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Cinema

Pantera Negra usa mesma coroa celebrada por Beyoncé em 'Black Is King'

Morte de ator americano é um convite para refletir sobre autenticidade e legado de pessoas negras

Denise Mota

A morte de Chadwick Boseman —o rei super-herói T'Challa de "Pantera Negra"— parece trazer (para além da surpresa, já que o ator, diretor e roteirista manteve sua luta contra o câncer afastada dos holofotes e microfones) um convite à reflexão sobre autenticidade e legado em relação aos muitos flagelos vivenciados pelos afrodescendentes em todos os âmbitos.

Fiquemos aqui no território da construção de sensibilidades, simbolismos e representações, que foi onde o americano deixou ao mundo sementes valiosas para que floresçam novos T'Challas, o príncipe que enfrentou seus próprios demônios para "consertar" os desmandos da dinastia à qual pertencia e que se tornou verdadeiramente líder ao entender que os avanços só são reais quando garantidos para todos.

O ator Chadwick Boseman na premiação do American Music Awards
O ator Chadwick Boseman na premiação do American Music Awards - REUTERS/Danny Moloshok

​Nas páginas deste jornal assistimos ao embate entre visões sobre a gênese de outro rei que despertou o entusiasmo da comunidade negra internacional, por nutrir nossa autoestima de novos ou revigorados imaginários, por nos ensinar sobre nossa própria cultura afro diaspórica e por nos oferecer uma narrativa em que se conjugam glamour e riqueza, sim (e por que não?), mas também miséria e dor.

No papel mais conhecido da sua carreira, Boseman usou a mesma coroa celebrada por Beyoncé em seu recente "Black Is King". Uma coroa física, para encarnar o personagem da Marvel, num filme que se tornou um clássico imediato, menos pela bilheteria astronômica e mais por atender à necessidade histórica de um povo que está cansado de ser tratado (e retratado) como serviçal, menos inteligente, "primitivo" etc. A Wakanda de "Pantera Negra" não era só um reino de negros, mas uma civilização avançada, em soluções materiais, tecnológicas e espirituais.

O silêncio que era a proteção de Wakanda, a "invisibilidade" da sua força e exuberância que, no entanto, apareciam em momentos-chave, também serve de alegoria para a blindagem que Boseman armou para si, para seguir em frente como protagonista da narrativa cinematográfica mais importante para os negros de todo o mundo neste século, e de outras, ao mesmo tempo em que tentava se sobrepor a um algoz incansável em sua vida pessoal.

Em vídeo que hoje circula generosamente nas redes sociais, o ator conta que perdeu um trabalho por questionar a construção de um personagem ao qual era candidato a interpretar.

As perguntas sobre o porquê de o seu potencial papel ser, uma vez mais, um homem fruto de uma família desestruturada, um rapaz ligado a vícios, em uma reiteração de estereótipos que nem sequer contemplam matizes, custaram a ele uma possibilidade profissional. Antes da coroa de Wakanda, Boseman já havia conquistado uma coroa permanente de inviolabilidade intelectual e emocional.

Fazer, antes de falar, é uma das reflexões a que Boseman nos convida. Viver de acordo com as crenças que preconizamos —ou seja, fazer tal como se fala— é a outra. Ter a coragem de assumir prejuízos, para se manter fiel a esses princípios nos pequenos e grandes embates cotidianos, também.

Corporificar o exemplo. Essa é a majestade eternizada pelo ator que soube ser rei. Com e sem coroa.

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