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Destaque em festivais, 'Pieces of a Woman' tem minutos intermináveis de tristeza

Ao lidar com luto, personagem de Vanessa Kirby chamou atenção em Toronto e em Veneza, de onde a atriz saiu premiada

São Paulo

Muitos filmes geram burburinho enquanto trilham carreiras pelos festivais de cinema, mas só alguns se consagram com prêmios —o que aumenta ainda mais suas chances de aparecerem, meses depois, na temporada de premiações.

“Pieces of a Woman”, que chamou atenção em sua passagem por Veneza e, agora, faz o mesmo em Toronto, pode não ter a mesma força de “One Night in Miami” ou “Nomadland”, também exibidos nos dois festivais e apostas mais seguras para o ainda distante Oscar. Mas o drama dirigido por Kornél Mundruczó tem uma carta na manga: Vanessa Kirby.

A inglesa saiu do Festival de Veneza com a Coppa Volpi, prêmio dado aos melhores atores e atrizes do ano. Não é de se espantar, já que, em “Pieces of a Woman”, ela entrega uma atuação dilacerante e surpreendente para um rosto ainda pouco conhecido.

Cena do filme "Pieces of a Woman"
Cena do filme "Pieces of a Woman" - Divulgação

Kirby mostra a que veio já na fração inicial do longa, uma coprodução entre Canadá, Estados Unidos e Hungria. São 30 minutos de pura agonia, sem cortes, em que sua personagem, Martha, sofre para dar à luz seu primeiro bebê.

A bolsa estoura e seu marido liga para a parteira, que está com outra paciente e manda uma conhecida no lugar. Há certa desconfiança e inquietação quanto à presença daquela estranha, e as dores que Martha sente não a tranquilizam.

O parto começa a sair do controle —algo está errado com o bebê e a protagonista é avisada de que precisa fazer toda a força possível para tirá-lo de seu corpo. A pequenina nasce, chora e, segundos depois, morre.

São 30 minutos que parecem intermináveis e que enganam o espectador com um desfecho que vai de um desesperado suspiro de alívio à tragédia extrema.

O que se passa com Martha e seu bebê não é spoiler, mas um prelúdio. A jornada da protagonista e, portanto, a trama de “Pieces of a Woman”, só começa mesmo após essa situação. Ela e o marido, personagem de Shia LaBeouf, precisam, a partir daí, costurar os pedacinhos quebrados pela perda da filha.

Esses pedacinhos são pessoais, mas também dizem respeito ao casamento dos dois, abalado pela tragédia. Cada um tem uma maneira de lidar com o luto e as decisões que precisam ser feitas nas cenas seguintes põem os protagonistas em lados opostos.

“Eu nunca dei à luz e eu sabia que eu deveria retratar esse momento da maneira mais autêntica possível, porque se você não acredita naquela cena, então nada do resto do filme funciona”, disse Kirby sobre a cena à revista americana Entertainment Weekly.

Para se preparar para o papel, ela conversou com obstetras e mulheres que haviam engravidado. Uma delas, que sofreu vários abortos, a motivou a procurar por pequenos detalhes que tornassem a jornada de Martha mais real —e isso se refletiu, por exemplo, no uso de fraldas por sua personagem, pouco após o parto.

Kirby vem do teatro e, nas telas, ganhou força ao interpretar a princesa Margaret nas duas primeiras temporadas de “The Crown”. O papel lhe rendeu uma indicação ao Emmy e um prêmio Bafta, e a levou aos sets de “Missão: Impossível - Efeito Fallout”, em que viveu uma femme fatale.

Agora, resta saber se sua entrega ao papel será reconhecida o suficiente para levá-la ao Oscar. Nos últimos dez anos, duas das vencedoras da Coppa Volpi de melhor atriz embolsaram também o prêmio da categoria na cerimônia hollywoodiana —Emma Stone, por “La La Land: Cantando Estações”, e Olivia Colman, por “A Favorita”.

Pode ser um sinal —ou mera coincidência—, mas Colman levou a estatueta dourada depois de ganhar fama mundial da mesma forma que Kirby: graças à série “The Crown”.

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