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Cinema

Filme 'A Cordilheira dos Sonhos' tem seus vales e picos, como os Andes

Documentário de Patricio Guzmán, que abre o É Tudo Verdade, usa cadeia montanhosa como metáfora do golpe no Chile

São Paulo

A Cordilheira dos Sonhos

  • Quando quarta (23), às 20h30, online e na abertura do festival; quinta (24), às 15h, online
  • Onde Belas Artes Drive-in (para convidados); online (www.etudoverdade.com.br)
  • Preço grátis
  • Produção Patrício Guzmán, 2019

Cruzar a cordilheira é viajar a um lugar muito distante no passado. A cordilheira guarda mistérios. A cordilheira é a mãe. Ela é um outro país. Em sua fixidez, é a testemunha que sabe o que os chilenos não viram, ou não quiseram ver.

Assim, em diferentes momentos de “A Cordilheira dos Sonhos”, artistas entrevistados pelo cineasta Patricio Guzmán descrevem os Andes.

Mar sem fim de montanhas que embevece a vista, mas também atemoriza pelo seu peso, eles são tema e cenário de “A Cordilheira dos Sonhos”, que abre nesta quarta (23) a 25a edição do festival É Tudo Verdade.

A cordilheira, com seus vulcões, também explode.

Segundo Guzmán, a explosão maior se concretiza com o golpe militar que pôs fim ao governo de Salvador Allende em 1973, tema que, com seus desdobramentos, ocupa praticamente toda a carreira do documentarista.

Na trilogia que “A Cordilheira dos Sonhos” encerra, Guzmán opera uma espécie de mágica, abordando a violência da ditadura como um elemento a mais do território chileno.

Sua história está entranhada no deserto observado pelas estrelas, em “Nostalgia da Luz”, de 2010, e no mar, túmulo de tantos cujo desaparecimento foi negado, em “O Botão de Pérola”, de 2015.

A ligação que faz Guzmán entre os elementos que levaram à cristalização da sociedade chilena pós-golpe e o elemento natural —neste caso, a ancestral, impassível cordilheira— é, aqui, menos articulada que nos filmes anteriores.

Mas não importa. Como a cordilheira, o filme tem seus vales e picos, um desenho que não se deixa apreender com um só olhar e que Guzmán delineia com seus movimentos de câmera elegantes e serenos, com as texturas e padrões que captura e associa às palavras de sua peculiar narração.

Em “A Cordilheira dos Sonhos”, as imagens cruentas da violência de ontem e de hoje são de Pablo Salas, e não de Guzmán —este nunca mais viveu em seu país depois do golpe. Feito prisioneiro no Estádio Nacional, saiu de lá para a Espanha, passando por Cuba, até se fixar na França.

Salas “foi um dos que ficaram, eu fui um dos que fugiram”, diz Guzmán ao apresentar esse homem que, desde os anos 1980, filma de forma quase incessante a resistência dos que se opuseram ao regime de Pinochet e que ainda se opõem ao país que a partir dali se construiu —o Chile moldado pelos economistas de Chicago, o Chile estável.

Estabilidade essa que se obteve com o uso da força, diz um dos artistas que Guzmán entrevista no longa.

Estável de outra forma é a cordilheira, metáfora da solidão e da permanência, mas também território de desejos. “A Cordilheira dos Sonhos” é talvez a etapa mais íntima de uma viagem de volta que Guzmán não cessa de empreender.

Nela, Guzmán faz o tempo todo o esforço de fazer luzir, como o sol numa encosta andina, a memória do país. Para que, diferentemente da cordilheira —que está em toda parte, mas muitos só veem nos afrescos do metrô de Santiago—, a história que pavimentou o caminho para o Chile atual não passe despercebida.

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