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Por que as pessoas seguem jogando 'GTA 5' mesmo após sete anos do lançamento

Popularidade arrebatadora do jogo diz muito sobre o funcionamento da indústria de games

Jimmy De Santa, personagem de 'GTA V' que é retratado como uma caricatura do gamer tóxico

Jimmy De Santa, personagem de 'GTA V' que é retratado como uma caricatura do gamer tóxico Reprodução/IMDb

Tom Faber
Financial Times

Em meio à enxurrada de anúncios que cercaram o lançamento do PlayStation 5 e do Xbox Series X, um fato não surpreendeu ninguém –que o "Grand Theft Auto 5", da Rockstar Games, vai ganhar um relançamento de próxima geração. Com isso, será possivelmente o único game a ser lançado para três gerações sucessivas de consoles, tendo saído inicialmentre em 2013.

Segundo a maioria das estimativas, o "GTA 5" é o produto de mídia mais lucrativo de todos os tempos. Pelo menos 135 milhões de cópias do jogo já foram vendidas até hoje, arrecadando um total bem superior a US$ 6 bilhões, ou R$ 31,9 bilhões —mais que o dobro da bilheteria do filme mais lucrativo da história, “Vingadores: Ultimato”, do ano passado.

O fato de as pessoas continuarem a comprar esse game é interessante; afinal, 2013 é praticamente o Cretáceo, contado em anos de videogames. Com tantos jogos inovadores e atraentes saindo todos os meses, por que milhões de pessoas continuam a jogar "GTA 5"?

A resposta é multifacetada e revela muito sobre os deslocamentos das placas tectônicas da indústria de games nos últimos dez anos. Para começar, o "GTA 5" oferece uma experiência estelar para o gamer que joga sozinho e que pode controlar três criminosos ousados que lançam uma série de assaltos audazes.

O tom característico da Rockstar é o satírico, e esta edição ironiza as redes sociais, os reality shows e a cultura do "wellness", com fartas referências à cultura pop.

Por exemplo, se o jogador for para o cânion Raton às 19h, verá duas mulheres se arremessando de um penhasco num conversível, numa referência a “Thelma & Louise”. Esse é só um entre inúmeros detalhes ocultos que recompensam os exploradores dedicados do estado virtual de San Andreas, um pequeno pastiche da Califórnia, repleto de detalhes e caracterizações ímpares.

Mesmo que tenha essa história instigante, o game deve seu sucesso real e duradouro a seu componente multiplayer, o "GTA Online". O modo online foi visto como fracasso quando foi lançado, mas, desde então, a Rockstar o vem modernizando, convertendo o jogo num produto sofisticado e que não se destina só aos fãs inveterados, tanto assim que neste ano o "GTA Online" alcançou um recorde de jogadores.

As atualizações constantes da cidade de Los Santos oferecem novas missões e novos veículos aos jogadores, além da oportunidade de administrar boates onde poderão lavar o dinheiro ganho ilegalmente.

A introdução de roupas fluorescentes para extraterrestres neste ano levou a uma guerra intensa em que jogadores formaram exércitos de extraterrestres verdes e roxos e ficaram caçando uns aos outros na cidade. A Rockstar deu aos jogadores as ferramentas para criarem sua própria cultura e história virtual.

Desenho de homem branco jogando videogame e mostrando seu dedo do meio para mulher branca que está atrás dele
Jimmy De Santa, personagem de 'GTA V' que é retratado como uma caricatura do gamer tóxico - Reprodução/IMDb

As atualizações mais inteligentes são as que incentivam os jogadores a criar comunidades, formar gangues de motoqueiros ou contratarem uns aos outros, formando hierarquias mafiosas complexas. O "GTA Online" evoluiu pouco a pouco, passando de simulador criminoso absurdista a uma vida virtual para a qual as pessoas iam simplesmente para passar tempo com os amigos ou dirigir carros aos quais jamais teriam acesso na vida real.

De modo semelhante, os jogadores aproveitaram a popularidade crescente do YouTube e do Twitch para postar vídeos deles próprios jogando, atingindo plateias enormes. Até o momento em que estou escrevendo este texto, 11 milhões de horas de "GTA 5" tinham sido vistas no Twitch na semana passada.

Uma comunidade vibrante realiza manobras audazes e complexas no mundo do game, passando horas incontáveis treinando para se arremessar de rampas ou mergulhando de paraquedas entre os braços estendidos de torres de alta tensão nas encostas do elevado monte Chiliad.

Outro grupo crescente ocupa servidores de role-playing; seus integrantes podem ser funcionários dos correios, motoristas de ambulâncias ou exercer outras profissões. Alguns trabalham em turnos de oito horas em tempo real como policiais virtuais, prendendo traficantes de drogas e distribuindo multas por infrações de trânsito.

Os jogadores que desempenham papéis criam seu próprio teatro dentro do game, improvisando tramas dignas de telenovela e que os espectadores aos milhares acompanham fascinados.

Desde o início a Rockstar tomou a iniciativa inteligente de deixar que os jogadores modifiquem o software do game. Ela introduziu um modo de editor que permite ao público dirigir o tempo, as condições meteorológicas e os habitantes, de modo a criar filmes com elencos de videogame (conhecidos como “machinima”).

Esses filmes variam desde documentários sobre a natureza até simulacros de 007 com três horas de duração. Aqueles que querem mergulhar ainda mais fundo podem ingressar na comunidade de “modders” que editam o software para atualizar as imagens ou acrescentar elementos como super-heróis e uma parada de orgulho LGBT.

Os melhores mods são os mais bizarros –hackear o game para percorrer a cidade não como humano, mas como um cervo pacífico, ou atrelar o poder de armas magnificamente surreais que atiram em carros ou tubarões.

O sucesso contínuo do "GTA 5" aponta para como o desenvolvimento de games vem evoluindo. Hoje os jogadores já não compram títulos para serem uma experiência única, a ser completada e deixada para trás. Hoje os games são construídos como plataformas que vão sendo atualizadas ao longo do tempo.

Os desenvolvedores continuam a lucrar com microtransações. Esse modelo econômico divide as opiniões dos gamers, mas permite que um mesmo game continue a se manter relevante ao longo de gerações de consoles, porque sempre há algo novo a fazer.

O estado fictício de San Andreas virou um playground ímpar para gamers. Enquanto eles aguardam notícias sobre o "GTA 6", é mais fácil voltar para esses lugares já conhecidos do que se aventurar em algo novo. Eles cresceram com esse game, e o game também cresceu com eles.

Tradução de Clara Allain

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