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Livros África

Loucura transporta a verdade em romance de autor franco-senegalês

'Irmão de Alma' sobrevoa territórios em que a mitologia senegalesa se mistura à tragédia das trincheiras

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João Batista Natali

Irmão de Alma

  • Preço R$ 52 (128 págs.)
  • Autor David Diop
  • Editora Nós

Um dos ensinamentos que a literatura africana pode nos dar é o de construir alegorias ricas e espessas, capazes de enriquecer a narrativa linear em que circulam com banalidade os personagens. Pois é justamente isso que faz o franco-senegalês David Diop, em “Irmão de Alma”, seu segundo romance, com o qual ganhou em 2018 o Prêmio Goncourt dos Colegiais ("des lycéens").

Diop —não confundir com seu perfeito homônimo, poeta que morreu em 1960— consome os primeiros capítulos com a obsessão repetitiva de um soldado senegalês, afetado pela morte em combate de um conterrâneo seu, que o acompanhou até as trincheiras francesas da Primeira Guerra Mundial.

É a parte menos atraente do romance. O narrador, Alfa Ndiaye, patina de forma cansativa em torno do drama que o machuca. Mas seu discurso exaustivo e redundante já é o sintoma de uma inconformidade em conviver com a realidade.

Estão plantadas as sementes da insanidade que permite um sobrevoo literariamente riquíssimo por territórios em que a mitologia senegalesa se mistura à tragédia cotidiana das trincheiras, em que a evocação de uma libido apenas uma vez experimentada com uma colega de infância se deixa explodir em fantasias, que têm como centro um corpo, o do próprio Alfa Ndiaye, que é forte, inculto e atraente, por não trazer cicatrizes na pele.

O soldado Alfa tem uma personalidade esquisita, que seus companheiros de farda suspeitam ter um parentesco com a bruxaria. O soldado se arrisca para capturar os inimigos alemães e decepar-lhes as mãos. Tem sete dessas mãos escondidas na trincheira, salgadas como se fossem peixes, conservadas como um fetiche que se torna o centro de seus investimentos afetivos.

O oficial superior, capitão Armand, conclui que há algo de patológico nessa forma inabitual de se relacionar com o inimigo. E o soldado Alfa é retirado do campo de combate e enviado a uma espécie de hospício militar, onde então nosso herói passa a acertar as contas com seu próprio passado e com sua rica história familiar, tendo como pano de fundo o imaginário cultural de uma África Ocidental, na época ainda francesa.

Estamos num terreno semovente, em que as referências factuais escapam entre os dedos, e Diop se iguala ao moçambicano Mia Couto ou aos latino-americanos da literatura fantástica.

homem passa por estatua
Homem passa por estátua que comemora o fim da escravidão no Senegal - Finbarr O'Reilly/Reuters

O delírio não é o signo de uma doença. É a maneira singular de vivenciar fatos que ocorrem alguns andares acima da racionalidade. A loucura transporta sua própria verdade, e é essa a natureza crua do romance.

Diante desse cenário aparentemente caótico, é inútil para o leitor a tentativa de isolar algum fio condutor singular. Não estamos apenas na Grande Guerra, cujo centenário era lembrado pela indústria editorial francesa quando da publicação de “Irmão de Alma”. Não estamos apenas diante de uma das caricaturas do colonialismo, que impõe a monocultura do amendoim e a disciplina militar a indivíduos que só obedecem a suas raízes indisciplinadas.

O próprio islamismo aparece moralmente cindido, porque são tão muçulmanos os moradores da aldeia em que Alfa nasceu quanto os misteriosos cavaleiros que chegam do Marrocos ou da Mauritânia para sequestrarem a mãe de nosso futuro soldado e vendê-la como escrava.

O romance é, em resumo, um longo passeio tenso e triste, que o romancista David Diop transforma em objeto com momentos belíssimos e atraentes.

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