Descrição de chapéu Livros racismo

Nova edição amplia alcance de Frantz Fanon sobre efeitos psíquicos do racismo

'Pele Negra, Máscaras Brancas', livro seminal do psiquiatra e escritor, ficou por décadas restrito a nichos mais acadêmicos

São Paulo

“Há alguns anos, conhecemos um negro que era estudante de medicina. Ele tinha a sensação infernal de não ser valorizado, não academicamente, mas, dizia ele, humanamente”, escreve o psiquiatra Frantz Fanon. “Tinha a impressão infernal de que nunca seria reconhecido como colega pelos brancos nem como médico pelos pacientes europeus.”

Quando aquele homem entrou para o Exército, passou a afirmar que não queria ser designado para trabalhar numa colônia de maioria negra. Queria comandar brancos.

“De fato, era isto que queria, o que buscava: fazer com que os brancos tivessem para com ele uma atitude de negros. Dessa forma, vingava-se da imago que sempre o obcecara: o negro assustado, acanhado, humilhado na presença do senhor branco.”

O psiquiatra e escritor Frantz Fanon
O psiquiatra e escritor Frantz Fanon - Divulgação

A história compõe um dos mais importantes estudos já realizados sobre os efeitos psicológicos do racismo, “Pele Negra, Máscaras Brancas”.

A obra ganha agora potencial inédito de ampliar seu alcance, por décadas restrito a nichos mais acadêmicos, com uma nova edição que não só chega como grande aposta da editora Ubu —que, de acordo com a diretora Florencia Ferrari, quer se firmar como a casa de Fanon no Brasil—, mas um dos lançamentos de não ficção mais relevantes do ano.

“Os conflitos que Fanon traz são humanos, o amor, a morte, a dor. Ele se pensa enquanto universal. ‘Pele Negra’ mostra que o racismo impede que essa tarefa seja feita integralmente, porque o tempo inteiro o negro precisa responder às expectativas racializadas que se criam a respeito dele”, comenta o professor Deivison Faustino, que concluiu um doutorado em sociologia na Universidade Federal de São Carlos com tese sobre Fanon.

“A gente vive numa sociedade que apaga as produções de conhecimento negras e faz com que os espaços de poder sejam ocupados por pessoas brancas e os símbolos de beleza e intelectualidade sejam relacionados à brancura”, diz o psicólogo Lucas Motta Veiga. “Fanon descreve como os negros, no inconsciente, são coagidos a tentar parecer brancos. E seu trabalho clínico pensa como sair desse lugar.”

“Ele busca compreender como o fenômeno colonial imprime um trauma radical entre os colonizados, mas também produz desumanização nos colonizadores”, afirma Renato Noguera, professor de filosofia da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.

O racismo gera nos brancos, segundo ele, um narcisismo que os leva a crer que são merecedores de tudo. E leva à inevitável frustração. “Se um não é humano porque está coisificado, o outro não é humano porque está divinizado.”

O risco é que se combata esse problema criando um ideal contrário, ou seja, um suposto modo perfeito de ser negro. “São múltiplas as formas de ser uma pessoa negra. Fanon faz essa crítica dupla, tanto à máscara branca quanto à tendência de achar que o negro deve desejar e pensar de tal e tal forma”, diz Veiga, idealizador de um curso sobre o que chama de psicologia preta.

A análise da relação entre a estrutura social mais ampla e a subjetividade mais íntima de cada ser humano é uma das maiores contribuições intelectuais do psiquiatra.

“De um lado, a política de dominação tem implicações inclusive no afeto, no desejo, há uma dimensão social do sofrimento psíquico. E, por outro lado, também há uma dimensão afetiva da política”, argumenta Faustino.

Para desconstruir o racismo, então, seria necessária uma transformação social —que só pode ser alcançada caso se olhe, ao mesmo tempo, para o modo como a política opera sobre cada sujeito.

“A psicologia clínica que Fanon propõe não se cega ao sofrimento de origem política, às discriminações. Mas não se reduz a elas”, diz Faustino, que assina o posfácio da nova edição de “Pele Negra”. “Reconhecer as discriminações não implica ignorar a dimensão individual e irrepetível da experiência de vida de cada pessoa.”

homem negro posa gravemente
O psiquiatra Frantz Fanon em retrato de capa de uma das edições de seu livro 'Pele Negra, Máscaras Brancas' - Reprodução

Essa subjetividade, inclusive, está plenamente incorporada ao estilo literário da obra —é só ver o que escreve Fanon a certa altura. “Eu me dediquei neste estudo a abordar a miséria do negro. Tátil e afetivamente. Não quis ser objetivo. Aliás, a verdade é: não me foi possível ser objetivo.”

Nascido em 1925 na Martinica, departamento da França no Caribe, o intelectual cresceu numa família de classe média se identificando como francês, segundo Faustino. Ao se mudar para a Europa durante os esforços de resistência ao nazismo na Segunda Guerra, ele percebe que os franceses brancos não o consideravam como um deles.

“Fanon se descobre negro quando sai da Martinica”, aponta o professor. Ali ele nota que o tratamento que os colonizadores relegavam aos martinicanos era o mesmo que aos colonizados da África —que, até aquele momento, eram quem ele entendia como negros. “Esse período pode ser lido quase como uma ruptura narcísica de Fanon.”

A história ecoa uma máxima, lembrada no livro, cunhada por Jean-Paul Sartre —grande influência de Fanon, cujo prefácio para “Os Condenados da Terra”, a outra obra mais conhecida do psiquiatra, foi trunfo para catapultar as suas vendas. “O judeu é um homem que os outros homens consideram judeu. O antissemita é que faz o judeu.”

No fim, Fanon não pôde ver suas obras se tornarem, elas mesmas, influentes. Morreu de leucemia aos 36 anos, logo depois de completar “Os Condenados da Terra”, que viria a ser leitura obrigatória para o pensamento anticolonialista nas décadas seguintes.

A apreciação devida de “Pele Negra” —escrito originalmente por um Fanon de parcos 24 anos como trabalho de conclusão da graduação e rejeitado por seu orientador— seria ainda mais tardia.

Mas hoje é uma obra que se impõe como ferramenta fundamental para teorizar conceitos de identidade —um tema inescapável dos nossos tempos, mesmo para entender o trumpismo e o bolsonarismo, segundo lembra Faustino. “Por isso o livro não é apenas uma contribuição para pensar o negro, mas toda a sociedade contemporânea.”

O QUE LER de Frantz Fano

Pele Negra, Máscaras Brancas  
Editora Ubu. Trad.: Sebastião Nascimento. R$ 69,90 (336 págs.)
Em seu primeiro livro, o psiquiatra estuda os efeitos do racismo sobre colonizados e colonizadores

Os Condenados da Terra 
Obra mais conhecida de Fanon, virou referência para movimentos anticolonialistas

Alienação e Liberdade
Lançada neste ano pela Ubu, a coleção traz ensaios que relacionam alienação colonial a doenças mentais

O Olho Se Afoga/Mãos Paralelas – Teatro Filosófico
As peças escritas pelo autor foram traduzidas pela primeira vez neste ano pela editora Segundo Selo

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