Descrição de chapéu

Disco de inéditas de Adoniran Barbosa é documento histórico sem medo de injetar modernidade

Álbum apresenta sambas escritos entre 1961 e 1980, cantados por artistas consagrados e novatos

Onze (Músicas Inéditas de Adoniran Barbosa)

  • Onde Disponível no Spotify
  • Lançamento Eisenbahn/SUNO United Creators

Quando Adoniran Barbosa morreu, em 1982, aos 72 anos, deixou clássicos como “Trem das Onze” e “Saudosa Maloca”, mas também um grande e incerto número de canções inéditas. Tal abundância nasceu da aparente facilidade que ele tinha para elencar versos e da grande quantidade de parceiros musicais, que guardaram muita coisa.

De tempos em tempos, alguém consegue trazer ao público um pacote de novos “sambas paulistas”. Assim são chamadas essas músicas nas quais Adoniran encaixa letras descritivas, quase transposições de divertidas conversas de bar, em melodias simples que podem ser reproduzidas facilmente no batucar de uma caixa de fósforos.

“Onze (Músicas Inéditas de Adoniran Barbosa)”, disponível na plataforma Spotify, é um álbum que apresenta sambas escritos entre 1961 e 1980, cantados por um time de artistas, entre consagrados e novatos. Foram reunidos pelo produtor Lucas Mayer, da DaHouse Audio, em projeto com o Coala Lab, num resultado que despeja peso sonoro na caixa de fósforos de Adoniran.

Nas 11 músicas, a escalação vai de nomes conhecidos, como Elza Soares e Zeca Baleiro, a artistas em ascensão como Luê ou o combo pop de mexicanos e brasileiros Francisco El Hombre. Chega a ser curioso que alguém fortemente ligado a São Paulo como Adoniran receba esse tributo de artistas de vários cantos do Brasil.

Veteranos como o maranhense Baleiro e o recifense Di Melo parecem se divertir muito com o repertório. Baleiro canta “Bares da Vida”, de 1979, uma louvação aos botecos paulistanos.

O tema, muito caro a Adoniran, está também em “Bebemorando”, de 1965, defendida por Francisco El Hombre. A letra é filosofia sobre virar copos, em versos como “o beber é uma arte/ o saber é uma ciência”.

E o compositor sempre falou sobre a necessidade de saber beber. Sua recorrente pregação de uma vida boêmia saudável está também em “Como Era Bom” (1972), na qual a baiana Illy exalta a nostalgia de uma cena noturna sem tretas.

Duas características da poesia de Adoniran têm presença nítida. Eleger bairros paulistanos e falar carinhosamente a respeito deles está em “Bares da Vida” e em “Dias de Festa”, de 1972, com a paraense Luê. A letra aponta Bom Retiro, Mooca e Brás como redutos festivos adorados pelo compositor.

Adoniran também gostava de versos nos quais enumera coisas, fazendo uma espécie de poema com listas. Em “Feira Livre” (1980), Amanda Pacífico, do grupo paranaense Mulamba, faz graça com uma letra cheia de alface, salsinha, agrião, nabo e pepino, em versos emoldurados por um ótimo naipe de metais e som ambiente de uma feira na rua. Outra lista está em “Bolso de Fora” (1978), cantada por Rubel. Na letra, Adoniran enumera coisas que podem ou não estar em seus bolsos.

O disco é curto, pouco mais de meia hora, mas muito agradável. E traz algumas faixas de muita força. “Vaso Quebrado”, letra de dor de corno escrita em 1965, usa o vozeirão de Elza Soares no arranjo mais denso do álbum. Ali fica evidente como a produção conseguiu levar o som de Adoniran para outra dimensão. Parece samba carioca, mais parrudo.

Di Melo ganhou a letra mais antiga e mais divertida do pacote, “Careca Velha”, de 1961. Difícil não rir com a narrativa do sujeito que vai pescar e só consegue fisgar uma bota, uma caneca, um pneu e uma lamparina. Para piorar, no caminho de volta para casa o bonde atrasa e ele encontra a peixaria fechada.

Mas, entre todas as faixas, nenhuma impacta como “A Escola”, de 1968. A canção entra sem pedir licença na galeria dos sambas nostálgicos de Adoniran. No caso, um samba desconstruído com muita beleza por Zé Ibarra, revelado como cantor no grupo carioca de rock Dônica. Sua performance é envolvente, dando conta da letra que fala dos tempos de escola de Adoniran.

“Onze (Músicas Inéditas de Adoniran Barbosa)” é um documento histórico sem medo de injetar modernidade em sambas com aura de clássicos.

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.