Descrição de chapéu Televisão

Entenda como nova onda de violência manchou de sangue a imagem da polícia na TV

Na contramão do fim de 'Cops', cancelada depois da morte de George Floyd nos EUA, Band estreia 'Na Linha de Frente'

São Paulo

Tensão, coragem, adrenalina. É com essas palavras que a Band descreve o recém-lançado “Na Linha de Frente”, programa semanal que mostra o dia a dia de policiais, bombeiros e socorristas. A estreia foi em junho, pouco tempo depois de apertarem o gatilho para a discussão sobre violência policial ocasionada pelo assassinato de George Floyd, nos Estados Unidos.

No mesmo mês, em solo americano, uma produção com premissa semelhante foi cancelada justamente por causa da polêmica levantada pelo caso. “Cops”, série de 31 anos que também acompanhava operações policiais, não sobreviveu às demandas do Black Lives Matter e sofreu por adotar, ao longo dessas três décadas, uma visão propagandista e enviesada das forças policiais de seu país.

Ilustração mostra televisão com marcas vermelhas de mãos
Ilustração - Jairo Malta

A fórmula requentada pela Band definitivamente não é nova —está nas televisões brasileiras, americanas e de tantos outros países há anos.

Ela podia parecer adequada e promissora nas décadas de 1980 e 1990, em meio a uma epidemia de crack e à escalada das taxas de crime que assolavam os Estados Unidos. Mas ela ainda faz sentido em países tão traumatizados pela violência policial, ainda mais em tempos de ebulição social marcados pela problematização de tudo e de todos?

Na visão da emissora de “Cops”, a Paramount Network, a conclusão foi que não. No Brasil, no entanto, a história talvez seja outra.

É bem verdade que a estrutura de “Na Linha de Frente” contrasta com o que se vê na longeva série americana. O novo programa brasileiro tem pegada mais jornalística, se distancia do crime nos episódios em que acompanha bombeiros e socorristas e tem montagem mais refinada. A comparação, no entanto, se torna inevitável quando constatamos que por trás das engrenagens da atração há uma velha disputa entre o “bem” e o “mal”.

“Esses programas têm características próprias a todos. Eles partem da visão do policial para dar a explicação de um crime, partindo do pressuposto de que quem o cometeu é um indivíduo racional que escolheu fazer o mal”, diz Dmitri Cerboncini Fernandes, professor de ciências sociais na Universidade Federal de Juiz de Fora, em Minas Gerais.

“É um tipo de liberalismo de esquina. Há uma responsabilização dos presos, de forma individualizada, sem uma provocação do que pode ter levado a pessoa a cometer o crime. Então somos nós, espectadores, cidadãos de bem, versus essas pessoas essencialmente más.”

Essa visão está impregnada nos programas de jornalismo policial que já se tornaram parte inerente da cultura de massa da televisão brasileira. A falta de problematização e o endosso à brutalidade no tratamento do crime encontram respaldo entre os próprios apresentadores dessas atrações.

“Esses programas têm como efeito a normalização do crime, que é equiparado à maldade. Eles fazem isso ao mostrar num mesmo bloco um estuprador de menores e um jovem numa biqueira de tráfico. Você equaliza tudo isso e cria uma espécie de moralização da sociedade”, diz Cerboncini Fernandes. “E quem problematiza um pouco mais a questão da violência é como se estivesse se vinculando ao mal.”

A popularidade desse tipo de narrativa televisiva nos Estados Unidos e no Brasil é mero reflexo de uma linha de pensamento das populações desses países. Segundo Paulo Menezes, também sociólogo e professor da Universidade de São Paulo, ela encontra raízes, por aqui, na legitimação da violência ocasionada pela ascensão de um discurso político conservador. Já entre os americanos, a explicação está no passado.

“É uma questão complexa, mas eu entendo que essa violência está ligada às origens dos Estados Unidos, às guerras internas e externas, que são enaltecidas simbolicamente”, afirma Menezes.

No cinema também é possível ver um aumento de narrativas que recorrem à figura policial para ancorar suas tramas. Mas, nesse caso, muitas vezes, a imagem da autoridade armada não é tão imaculada.

Desde o sucesso nacional e internacional de “Tropa de Elite” e seu Capitão Nascimento, o problemático comandante do Bope vivido por Wagner Moura, muitos longas-metragens têm vestido seus elencos com fardas e estampas camufladas.

“É difícil falar do papel do policial num país onde milhares morrem em incursões policiais. Existem muitos policiais honestos e outros que são mal preparados. Mas infelizmente a arte reflete um pouco a realidade”, diz Marcos Prado, um dos produtores do filme e diretor do recém-lançado “Macabro”, drama sobre o famoso caso dos irmãos necrófilos protagonizado por um sargento.

“O Capitão Nascimento não era para ser um herói. As pessoas que saíram do armário e aplaudiram um cara que torturava e mandava matar têm uma visão distorcida”, reflete.

Segundo Cerboncini Fernandes, o sociólogo, a violência sempre foi um assunto fértil para o cinema nacional —“é uma questão não resolvida por nós e que se agiganta no Brasil”— e, por isso, sempre esteve em alta nas telas.

Em contraste com os programas policialescos que habitam a TV aberta, no entanto, os filmes que tratam do tema costumam ter um público mais refinado, mais receptivo a questões ligadas a direitos humanos e muitas vezes avesso ao uso da violência fantasiada de justiça.

“‘Tropa de Elite’ dividiu a crítica entre os que achavam que era uma apologia e os que diziam que não. Pode haver as duas interpretações e, talvez por isso mesmo, o longa tenha feito tanto sucesso. É um produto cultural mais elaborado, que dá margem para um encontro dessas duas visões”, diz.

Justamente por causa da possibilidade de extrair discussões ricas dessas obras, Cerboncini Fernandes pensa que o cancelamento de “Cops” pode não ter sido a melhor resposta aos protestos contra a violência policial e o racismo nos Estados Unidos. A raiz do problema, afinal, continua sendo a falta de problematização daquilo que era mostrado na tela.

Pensando nisso, a emissora americana CBS anunciou, nesta semana, que fechou contrato com uma consultoria especializada em segurança pública, a fim de repensar a narrativa de seus programas sobre crime. Já aqui no Brasil, a Netflix produziu “Bandidos na TV”, um documentário sobre o programa amazonense “Canal Livre”, que exibia crimes violentos e que, como mais tarde descobriram, eram encomendados por seu próprio apresentador.

“Muito mais do que cancelar, a gente pode fazer uso desses conteúdos como espelho para entender o que está acontecendo na nossa sociedade”, diz Cerboncini Fernandes. “Como sociólogo, eu vou utilizar isso como material para entender melhor o Brasil ou os Estados Unidos. Até porque, se você simplesmente cancela, vai surgir um produto similar para o mesmo público.”

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