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Frances McDormand tem vida nômade em filme exibido no Festival de Veneza

'Nomadland' fez a atriz cair na estrada para protagonizar longa que é candidato ao Oscar

Veneza

Há uma diferença entre ser sem-teto e sem-casa, entre viver numa residência e num lar. É o que aprende logo de cara Fern, que, aos 61 anos, se vê na condição de sem-marido (porque viúva), sem-trabalho, sem-dinheiro e, impressionantemente, sem-cidade. Diante de tantos “sem”, ela decide pegar a estrada numa van, levando o que de mais importante restou, uns poucos pratos e roupas.

Novo papel da atriz Frances McDormand, Fern é a personagem principal de “Nomadland”, longa que fez sua estreia mundial nesta sexta, no último dia de competição do Festival de Veneza. A premiação acontece neste sábado, e o filme é um dos favoritos para vencer o Leão de Ouro e, nos próximos meses, receber indicações ao Oscar.

Foi uma das atrações mais aguardadas do evento, o primeiro do universo cinematográfico a ser realizado de forma presencial desde que o coronavírus interrompeu gravações, fechou salas, adiou lançamentos e impediu outras mostras. Como Fern, muitos dessa cadeia, dos grandes estúdios aos espectadores, passando pelos trabalhadores diretos e indiretos, experimentaram graus de privação.

A escassez material e afetiva de Fern, porém, é total. O filme começa em 2011, quando, nos efeitos da crise econômica iniciada três anos antes, a cidade americana de Empire, no estado de Nevada, é abandonada e deixa de existir até como CEP, depois da desativação da mineradora que empregava seus moradores.

A história da cidade-fantasma é baseada em fatos reais, assim como são os relatos que Fern começa a recolher conforme avança na estrada. São adultos e idosos que passaram a viver de forma nômade em vans e trailers, mudando de endereço atrás de trabalhos.

Chamados de “workampers” (trabalhadores que acampam), eles oferecem mão de obra em troca de permissão para acampar por tempo determinado no entorno de indústrias, parques temáticos, fazendas. Como fez Fern, pode ser desde um centro de distribuição da Amazon até uma plantação de beterrabas.

O filme surgiu a partir do livro “Nomadland - Surviving America in the Twenty-First Century”, publicado em 2017 pela jornalista Jessica Burden. Em sua reportagem, ela conviveu com grupos nômades e conheceu alguns dos personagens mais marcantes do longa.

São americanos que vivenciaram perdas, decepções e que passaram a viver na estrada, em comunidades que, apesar da precariedade, proporcionam solidariedade, proteção e contato com a natureza.

A atriz Frances McDormand em cena do filme ‘Nomadland’, dirigido pela chinesa Chloé Zhao e um dos destaques do Festival de Veneza
A atriz Frances McDormand em cena do filme ‘Nomadland’, dirigido pela chinesa Chloé Zhao e um dos destaques do Festival de Veneza - Divulgação

Essas participações —pessoas de verdade interpretando a si mesmas— foram orquestradas de forma bem-sucedida e delicada pela diretora chinesa Chloé Zhao, convidada para a função pela própria McDormand. A atriz (e também produtora) decidiu por Zhao após assistir ao premiado “Domando o Destino”.

Ali, a chinesa já havia experimentado recursos que conquista agora —trabalhar com pessoas reais, respeitando silêncios e falas, suas frustrações e escolhas, alternar closes em rostos expressivos com a grandiosidade das paisagens selvagens do oeste americano e revelar modos de vida que podem parecer exóticos mas que não têm nada de raro.

A novidade, em “Nomadland”, está na interação entre esses atores de si mesmos e uma atriz vencedora de duas estatuetas do Oscar. O que poderia ter resultado artificial ou hierárquico não chega a ocorrer, graças ao roteiro de Zhao e à atuação de McDormand.

Fern se propõe a conhecer os nômades experientes como observadora, o que funciona para dissipar um possível estranhamento do espectador quando real e fantasia se juntam. Uma das cenas emocionantes é o abraço de despedida entre Fern e Linda May, uma nômade que atua como mentora e colega da personagem de McDormand.

“A maior coisa que aprendi foi deixar a boca fechada e ouvir. E isso venho praticando há muito tempo. O filme foi sobre escutar as histórias deles e não tentar contar a minha”, disse a atriz aos jornalistas em entrevista por videoconferência. Por causa da pandemia, ela, assim como outros participantes da mostra, não puderam vir para a Itália.

A conexão com os nômades foi resultado também do processo de filmagem. A equipe de 23 pessoas passou cerca de seis meses viajando pelos Estados Unidos, vivendo também dentro de vans.

“Nos tornamos um organismo, muito unido. E fizemos o jogo do ‘e se’. E se eu fosse um deles?”, disse McDormand, que reconhece similaridades entre a personagem de agora e aquela que lhe rendeu o Oscar de 2017, a Mildred de “Três Anúncios para um Crime”. “Elas certamente estão no mesmo mundo”, afirmou.

A segunda parte do filme, quando Fern já vive com desenvoltura como nômade, se torna menos cativante porque, justamente quando o espectador chega perto de ser convencido que McDormand pode ser mesmo uma daquelas pessoas, a trama passa a acontecer entre quatro paredes e com atores profissionais, caso de David Strathairn.

A perda da intensidade, no entanto, vai se diluindo conforme fica claro que o momento decisivo da história se aproxima. “Era muito importante para mostrar que ela não é alguém que cai na estrada só porque não tem opções de viver em uma casa. Tem algo a mais que ela procura, algo que uma casa não pode oferecer”, diz a diretora.

Aos 38 anos, Zhao vive no estado americano da Califórnia, depois de crescer no Reino Unido. Destaque da nova geração, ela assina a direção do próximo lançamento da Marvel, “Eternals”, previsto para 2021. Será interessante ver se se sairá tão bem com os super- heróis como faz com os batalhadores da vida real.

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