Descrição de chapéu Financial Times

Bolada recebida por Bob Dylan da Universal será bem mais rara na era do TikTok

Poucos músicos que desejem uma aposentadoria baseada em direitos autorais podem antecipar uma trajetória tão longa

Financial Times

Os tempos, sim, mudaram. Na segunda, o Universal Music Group anunciou que compraria os direitos de edição musical sobre as composições de Bob Dylan, um cantor de protesto magricelo que, numa carreira de mais de seis décadas, se tornou um colosso cultural.

O status, graças à disparada nas receitas geradas por streaming, parece ter resultado num acerto da ordem de cerca de US$ 300 milhões, ou aproximadamente R$ 1,5 bilhão.

Dylan astutamente preservou seus direitos de propriedade intelectual. As queixas de que ele teria se vendido parecem repetitivas —afinal, elas emergiram inicialmente quando ele começou a tocar acompanhado por instrumentos elétricos, 55 anos atrás.

Por boa parte dos últimos cem anos, eram as gravadoras que controlavam as portas de entrada e decidiam sobre o conteúdo que as audiências consumiriam. Essa produção restrita ajudou a criar um
punhado de superastros. Talentos como o de Bob Dylan se beneficiaram de máquinas de marketing gigantescas.

Graças a seu acordo com a Universal, Dylan receberá um pagamento adiantado sobre os proventos de sua música nas próximas décadas. No fragmentado cenário atual da mídia, definido pelo YouTube e pelo TikTok, as estrelas brilham intensamente mas desaparecem com rapidez.

Atrações transcendentes como Bob Dylan podem ter se tornado coisa do passado.

Qualquer coisa que se assemelhe a uma corrente constante de faturamento pode ser transformada em título de mercado ou ativo financeiro. Nos últimos anos, contratos de patrocínio de atletas e royalties sobre produtos farmacêuticos permitiram que seus controladores capturassem no presente o valor de fluxos de caixa futuros, em forma de um pagamento bruto antecipado.

Poucos dos astros que desejem criar um fundo de aposentadoria com os proventos de seus direitos musicais podem antecipar uma trajetória tão longa quanto a de Dylan.

Na semana passada, Stevie Nicks faturou US$ 100 milhões, ou R$ 509 milhões, com a venda do catálogo de seus direitos de edição musical. “Dreams”, seu maior sucesso, ganhou vida nova em 2020 graças a um meme no TikTok.

Com uma presença cada vez menor de marcos culturais dessa ordem, o legado dos músicos do passado ironicamente perdurará por mais tempo, gerando fluxos de caixa.

Tradução de Paulo Migliacci

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