Descrição de chapéu The New York Times Cinema

O que assistir de Spike Lee antes do novo filme do diretor, que estreia hoje

O trabalho do cineasta americano pode ser de qualidade desigual, mas nunca é desinteressante

A.O Scott
The New York Times

A primeira vez que vi Spike Lee foi no trailer de "Ela Quer Tudo" vendendo meias soquete numa esquina para comprar “manteiga para meu pão integral”. Isso foi em 1986. Desde então, assisti a todos seus filmes assim que estrearam, e isso vai continuar com seu novo trabalho, “Destacamento Blood”. Isso inclui documentários, filmes de shows e vídeos musicais, além de mais de 20 longas.

O trabalho de Lee pode ser de qualidade desigual, mas nunca é desinteressante, mesmo que sua persona pública tenha por vezes desviado nossa atenção do seu trabalho propriamente dito. Suas declarações francas, engraçadas e às vezes enfurecedoras em entrevistas e nas redes sociais são provas de sua paixão pela política e também de seu caráter brincalhão, qualidades que infundem seus filmes também.

Muitos de seus filmes encaram a questão do racismo americano, passado e presente, lançando um olhar impiedoso sobre suas crueldades e contradições. Os melhores deles também são obras de arte cinematográfica ímpares, transbordantes de criatividade visual, atuações memoráveis e música do tipo que não sai da nossa cabeça.

Se você procura uma introdução a uma obra imponente e eclética, veja aqui minhas nove recomendações de trabalhos imperdíveis de Spike Lee, classificados segundo aquilo que é essencial para você.
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Quero um grande filme que fez história

“Faça a Coisa Certa”

Em 30 anos este estudo de tensão racial fervilhante em alguns quarteirões de Bedford-Stuyvesant passou de controverso a clássico. Como observou Reggie Ugwu em seu perfil recente de Spike Lee, a indignação do cineasta com a injustiça racial da América frequentemente tem sua origem em sofrimento pessoal, e “Faça a Coisa Certa” não é tanto incendiário quanto profundamente triste. E é constantemente, dolorosamente pontual. No momento em que escrevo este texto, cidades em toda a América estão queimando depois do assassinato de George Floyd pela polícia. E é pouco provável que as causas da agitação, tão poderosamente dissecadas em “Faça a Coisa Certa”, desapareçam no futuro próximo. Não é improvável que outra história semelhante esteja acontecendo em algum lugar da América no momento em que você lê estas linhas.

O clímax violento é verossímil demais, infelizmente, e impossível de esquecer, especialmente pelo fato de emergir de um retrato tão caloroso, afetuoso e divertido de um bairro e seus personagens. Esse paradoxo —que Radio Raheem (Bill Nunn) descreve como a interminável batalha do amor contra o ódio— é um fato essencial da história americana, algo que nenhum outro filme conseguiu mostrar tão bem.

120 minutos, 1989


Quero um grande filme sobre história

“Malcolm X”

A ideia de um filme sobre Malcolm X já estava fazendo as rondas de Hollywood havia mais de 20 anos quando Spike Lee topou encarar o desafio. Seu filme fez mais do que converter bonés de beisebol com estampa de X em um item da moda: mostrou que cinema épico pode ser politicamente urgente e que uma cinebiografia pode pode capturar a atenção de multidões. Modificando sua paleta visual e seu clima para corresponder a cada década da história, “Malcolm X” é uma comédia, uma história de amor, um quase musical e um suspense, sendo tudo isso amarrado pela performance sombria, espirituosa e totalmente eletrizante de Denzel Washington. Muito se pode dizer sobre Spike Lee, mas uma coisa que parece nunca ser mencionada com frequência suficiente é que ele é um dos melhores diretores de atores de todos os tempos, no mesmo nível de Elia Kazan, Sidney Lumet e Martin Scorsese. (Se você pensar neste filme e em “Mais e Melhores Blues”, verá também que Spike Lee é um dos melhores diretores de Denzel Washington.)

202 minutos, 1992


Quero os tênis

Comerciais da Nike

Quem foi o maior fã original dos tênis? Você sabe, por acaso? Foi Mars Blackmon, o alter ego de Spike Lee de “She’s Gotta Have It”, que se reinventou como a voz do hype em torno de Michael Jordan numa série de anúncios da Nike que foram impossíveis de se evitar no final dos anos 1980 e início dos anos 1990. A criação daqueles spots —de 30 segundos, filmados no preto e branco que Spike Lee tanto ama— significa que o cineasta se vendeu? Talvez, mas os comerciais também representam um ato de sinergia excepcional, uma fusão de esportes, cinema, cultura de rua e capitalismo bruto, algo com que ainda convivemos e dentro do qual ainda vivemos.

No YouTube.


