Descrição de chapéu The New York Times

Mostra de arte para carros transforma gramados e garagens em galerias

'Como mostrar empatia e solidariedade nessa nova era à qual falta solidariedade emocional?', pergunta curador

Stacey Stowe
The New York Times

Ninguém deveria se aproximar demais dos outros espectadores durante uma exposição motorizada de obras de 52 artistas no South Fork de Long Island –uma dose de cultura em meio ao isolamento esterilizado imposto pela pandemia. Mas algumas pessoas não conseguiram se controlar.

“Pelo menos esse aqui parece arte”, disse um homem, desembarcando de um BMW conversível na porta de uma casa rústica em Sag Harbor, num sábado, no estado americano de Nova York.

Ele e duas outras pessoas examinaram as pinturas, uma homenagem brincalhona aos mestres da arte do passado, por Darius Yektai. Os quadros estavam montados em tábuas pregadas em árvores.
“Diferente das outras coisas”, disse o espectador.

As “outras coisas” estavam em exposição em gramados, varandas, entradas para automóveis e portas de garagem de imóveis, de Hampton Bay a Montauk; algumas peças eram trabalhos de artistas proeminentes e outras, de gente menos conhecida. Em um final de semana de vento forte e céu azul, a maioria dos espectadores contemplava as obras de dentro de seus carros, mas houve quem fosse de bicicleta ou a pé à exposição “Arte Drive-By”.

A mostra foi concebida por Warren Neidich, um artista e estudioso da teoria da arte que vive em Los Angeles e Berlim. Ele também planejou uma exposição para espectadores motorizados em Los Angeles, no final de semana do Memorial Day (feriado que honra os militares americanos mortos nas guerras do país; este ano o feriado caiu no dia 25 de maio).

“Como mostrar empatia e solidariedade nessa nova era à qual falta solidariedade emocional?”, questionou Neidich, que montou a exposição em menos de três semanas, quando estrava hospedado em uma casa em Wainscott. “Senti a necessidade de encontrar uma maneira de revisitar e de criar um novo vocabulário.”

A exposição tinha um ar caseiro. Os cartazes, em papel amarelo fino, às vezes apontavam para a direção errada. O mapa do site não oferecia muitos detalhes; pelo menos um dos endereços estava errado. Mas as pessoas apareceram mesmo assim, algumas usando máscaras, algumas não, em picapes enlameadas e utilitários esportivos reluzentes, carros esportivos e Subarus, desfilando diante dos imóveis e olhando, para variar, para outra coisa que não uma tela de computador ou televisão.

Os artistas envolvidos incluem Jeremy Dennis, cujas silhuetas de madeira recobertas de imagens, por exemplo a de um encontro entre o presidente Richard Nixon e Elvis Presley, fazem um comentário ácido sobre a cultura pop; a escultora Monica Banks, cujas obras brincavam com as cercas-vivas características dos Hamptons; e Joe Brondo, um artista multidisciplinar que posicionou três globos luminosos no gramado de sua casa em East Hampton.

Sob um candelabro pendurado de uma árvore, Dionne Blell apresentou “Mesa para Dois/Mesas Separadas”, com mobília posicionada para uma refeição em restaurante sob as regras de distanciamento social; na mesma linha, Toni Ross e sua filha Sara Salaway posicionaram cadeiras dobráveis ao longo de uma cerca em Wainscott, com datas e palavras, criando um calendário do isolamento social.

Sem o carimbo de uma galeria ou o ambiente augusto oferecido por um museu, as obras falam por si sós –para o bem e para o mal. As esculturas em tamanho natural de ninfas dançarinas, de Eric Fischl, eram amplificadas pelas árvores de sua casa em Sag Harbor, enquanto um pedaço solitário de madeira encontrado na praia, fincada em uma entrada para carros e pintado por Joan Jonas de forma a marcar a distância de dois metros adotada para o isolamento, oferecia uma visão melancólica.

Aconteceram interações espontâneas. A artista Bastienne Schmidt, usando uma casaco azul brilhante e calças vermelhas, acenava às pessoas que paravam para ver sua instalação de estacas envoltas em lona fincadas a dois metros de distância uma das outras, na casa que ela divide em Bridgehampton com seu marido, o fotógrafo Phillippe Cheng. Kathryn McGraw Berry, uma arquiteta que estava vendo as obras expostas de dentro de seu Audi dourado, conversou com Eric Dever, que estava verificando a resistência ao vento de seus 12 quadros montados em estacas, em sua casa do século 18 em Water Mill.

“É gostoso ver uma obra sua na paisagem, quando você esteve trancafiado em casa”, disse Dever. "Cresci no sul da Califórnia, e por isso aprecio a ideia de arte para espectadores motorizados."

No caso de Suzane Anker, artista que estabeleceu o Laboratório de Bioarte da Escola de Artes Visuais de Nova York, três caixas galvanizadas repletas de mudas de plantas estavam posicionadas sobre pedestais, em East Hampton. As caixas eram parte de uma série de 31, para recriar parte do processo luminoso que produz a fotossíntese nas plantas.

Ela disse que participou da exposição para espectadores motorizados para dar às pessoas algo para fazer enquanto as instituições culturais estão fechadas.

“É uma caça ao tesouro única, na qual você segue as pistas, vê a arte e também vê onde os artistas vivem”, disse ela. “Há toda uma diversidade de lugares e um tipo de intimidade que o espectador em geral não experimenta.”

Tradução de Paulo Migliacci

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