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Com Benito Juarez, Sinfônica de Campinas liderou cena cultural

Morto aos 86 anos, maestro incorporou composições de nomes da MPB ao repertório da orquestra

Ré-si bemol-lá-sol. As notas iniciais da “Sinfonia em Sol Menor” do compositor cearense Alberto Nepomuceno surgiam impactantes no CD lançado em 1996 pela Orquestra Sinfônica de Campinas.

Regida pelo maestro Benito Juarez —que morreu nesta segunda-feira, aos 86 anos—, o álbum trazia ainda a “Sinfonia n.2” de Camargo Guarnieri.

O maestro Benito Juarez, que comandou a Sinfônica de Campinas por 25 anos
O maestro Benito Juarez, que comandou a Sinfônica de Campinas por 25 anos - Divulgação

Havia na gravação de Campinas, no interior paulista, ao menos três elementos que eram, em geral, descartados como inviáveis ou mesmo impossíveis para a realidade brasileira da música clássica.

O primeiro diz respeito ao repertório. Mais comentadas ou estudadas do que tocadas e gravadas, essas obras —cuidadosamente pinçadas da produção de seus autores— emergiam em interpretação autoconfiante, enérgica, como se Nepomuceno conversasse com Brahms e Guarnieri pudesse ser admirado sem reservas, apenas por seu artesanato impecável.

Em segundo lugar, pela própria produção do CD. Era fato quase incontestável, à época, que não havia condições técnicas de se fazer no Brasil uma boa gravação de música clássica —sobretudo de uma orquestra. Contando com a participação do (já então) experiente engenheiro de som José Luiz da Costa, o “Gato”, o som é encorpado e penetrante, tem ambiência, é possível ouvir tanto os naipes separadamente como o efeito conjunto. Parece importado, diziam.

Como terceiro ponto, enfim, há o nível da própria orquestra. Ao assumir o grupo, em 1975, Juarez o renovou, lutou para que conquistasse maior estabilidade trabalhista e, principalmente, não o manteve fechado em si.

Tendo como arma só a música, a Sinfônica de Campinas viajou, participou ativamente dos principais eventos artísticos e políticos de sua época, alcançou protagonismo nacional.

Natural de Januária, em Minas Gerais, perto da divisa com a Bahia, Benito Juarez nasceu em 1933. Ele estudou em Salvador com o professor e compositor alemão Hans-Joachim Koelrreutter, líder da vanguarda musical brasileira.

Antes de assumir a Sinfônica de Campinas, já havia sido fundador do departamento de música e do coral da Unicamp, a Universidade Estadual de Campinas, onde também atuou como um dos idealizadores do inédito curso superior de música popular, cuja primeira turma iniciou em 1989 –lembremos que esse passo ainda não foi dado até hoje pelas universidades da capital paulista, USP e Unesp.

Já àquela época era claro a Juarez que o estudo de música brasileira não deveria se ater às raízes étnicas e aos clássicos, mas incorporar a tradição da música popular urbana. Ele levou a orquestra a apresentar programas com Gilberto Gil e Milton Nascimento, e é dele a regência de cordas da célebre gravação de “Palhaço”, faixa do álbum “Circense”, de 1980, de Egberto Gismonti.

Essa postura não o impediu, contudo, de trabalhar com o mesmo empenho e dedicação ao lado de nomes centrais da música clássica brasileira, como Almeida Prado, de quem estreou e gravou, entre várias outras obras, a “Sinfonia dos Orixás”. Também registrou obras de Villa-Lobos e do campineiro Carlos Gomes.

Juarez começou como regente coral antes de migrar para condução sinfônica e foi também um dos fundadores do Coral USP em 1967.

Ele permaneceu como regente da Sinfônica de Campinas ao longo de 25 anos. Sua saída, em 2000, foi antecedida por penosos desgastes com os músicos e com a administração municipal. Dois anos depois ele fundaria a Banda Sinfônica do Exército Brasileiro.

Na histórica manifestação pelas Diretas Já no Anhangabaú, em São Paulo, em 16 de abril de 1984, após a abertura feita pelo locutor Osmar Santos, é Benito Juarez, de camiseta amarela e jeans, quem rege o Hino Nacional cantado por mais de 1 milhão de pessoas.

A tradução da “alma brasileira em expressão mundial” tem, em sua visão, um “movimento circular sonoro”. “Sua partitura continua” —escreveu ele nos anos 1990— “e a revelação mais completa e mais particular do Brasil será obra dos compositores do Terceiro Milênio". "Quem viver verá —e ouvirá!”

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