.

Nem todo mundo está contente com sua campanha agressiva pela retomada das apresentações ao vivo.

No mês passado, Laufenberg causou uma tempestade política ao definir as restrições impostas pelo governo como uma violação da constituição alemã e ao dar a entender que a reação à pandemia era exagerada. Laufenberg foi acusado por alguns comentaristas de estar ecoando os argumentos de organizações direitistas que protestaram contra as medidas tomadas para impedir a difusão do vírus.

Laufenberg declarou em entrevista que alguns empregados do teatro tinham objeções a reabrir tão cedo.

Mas a apresentação da segunda-feira, a primeira em uma série que continuará diariamente até a primeira semana de junho, é parte do retorno generalizado à normalidade na Alemanha, onde o crescimento no número de casos caiu bem abaixo de 1%.

O país está adiante da curva na retomada das atividades do setor cultural. Lojas, cabeleireiros e manicures estão atendendo clientes de novo, e as escolas voltaram a operar em horários abreviados. No estado de Hesse, do qual Wiesbaden é a capital, restaurante e academias de ginástica foram autorizados a reabrir, desde que os visitantes respeitem o distanciamento.

Em outras partes da Europa, os governos também estão tomando medidas para reconduzir os apreciadores da música às salas de concerto. A Áustria anunciou na semana passada que um novo limite de mil pessoas foi proposto para a lotação de eventos, caso os organizadores apresentem um plano de segurança para aprovação pelo governo —um desdobramento que levou o Festival de Salzburgo, uma das mais grandiosas tradições culturais dos verões europeus, a anunciar que pretende levar adiante suas apresentações, de alguma forma.

Na Itália, o governo aprovou um decreto na segunda-feira que permite que os concertos sejam retomados a partir de 15 de junho, desde que respeitem determinadas condições, entre as quais a de que todos os envolvidos —ou seja, músicos e audiência— mantenham distanciamento mínimo de um metro.

Laufenberg disse que organizar um concerto e ao mesmo tempo respeitar as normas de saúde envolvia negociar com as autoridades e reprogramar o software de venda de ingressos do teatro, em menos de três dias. Barreiras foram instaladas para conduzir o público ao teatro sem aglomerações. Placas foram instaladas para orientar o fluxo do tráfego pedestre e explicar as medidas de combate ao contágio.

Estações de higienização de mão foram instaladas em locais estratégicos.

“É mais fácil fechar um teatro do que reabri-lo”, disse Laufenberg.

Durante o intervalo, vinho, pretzels e outros petiscos foram servidos do lado de fora do teatro, em um carrinho estacionado perto das colunas na entrada do local, em lugar de no saguão, como de costume. Por sorte o tempo na segunda-feira estava quente e límpido.

“Não é a atmosfera a que estamos acostumados”, disse Wolfgang Allin, arquiteto austríaco que tem uma casa em Wiesbaden, pouco depois que ele e a mulher, Angelika, se acomodaram no balcão. “Mas é preciso aceitar as coisas como são.”

A ideia da apresentação da segunda surgiu de discussões entre Laufenberg e Groissböck, que trabalharam juntos no ano passado na encenação de “Parsifal”, de Richard Wagner, no Festival de Bayreuth, na Alemanha (que este ano cancelou suas apresentações).

Groissböck estava em casa, na Suíça, disse, tentando combater a depressão. “Nós nos damos bem”, ele disse sobre Laufenberg, “e compartilhamos da mesma atitude rebelde” ante as restrições.

O barítono escolheu o título do concerto, “Meu Espírito Anseia por Ação, Meus Pulmões por Liberdade”, um verso de Schiller. Ele disse que era uma expressão de sua frustração com o confinamento.

Groissböck e Alexandra Goloubitskaia, a pianista que o acompanhou, aceitaram cachês drasticamente mais baixos que os usuais. “O dinheiro é a última prioridade no momento”, disse o cantor, acrescentando que “estou muito feliz por isso estar acontecendo”.

Para o bis, Groissböck cantou um trecho de um papel que desempenharia em Bayreuth se a pandemia não tivesse interferido, a "Despedida de Wotan", do final de “Die Walküre” de Wagner. O público celebrou, compensando em volume o que lhe faltava em números.

Mas Laufenberg disse que apresentações como essa não são a solução definitiva, quer em termos financeiros, quer em termos artísticos. “Se você quer contar a história de Romeu e Julieta, não será possível seguir as normas de distanciamento social”, ele disse. “Não imagino que eu desejasse fazê-lo”.

Tradução de Paulo Migliacci

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