Descrição de chapéu Artes Cênicas

'Godot' será encenada por Zé Celso e filmada por Monique Gardenberg

Produção do texto de Samuel Beckett tem Marcelo Drummond e Pascoal da Conceição no elenco

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São Paulo

A produtora e diretora de teatro e cinema Monique Gardenberg pegou o novo coronavírus no mês de maio. “Sou IgG”, diz ela, ou seja, recebeu diagnóstico positivo para a imunoglobina que detecta os anticorpos de proteção contra a doença.

Ela se prepara agora para filmar uma nova encenação de Zé Celso para “Esperando Godot”, de Samuel Beckett. “Eu vou para o Oficina, mas vou protegida, porque nada se sabe direito ainda sobre essa doença”, diz. Serão cinco atores e cinco câmeras no teatro, todos eles guardando distância.

A edição será realizada pelo aplicativo de videoconferências Zoom. É uma rotina que Gardenberg vem cumprindo ao longo da pandemia, em que chegou a atravessar 12 horas de trabalho seguido na plataforma de videoconferências. “Quando saía, não conseguia nem andar direito.”

Sete meses atrás, ela propôs à associação de produtores do Rio de Janeiro um programa para a gravação de trechos de peças, para exibição online, e dirigiu várias delas, com atores como Caco Ciocler e Guilherme Leme, de sua casa. “Eu sozinha, e eles lá. Dois celulares, um para filmar, outro para eu dirigir.”

Em paralelo, como adiantou o jornal O Globo, Gardenberg preparou uma série para a Amazon Prime Video, “5 x Comédia”, com atores como Victor Lamoglia e Yara de Novaes. Ainda sem data de estreia, o programa reúne novos esquetes também gravados à distância, no formato dos espetáculos de mesmo nome que existem desde a década de 1990.

Ela dirigiu também, por fim, uma peça em situação semelhante à que vai levar agora para o Oficina. Transformou em espetáculo de oito atos e filmou para transmissão digital o personagem cômico de Luis Miranda, “Madame Sheila”, no palco do teatro Unimed, em São Paulo.

“Tinha um nível de penetração, através das câmeras, no respirar, nas reações, em 180 graus. E essa possibilidade inacreditável do close no teatro”, lembra Gardenberg.

Foi a própria diretora quem propôs então “Godot” para Zé Celso, em conversa por telefone, para “o teatro vazio” há cerca de um ano. “É uma peça sobre o vazio da existência e nossa eterna espera de que algo extraordinário aconteça”, diz.

Ela já havia produzido uma encenação do diretor para essa mesma obra, há duas décadas, no Rio de Janeiro, em montagem que acabou não vindo para São Paulo.

Em meio a pandemia, Teatro Oficina ensaia 'Esperando Godot' (de Samuel Beckett) remotamente para uma peca-filme. Ator Marcelo Drummond, 58, ensaia sozinho seu personagem Estragon no Teatro Oficina - Eduardo Knapp/Folhapress

Como a produtora, o diretor também não parou por causa do fechamento dos teatros e de seu próprio isolamento.

Ele se dedicou a elaborar uma primeira versão de “A Origem da Tragicomediorgya”, livro sobre o seu próprio teatro, a partir de de espetáculos como “Bacantes” e “Mistérios Gozosos”, centrando sua atenção na influência do modernista Oswald de Andrade e do candomblé sobre os espetáculos que montou.

Começou em seguida uma adaptação para o palco de “Heliogabalo ou o Anarquista Coroado”, do autor francês Antonin Artaud, que segue preparando à distância, via Zoom, com o diretor Fernando de Carvalho, de Brasília.

Mas a prioridade agora é “Godot”. Os ensaios já começaram, por videoconferência e mais voltados ao texto, que foi revisado pelo diretor. O novo espetáculo desenvolvido na pandemia deve manter pouca coisa da montagem de duas décadas atrás.

“É uma encenação de agora, um outro momento”, afirma o diretor, lembrando que a espera interminável narrada pela peça remete hoje à pandemia. “Porque eu não aguento mais esperar que venha a vacina. Isso me prejudicou muito. O fato de não poder fazer RPG, massagem. Porra, eu piorei muito, estou andando de bengala aqui.”

Como na encenação carioca, esta será uma comédia. “Eu sigo o Beckett, porque ele fez uma comédia”, diz o diretor.

O elenco reúne Marcelo Drummond e Guilherme Calzavara, como Estragão e Vladimir, Pascoal da Conceição, como Pozzo, mas faltam ainda os intérpretes de Lucky e do Menino —que, na primeira montagem, foi um marcante Darlan Cunha, ator que partiu dali para o filme “Cidade de Deus”, de Fernando Meirelles.

Drummond diz que o trabalho por videoconferência já avançou. “Mas com uma ou duas horas você já fica exausto do computador. E ensaio presencial vai ser muito pouco.”

Em meio a pandemia, Teatro Oficina ensaia 'Esperando Godot' (de Samuel Beckett) remotamente para uma peca-filme. Ator Marcelo Drummond, 58, ensaia sozinho seu personagem Estragon no Teatro Oficina - Eduardo Knapp/Folhapress

Ele lembra que a ligação do Oficina com o cinema vem da década de 1970, do filme feito a partir de “O Rei da Vela”, e que ao longo dos últimos anos as câmeras foram se incorporando às próprias apresentações. “É uma coisa já natural do teatro”, afirma. “Agora, com a Monique, é diferente, é outra coisa.”

No telefonema com Zé Celso em que idealizou o filme, entusiasmada, ela chegou a vislumbrar drones no Teatro Oficina.

Gardenberg ainda negocia como será realizada a transmissão posterior da obra, mas deverá ser por streaming.

O movimento que aproximou o teatro filmado das plataformas cresceu com fenômenos da pandemia como o musical “Hamilton”, sucesso da Broadway que, uma vez gravado, se tornou uma das atrações do serviço sob demanda Disney+, que chegou ao Brasil no mês passado.

Sucessos inusitados de audiência digital, como “One Man, Two Guvnors”, com James Corden, e o monólogo “Fleabag”, com Phoebe Waller-Bridge, abriram o caminho para um streaming voltado inteiramente ao palco.

No início deste mês, o principal teatro público de Londres lançou a plataforma The National Theatre at Home, com uma assinatura mensal de US$ 12,99 nos Estados Unidos e de £ 9,98 no Reino Unido, cerca de R$ 66, com produções como “Phèdre”, com Helen Mirren.

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