Quero dar risada

“Os Verdadeiros Reis da Comédia”

Filmar uma apresentação ao vivo nunca é tão fácil quanto parece —captar a energia da plateia, o suor e o nervosismo das pessoas sobre o palco, todas as surpresas que inevitavelmente aparecem. E é preciso prestar os respeitos devidos aos quatro comediantes que fazem a maior parte do trabalho pesado aqui: Steve Harvey, D.L. Hughley, Cedric the Entertainer e o insubstituível Bernie Mac. Mas o que faz de “The Original Kings of Comedy” um trabalho autêntico de Spike Lee é sua generosidade —o amor que o filme transmite pelos reis, no comando de sua corte.

115 minutos, 2000


Quero ter lembranças de Brooklyn como era antes

“Crooklyn – Uma Família de Pernas para o Ar”

Spike Lee cresceu no Brooklyn pré-gentrificação, filho mais velho de um músico e uma educadora. Colaborando com sua irmã Joie e seu irmão Cinqué, ele recriou o clima de sua infância nesta reflexão agridoce sobre a vida familiar e do bairro. Delroy Lindo e Alfre Woodard estão maravilhosos como os pais.

Mas “Crooklyn”, filmado com enorme carinho por Arthur Jafa e com trilha sonora perfeita de Terence Blanchard, é dominado pela jovem Zelda Harris no papel de Troy, a filha esperta e observadora.

115 minutos, 1994


Quero um policial com Denzel e um pouco de política

“O Plano Perfeito”

De quando em quando Spike Lee gosta de mostrar que sabe trabalhar com vários gêneros. Como alguns dos cineastas nova-iorquinos cujos rastros ele segue, Lee se interessa por policiais e bandidos, perseguições e façanhas. Isso é visível em “Irmãos de Sangue”, baseado num romance de Richard Price, e “Oldboy – Dias de Vingança”, um remake do clássico de vingança sul-coreano. Mas o thriller mais puro que Lee já criou é “O Plano Perfeito”, com seu elenco de primeiro nível (Jodie Foster, Clive Owen, Willem Dafoe, Chiwetel Ejiofor e Christopher Plummer, além de Denzel Washington), iluminação azul gelada e sua crítica mordaz, porém sutil do dinheiro e o poder na Nova York pós-11 de setembro.

129 minutos, 2006


Quero um policial com o filho de Denzel e muita política

“Infiltrado na Klan”

“Malcolm X” começa com imagens do espancamento de Rodney King por policiais de Los Angeles em 1991. “Infiltrado na Klan” termina com um vídeo do assassinato de Heather Heyer na manifestação supremacista branca de 2017 em Charlottesville, Virgínia. Em ambos os casos, o que se quer mostrar é que quando se trata do racismo americano, o passado nunca passou por completo. Baseado numa autobiografia de Ron Stallworth (John David Washington), o primeiro investigador afro-americano na polícia de Colorado Springs, Colorado, o filme é o tipo de mistura de gêneros que é uma característica própria de Spike Lee. É em parte romance, em parte filme de amigos, em parte policial, na medida em que vemos Stallfoworth e um colega judeu (Adam Driver) infiltrando a sucursal local da Klux Klan. É um filme que entretém tremendamente e é um soco no estômago.

135 minutos, 2018


Quero um policial com política diferente do que se poderia prever

“A Última Noite”

Adaptado de um romance de David Benioff, este drama do submundo foi rodado principalmente em Manhattan nos meses seguintes aos ataques do 11 de setembro, uma catástrofe que assombra o filme sem ser seu tema explícito. Monty Brogan, um mafioso de nível intermediário representado por Edward Norton (que nunca esteve melhor em um papel), está tentando resolver todas as pendências que ficaram faltando antes de iniciar uma pena de prisão. Seus dois melhores amigos (Barry Pepper e Philip Seymour Hoffman) têm seus próprios problemas, que Lee examina com um olhar cético e afetuoso. Os filmes do diretor frequentemente expõem a distância entre os desejos e a realidade dura, distância na qual caem tantos americanos —negros e brancos. Os momentos finais de “A Última Noite” a expõem com clareza brutal e assombradora.

135 minutos, 2002


Quero uma história de crime verídico com toda a política incluída

“Os Diques se Romperam”

Mesmo que Spike Lee nunca tivesse feito um longa-metragem de ficção, ele ainda faria parte do panteão cinematográfico, ainda valeria a pena ser discutido. Prova disso pode ser encontrada em "Quatro Meninas - Uma História Real", seu documentário sobre o ataque a uma igreja de Birmingham em 1963, e especialmente em “When the Levees Broke”, documentário em quatro partes, com mais de quatro horas de duração, que disseca a tragédia americana que foi a passagem do furacão Katrina. Não é um filme fácil de se assistir —o tempo não consegue apagar a tristeza e raiva provocadas pela destruição desencadeada em Nova Orleans por um desastre natural e um fracasso humano. Mas a paciência e empatia de Spike Lee garantem a beleza do filme. Lee é conhecido como orador, mas também pode ser um ouvinte extraordinário.

255 minutos, 2006

Tradução de Clara Allain

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