Cinema drive-in volta a triunfar na cultura do isolamento social

Enquanto salas de espetáculo estão fechadas, empresas resgatam exibição de filmes para pessoas em carros

lady gaga e bradley cooper em telona com carros à frente

Sessão de "Nasce uma Estrela" no cinema drive-in no shopping Litoral Plaza, em Praia Grande (SP) Mathilde Missioneiro/Folhapress

Praia Grande (SP)

Que o cinema é uma arte em constante movimento, sabemos. Não é de hoje que filmes se adaptam a novas plataformas para chegar aos seus espectadores, tendo se ajustado a televisão, DVD, streaming. Mas talvez seja a primeira vez em que acontece um passo para trás.

Os cinemas drive-in, que faziam sucesso em gerações passadas, vêm ensaiando uma volta triunfal ao dia a dia daqueles que querem continuar assistindo a filmes fora de casa, mas ainda não podem se aventurar numa sala de exibição tradicional.

Depois de os Estados Unidos observarem que o modelo voltou a fazer sucesso nos últimos meses, iniciativas do tipo vêm surgindo em São Paulo e Rio de Janeiro, e o tradicional Cine Drive-in de Brasília, inaugurado em 1973 e um dos únicos bastiões que resistiam no país, tem visto um movimento impressionante.

“Sentimos um cinema diferente por causa da pandemia. A gente até estranha essa mudança toda”, afirma Marta Fagundes, diretora do complexo brasiliense, que recebe carros desde 1978.

Se numa segunda-feira normal ela tinha de 30 a 40 carros no drive-in de 400 lugares, hoje tombado como patrimônio cultural, nesta última ela viu entrarem 150 veículos. No primeiro fim de semana após a reabertura, estendido por causa do Primeiro de Maio, ela vendeu 2.800 ingressos e recebeu ligações estupefatas, checando se o número não estava errado.

“Tivemos uma surpresa com a reação das pessoas, que ficaram às vezes uma hora na fila para entrar”, diz Fagundes, contando que a capacidade do cinema foi reduzida à metade, para garantir distanciamento entre os espectadores.

Em São Paulo, a rede Cinesystem abriu neste mês um complexo de drive-in em Praia Grande, a 71 quilômetros da capital, onde o repórter acompanhou uma sessão de “Nasce uma Estrela”, de Bradley Cooper.

Em todo o caminho da garagem de casa até os fundos do estacionamento do shopping Litoral Plaza, onde foi erguida a tela, a única aproximação humana foi com funcionários que vendiam ingresso na entrada e, depois, serviam pipoca e bebida direto na janela do carro –com equipamentos de proteção como máscaras e luvas.

O cinema distribui também, num panfleto onde consta o número de WhatsApp que recebe os pedidos da bombonnière, uma orientação para permanecer o tempo todo no carro e, se precisar ir ao banheiro, levar máscara no rosto.

Está sublinhada ali a necessidade de que a visita seja feita só com pessoas que já estejam no convívio do motorista —ninguém quer, por exemplo, que namorados ou amigos aproveitem a deixa para furar a quarentena.

Exaurida essa preocupação inicial —a segurança do modelo, afinal, é um atrativo tão ou mais importante que qualquer saudade da tela grande—, vale notar que assistir a um filme de trás do para-brisas é uma experiência peculiar, pela qual a maioria dos mais jovens nunca passaram.

Desaparece o incômodo com o brilho insuportável do celular do vizinho, mas surgem novos desafios –o inconveniente que deixa o farol aceso e atrapalha a escuridão total; o vidro do carro que embaça no clima úmido (um paninho vem a calhar); a necessidade de manobrar para se meter em um lugar com boa visibilidade.

O repórter, que chegou em cima da hora, teve de ouvir da acompanhante “os assentos do meio já estão todos pegos”. Mesmo estacionado no canto esquerdo, dava para ver perfeitamente a tela, exceto do banco de trás, onde era preciso fazer contorcionismo para enxergar. Se for, vá em dupla —ou só com filho pequeno.

Até daria para dizer que as conversas alheias não atrapalham mais, mas é preciso manter o vidro aberto para não sufocar e tem gente que, aí sim, não faz a menor questão de controlar os decibéis.

Os filmes exibidos no complexo são todos dublados, o que pode ser problema para alguns. Já que no drive-in as letrinhas da legenda podem ficar longe demais para quem tem a vista imperfeita, diz Sherlon Adley, diretor da Cinesystem, optaram pela dublagem, que chega direto aos ouvidos por uma estação de rádio voltada especialmente para as sessões.

Então a voz de Lady Gaga, mantida só nas canções do musical, acabou intercalada com uma dubladora de timbre bem mais fino.

Por ali também a oferta tem encontrado demanda. No primeiro dia de abertura do drive-in, uma segunda-feira, os 60 lugares da sessão das 21h se esgotaram com antecedência. No primeiro sábado, segundo Adley, as três sessões do dia venderam um total de 348 ingressos a R$ 15 (por pessoa, não por carro), e o cinema pretende ampliar o número de exibições na próxima semana.

Mesmo sendo a primeira a desbravar o território paulista, a iniciativa do Cinesystem não é a única.

A Cidade das Artes, na zona oeste do Rio, anunciou que vai abrir antes do fim do mês uma estrutura com capacidade para receber 150 carros. A Dream Factory, especializada em eventos de grande porte, negocia com oito capitais para montar o que o diretor-executivo da empresa, Claudio Romano, define como um “grande parque de entretenimento” em modelo drive-in, com todo tipo de espetáculo.

A conversa está avançada com São Paulo, Rio e Belo Horizonte, mas não há previsão de abrir nada antes do fim de junho, para garantir que o pico do Covid-19 já terá passado. “Abrir agora vai totalmente contra as medidas de isolamento”, diz Romano. “Sabemos que é importante, hoje, as pessoas ficarem isoladas. Não queremos fazer nada que as tire de casa.”

A opção drive-in, como se vê no plano da empresa, não precisa ficar restrita ao cinema. O ator Robson Catalunha, do grupo Os Satyros, tem um plano de realizar apresentações de teatro, música e dança vistas de dentro de carros, em Sorocaba, sua cidade-natal no interior paulista, em parceria com outros artistas de lá.

O projeto era começar no último sábado, mas também houve receio de que as pessoas fossem escapar da quarentena num momento em que o número de mortes só sobe. Agora, afirma ele, pretendem transformar a ideia num edital público, que sirva para dar suporte a quem trabalha com arte e está sem renda. “Não dá para deixar de olhar para a classe artística como um todo”, diz.

Na Alemanha, jovens saudosos de festas fizeram uma rave em que as pessoas participavam de dentro de seus carros. Nos Estados Unidos, mesmo igrejas têm feito missas para motoristas no espaço do estacionamento.

O governador Andrew Cuomo, de Nova York, anunciou na segunda um plano de relaxamento ainda bem temeroso, mas que fazia questão de permitir expressamente a reabertura de drive-ins. E até distribuidores têm se adaptado. A Amazon anunciou que a pré-estreia de seu thriller “The Vast of the Night” vai acontecer em cinemas desse tipo, nos Estados Unidos, antes de entrar no seu serviço de streaming, no fim do mês.

É claro que o modelo de drive-in tem muitas limitações —basta notar que, para ter acesso, é preciso ter um carro. Mas, enquanto o futuro do cinema segue mais que incerto, talvez uma solução seja ir de volta para o passado.

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