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Livros

Tony Bellotto une bandidagem e sexo em 'Dom', seu melhor livro

Guitarrista dos Titãs se inspirou em história real de ladrão de residência do Rio

Dom

  • Preço R$ 74,90 (340 págs.)
  • Autor Tony Bellotto
  • Editora Companhia das Letras

Em seu livro anterior, “Lô”, Tony Bellotto contou a história de um cinquentão em crise existencial que se envolve com uma adolescente.

Nessa incursão à chamada crônica de costumes, ele não aguentou e, na parte final do romance, incluiu uma trama policial, gênero que o identifica na cena literária nacional.

Agora chega às livrarias “Dom”, no qual ele volta a dedicar seu texto ao mundo do crime. Tendo como ponto de partida um personagem real, o ladrão de residências Pedro Dom, ele cria a trama deste que é o melhor entre a dezena de livros que já lançou na carreira de escritor.

Desde sua estreia literária em 1995, com “Bellini e a Esfinge”, o guitarrista dos Titãs ganhou espaço como um autor consistente, dono de um estilo fluido de narrar. A fama na música ajudou para que um grande público passasse a conhecer o personagem Bellini, protagonista de quatro de seus romances.

Mas existe muita diferença entre as aventuras desse detetive carioca fictício e a história contada agora em “Dom”. Desta vez, o foco está na bandidagem, e a trama se desenrola em dois períodos diferentes de tempo.

Na maior parte das páginas, ele conta a vida de Pedro desde a infância, passando pela adolescência em que a busca de adrenalina se divide entre o surfe e os primeiros assaltos a residências. Sua curta saga irá terminar em 2005, aos 23 anos, já um bandido lendário considerado o inimigo público número um do Rio de Janeiro.

As peripécias de Pedro são episódios alternados com o relato da carreira de seu pai. Victor Lomba é um ex-policial que nos anos 1970 integrou o Esquadrão de Ouro, notório grupo de extermínio que atuou no Rio durante a ditadura.

Com o nascimento dos filhos, Pedro e duas irmãs, Victor deixa a corporação e passa a ganhar a vida como marceneiro, separado da mulher que tem uma loja de antiguidades na zona sul carioca. Sua intenção de ficar afastado da cena policial vai ruir diante dos crimes do filho.

Bellotto se sai bem ao criar os outros personagens que cruzam a vida de Pedro, entre comparsas, policiais corruptos que cobram participação nos roubos e suas namoradas.

Primeiro ele começa a andar com uma garota, depois passa a namorar outra. Em pouco tempo, não sem antes muita briga entre elas, as duas vão integrar a quadrilha.

Bonitas, têm uma atuação fundamental nos roubos a residências, usando truques de sedução com aqueles que estão no caminho entre Pedro e aquilo que ele quer roubar.

Embora as aventuras de Bellini sejam um sucesso de público e critica, algumas pessoas observaram que as histórias criadas por Bellotto poderiam se configurar um pouco anacrônicas. Há um clima de policial noir nelas, o que as deixaria um pouco deslocadas no Rio de Janeiro extremamente violento de hoje.

Mas talvez essa injeção de nostalgia de um Rio de outra época seja até a principal qualidade que atrai leitores para Bellini. No entanto, Pedro Dom está realmente numa frequência diferente.

Personagens e diálogos são muito convincentes. O autor consegue uma conexão fluente com o que realmente acontece nesse caldeirão carioca capaz de misturar classe média alta com bandidagem do morro. Sexo, violência e drogas, tudo está encadeado de uma forma coesa.

Dois trechos do livro se destacam. Um deles é a temporada que Pedro passa trancafiado numa prisão no Espírito Santo, com minúcias da vida cruel dentro de uma instituição como aquela.

Mas o ponto alto do romance talvez seja sua conclusão, uma condução frenética dos acontecimentos que deixa o leitor agarrado ao livro. As últimas 70 ou 80 páginas de “Dom” são uma prova irrefutável de que Bellotto é um grande escritor.

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