Descrição de chapéu racismo

Geovana tenta retomar posto de rainha do partido alto com 1º disco em 32 anos

Sambista lança 'Brilha Sol' e relembra racismo e casos de assédio da época de seu álbum anterior

André Carvalho
São Paulo

Ser aclamada como a grande vencedora da Bienal do Samba de 1971 com “Pisa Nesse Chão com Força”, ter composições gravadas por nomes como Clara Nunes, Jair Rodrigues e Martinho da Vila e ser reconhecida como a “rainha do partido alto” e a “deusa negra do samba-rock” não foram o suficiente para dar a Geovana o merecido destaque no meio fonográfico.

Ao longo de sua trajetória, a cantora e compositora carioca precisou enfrentar diversos ciclos de ostracismo, reveladores das múltiplas facetas do racismo que estrutura a sociedade brasileira.

Após 32 anos sem gravar, Geovana lança, nesta sexta-feira (20), seu terceiro álbum de carreira, “Brilha Sol”.

Produzido pelo Coletivo Sindicato do Samba e viabilizado por meio de financiamento coletivo, o CD traz textos de Adelzon Alves, Nei Lopes, Moisés da Rocha e Camilo Árabe e as participações especiais de Fabiana Cozza, Osvaldinho da Cuíca, Curumin, Thaíde, Clube do Balanço, Sant Castromán, Anná, Nego Washington e Batalhão da Vagabundagem, além de um precioso registro de Luiz Grande, sambista carioca falecido em 2017.

Parceiro em quatro faixas e responsável, ao lado de Camilo Árabe, pela coordenação geral do projeto, Guilherme Lacerda também participa do álbum como músico e intérprete.

O disco é composto por 14 músicas, sendo 12 inéditas e duas regravações, incluindo “Ô Irene”, parceria com Beto Sem Braço que foi sucesso nos anos 1980 com o Grupo Fundo de Quintal.

“O disco está muito chique, foi um presente da vida pra mim”, comemora Geovana.

O lançamento do álbum no Dia da Consciência Negra é simbólico, mas a compositora admite ser desconfiada com a data. “Dessa consciência aí, que é uma vez por ano, quando for no dia seguinte, eles estão matando negro de montão”, afirma.

Nascida na Tijuca, no Rio de Janeiro, com o nome de Maria Tereza Gomes, filha de pai senegalês e mãe mineira, Geovana criou-se no Morro do Laboriaux, na Rocinha.

Trabalhando como empregada doméstica, vendendo livros e atuando como ambulante, foi, aos poucos, se enturmando com os sambistas da cidade, projetando-se para participar, em 1971, da 2ª Bienal do Samba, em São Paulo.

O êxito de “Pisa Nesse Chão com Força” fez com que Jair Rodrigues gravasse a composição e a levasse à gravadora RCA para iniciar sua carreira fonográfica. No entanto, as coisas não aconteceram da maneira como a artista esperava.

"Foram quatro anos pra sair o disco, uma dificuldade danada pra gravar. E, quando o disco saiu, não houve divulgação nenhuma”.

Hoje um objeto de colecionador, “Quem Tem Carinho Me Leva” foi lançado em 1975, pouco antes da chegada de Beth Carvalho à gravadora.

"Fui jogada lá para os cantos para as outras se darem bem”, desabafa. De fato, a despeito do reconhecimento por seus pares e por jornalistas, Geovana só voltaria a gravar um novo disco, “Canto pra Qualquer Cantar”, em 1988.

"Era uma época que o racismo pegava forte. Não me chamavam nem pelo meu nome, o produtor só se referia a mim como ‘a negona’”. conta a sambista, denunciando, ainda, que eram comuns também os casos de assédio sexual no meio fonográfico.

“Mas eu nunca fui mulher de ficar atrás das cortinas, eu sou uma mulher que nasceu pra bater de frente.”

No início de 2000, Geovana mudou-se para São Paulo. Tempos depois, trabalhando como segurança da casa noturna Trackers, no centro da cidade, veio a travar amizade com os paulistas Guilherme Lacerda e Camilo Árabe, que passaram a assumir os cuidados da carreira da compositora.

No texto de encarte de “Brilha Sol”, Nei Lopes vê em Geovana uma sucessora de Clementina de Jesus, artista que evoca sua ancestralidade, porém na condição de compositora.

“Eu sou muito influenciada pela música negra brasileira, mas eu prefiro não ficar ouvindo muita música porque eu gosto de uma coisa que saia de dentro", revela a sambista.

Brilha Sol

  • Quando A partir de sexta (20)
  • Onde Disponível em todas as plataformas digitais
  • Preço R$ 40 (pelas redes sociais do Coletivo Sindicato do Samba e de Geovana)
  • Gravadora Coletivo Sindicato do Samba
  • Artista Geovana
Erramos: o texto foi alterado

São 12 as músicas inéditas do disco novo de Geovana. O texto foi corrigido.

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