Impasse na Cinemateca é um 'genocídio cultural', afirma filha de Glauber Rocha

Paloma Rocha está finalizando o filme 'Antena da Raça', que entrou na seleção do Festival de Cannes deste ano

São Paulo

Mesmo diante do impasse jurídico que ameaça o acervo da Cinemateca Brasileira, Paloma Rocha, diretora e filha de Glauber Rocha, afirma que retirar as obras de seu pai que estão guardadas na instituição seria ir contra o próprio trabalho do cineasta.

“Você não pode simplesmente trocar anos de história do cinema brasileiro, do Paulo Emílio Salles Gomes [fundador da Cinemateca], por um ano e meio de uma gestão completamente inconsequente, incompetente, burra, negacionista, picareta”, afirma.

“A gente deve lutar para que a Cinemateca permaneça. O que está acontecendo agora é um crime de responsabilidade, é um genocídio cultural.”

Um dos principais acervos audiovisuais da América Latina, a Cinemateca está há meses sem receber repasses financeiros do governo. No dia 12 de agosto, a Acerp, a Associação de Comunicação Educativa Roquette Pinto, que gere o órgão, anunciou que irá demitir todos os cerca de 40 funcionários das áreas de preservação, documentação e pesquisa, difusão, atendimento, administração e tecnologia da informação.

A instituição deixou de contar com serviços para o funcionamento de sua sede, na zona sul de São Paulo. A União informa que já tomou medidas para preservar o acervo.

Paloma Rocha está finalizando o filme “Antena da Raça”, dirigido em parceria com Luís Abramo Campos e que entrou na seleção do Festival de Cannes deste ano. A obra, que será apresentado no Festival Lumière, em Lyon, entre 10 e 18 de outubro, rememora a experiência de Glauber à frente do programa “Abertura”, exibido de 1979 a 1980, quando foi extinta a TV Tupi. É um retrato oposto do “Brasil fechado” de hoje, segundo a diretora.

Segundo a cineasta, o estrangulamento financeiro que o cinema vem passando nos últimos anos e a gestão cultural do atual governo deixou os cineastas abalados. Mas ela afirma ser cedo para sentir medo do enfrentamento.

“Evidentemente cogitei, você cogita esse tipo de coisa, mas eu acho que não tem que tirar nada”, diz, sobre eventual pedido para reaver a obra do seu pai, depositada na Cinemateca Brasileira.

“Não podemos sair tirando as nossas coisas, que significam a história do Brasil, por causa de um governo inexperiente.”

A Cinemateca recebeu uma primeira doação de documentos do próprio cineasta em 1980 e, em 2010, adquiriu os filmes e a documentação que estavam sob a guarda da família. “Esse é o meu lugar. Estou aqui há mais tempo que esses caras, o Glauber está há mais tempo que esses caras”, diz.

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