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Drive-in no Memorial da América Latina vira refúgio de cinéfilos confinados

Cinema de rua Belas Artes inaugurou programação de filmes ao ar livre com 'Os Melhores Anos de uma Vida'

São Paulo

Diversas luzinhas sobrevoam um dos portões de acesso ao Memorial da América Latina. É um fato incomum em tempos de coronavírus, em que dezenas de instituições culturais se encontram fechadas, mergulhadas na escuridão.

Mas o complexo decidiu que não ficaria vazio, longe dos corpos que normalmente refletem nas fachadas projetadas por Oscar Niemeyer, por tanto tempo. Em parceria com o cinema de rua Petra Belas Artes, ele acaba de inaugurar um drive-in.

Agora, os carros é que povoam o pátio principal do Memorial, antes dedicado a shows e feiras de gastronomia.

A abertura do Belas Artes Drive-in, só para convidados, foi com uma sessão de “Os Melhores Anos de uma Vida”, lançado pelo francês Claude Lelouch no Festival de Cannes do ano passado e até então inédito no Brasil.

Com seus exatos 90 minutos de duração, o drama deu um gostinho do que aguarda o Memorial nas próximas semanas, mesmo que não cause tanta comoção quanto um Kubrick ou um Tarantino, cineastas contemplados pela programação do Belas Artes Drive-in.

Os convidados desta primeira noite de evento, é bem verdade, não foram impactados pela força que é assistir a “Apocalypse Now”, por exemplo, ao ar livre, depois de tantas semanas de quarentena.

O clássico dirigido por Francis Ford Coppola em 1979 é que abrirá a programação para o público geral, nesta quarta (17). Apesar de falar dos horrores da Guerra do Vietnã, o longa certamente servirá como uma fuga do apocalipse que se desenrola na vida real, com o novo coronavírus.

Seja com Anouk Aimée ou Marlon Brando na tela, a verdade é que tudo ali foi recriado não a fim de promover uma volta a um passado distante, quando os drive-ins reinavam, mas, sim, de retornar a um passado mais próximo, quando ir ao cinema era uma opção de lazer recorrente na agenda do paulistano.

Para recriar a experiência, há um pit stop numa bonbonnière que abastece os carros com pipoca, trailers de filmes que farão sua estreia diretamente na sala de casa, um momento de comoção no qual as luzes se apagam devagarzinho e, de certa maneira, uma sensação de coletividade, que muitos julgam ser a essência do ato de ir ao cinema.

Foi pouco antes desse mergulho no máximo de escuridão que se pode alcançar quando se está às margens de uma avenida paulistana que André Sturm, dono do Belas Artes e também da iniciativa, ligou oficialmente os motores do projeto.

“Queria agradecer muito a presença de todos. Estou muito feliz de inaugurar esse drive-in e de trazer de volta uma diversão do passado”, anunciou sua voz, saída das caixas de som dos carros —é sintonizando o rádio numa estação FM que se acompanha o áudio dos filmes.

Para fazer o projeto acontecer, ele contou com um número considerável de profissionais, que ficam espalhados, sempre a postos para orientar o público. Vestindo coletes e máscaras de pano —além de, nos casos de quem lida diretamente com os motoristas para verificar ingressos ou entregar pipoca, também proteções de plástico que cobrem todo o rosto—, os funcionários ajudam a estacionar e podem ser acionados com o pisca-alerta do carro.

Para alguns, os 90 minutos passados no diminuto espaço de um carro parado podem causar ansiedade. Tanto que, mal começaram a subir os créditos de “Os Melhores Anos de uma Vida”, já se podiam ouvir motores sendo ligados, com carros avançado vagarosa e nervosamente em direção à saída.

Quando comparado a “Apocalypse Now” e a outros títulos do Belas Artes Drive-in, o drama francês parece fichinha. No caso da obra de Coppola, falamos de uma longa de 147 minutos, acrescidos de mais meia hora, já que é a versão do diretor, a “Final Cut”, que integra a programação.

As semanas que paulistanos têm passado enclausurados em suas casas precisarão ser convertidas em treinamento para que os impacientes aguentem o verdadeiro teste de resistência que é ficar confinado no banco do carro por tanto tempo. E isso leva a crer que, talvez, filmes mais curtos e dinâmicos possam casar melhor com a experiência do drive-in, até mesmo pela tela considerável, mas não tão gigante, do projeto.

Pela preocupação manifestada por muitos médicos e especialistas quanto ao relaxamento do distanciamento social em São Paulo, que poderia aprofundar ainda mais a crise sanitária, é possível que este e outros drive-ins que surgiram na cidade continuem sendo, por um bom tempo, uma das únicas formas seguras de diversão para além do sofá.

Sturm já disse que a ideia é manter o projeto até o fim do ano e, por enquanto, estão garantidas sessões até o dia 26 de julho. No que depender do público, o drive-in tem tudo para ser duradouro —os ingressos das primeiras quatro semanas se esgotaram rapidamente.

Por isso, uma nova leva de entradas, para as duas semanas seguintes, foram disponibilizadas pela organização do evento nesta semana e contemplam títulos como "Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos", "Interestelar" e o oportuno (ou nem tanto) "Christine, o Carro Assassino".

Belas Artes Drive-in

  • Quando De terça a domingo. Até 26/7
  • Onde Memorial da América Latina, r. Tagipuru, São Paulo
  • Preço R$ 65
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