Descrição de chapéu Livros

Ferréz e Paulo Lins dizem que a revolução dos livros na periferia já se consumou

Autores de 'Capão Pecado' e 'Cidade de Deus' falam sobre o que mudou desde que publicaram as obras

São Paulo

Ao escrever o livro “Capão Pecado”, Ferréz “tinha pretensão de querer trazer a eternidade” para seus amigos. Aqueles que estavam ao seu lado na vida de desassossego, desemprego e criminalidade da região do Capão Redondo, bairro da zona sul da cidade de São Paulo.

Nuvens carregadas anunciam chuva no bairro Capão Redondo, na zona sul da capital paulista - Marcelo Alves - 16.nov.2016/Onipress/Folhapress

O livro teve uma repercussão imensa, dentro e fora da comunidade. Durante um show, um MC disse ao escritor que pensava que a obra em questão fosse um disco de rap, “de tão a milhão que ela era comentada nas ruas”.

Tudo isso Ferréz conta no prefácio da nova edição do livro —a sexta, depois de mais de 100 mil exemplares vendidos—, que comemora duas décadas da primeira publicação, pela extinta e independente editora Labortexto, e pavimenta sua entrada na Companhia das Letras, o maior e mais poderoso grupo editorial de todo o país.

Retraçar essa história ajuda a entender como evoluiu ao longo das últimas décadas a chamada literatura marginal, termo usado tanto por Ferréz quanto pelo também escritor Paulo Lins para se referir à arte que é produzida nas periferias das nossas grandes metrópoles.

Lins publicou, três anos antes do amigo, o livro “Cidade de Deus”, outro retrato das brutalidades da vida na favela, esta na cidade do Rio de Janeiro. Seu impacto também foi estrondoso, impulsionado pelo caráter precursor e pela transformação em blockbuster nas telas de cinema, cinco anos mais tarde, pelo diretor Fernando Meirelles.

No ano de lançamento de “Capão Pecado”, este jornal reuniu os dois autores para uma conversa sobre suas obras e suas percepções sobre o país e a literatura. Agora, reeditou as entrevistas para entender o que mudou —ou não— de lá para cá.

montagem com dois retratos de homens em PB
Montagem com retratos dos escritores Ferréz, à esquerda, e Paulo Lins, à direita - Folhapress

“A revolução tem de ser feita, pela arte ou pelo terror”, disse então aquele Ferréz de 24 anos, querendo virar o sistema de cabeça para baixo. “É mais fácil o terror, apesar de eu acreditar na arte. O que vier primeiro eu abraço.”

Afinal, essa revolução veio pelos dois meios, afirma hoje o Ferréz de 45 anos. “O terror é a gente viver num país em que quem tem não distribui e quem não tem quer ter também. E quem tem fica o tempo todo com medo de quem não tem.”

“E conseguimos pela arte, porque os saraus e os movimentos periféricos cresceram. A literatura marginal, que retrata o nosso cotidiano, ganhou o mundo. Ninguém vai mais deixar de falar da gente”, afirma ele.

Houve um aumento no interesse dos leitores e das grandes editoras pela literatura criada nas periferias? A resposta dele, na lata, é com “certeza absoluta”.

“É só você ir num evento que envolve alguém da periferia, vai ver o tanto de gente que tem lá. E quando vê um evento de um autor elitizado, muitas vezes não tem o público que precisava ter”, ele afirma. “Eu não conheço nenhum lugar que bota cem pessoas para ouvir a poesia de alguém que ainda não é conhecido. E um bar aqui na zona sul coloca.”

O Lins de 42 anos adotava um tom pessimista. “Nossos livros são publicados e não vai acontecer nada. Talvez um ou dois leiam.” Agora, aos 62, o escritor dá risada ao dizer que não tem mais a mesma opinião do passado. “O movimento de literatura nas periferias já vinha num crescendo. Muita gente passou a publicar depois daquilo.”

Antes, “era muito difícil o periférico publicar livro”. Quem se editava de maneira independente, segundo o autor, eram os poetas da chamada geração marginal dos anos 1960 e 1970, que eram de classe média branca. Prosa ainda era dificílima.

O “clima pré-revolucionário” que o escritor também notava se consumou nesse sentido da inclusão cultural. Ele lista a ampliação das feiras e saraus que aproximam gerações de autores, a ascensão de nomes como Sacolinha e Caco Pontes e a consolidação de “ícones nessa luta”, entre eles as escritoras Conceição Evaristo e Cidinha da Silva.

“Quando eu comecei, conheci o Mano Brown. Hoje tem o Emicida, o pessoal do slam. É um movimento que vem desde lá do Zumbi e não para”, afirma o escritor.

“Mas quando eu falo que queria mudar a favela, eu queria diminuir a violência. E isso aumentou”, afirma Lins. “Eu escrevi mostrando como a pessoa entrava na criminalidade, os motivos. Pensei que isso fosse sair da universidade e entrar na polícia, no Ministério da Justiça, no Poder Judiciário. Mas não.”

Ferréz, naquela entrevista antiga, já comentava que o movimento rap buscava brecar a violência na favela.

“Tentamos provar que estudar é o melhor caminho. Tinha de roubar livraria, buscar informação. A informação está coligada com o dinheiro.”

Alguma coisa mudou de lá para cá? “Não. Vinte anos depois, não tem uma livraria no Capão. E diminuíram as bancas de jornal.”

A questão do acesso, aliás, pesou na decisão de assinar com a Companhia das Letras, um movimento que hesitou antes de realizar. Uma conversa com o amigo Marcelino Freire foi determinante. “O seu público merece ter acesso à sua obra e não está achando”, disse ele.

Também atraiu Ferréz a oportunidade de dar “uma repaginada no livro”. “Pude mudar algumas coisas enquanto estou vivo, porque tem uns autores que depois que morrem, os caras falam ‘olha, ele errou ali, errou aqui’.”

O que mais mudou foi a reação das mulheres do livro ao machismo. “Eu colocava o entendimento que eu achava que um homem tinha que ter. Depois de tantas palestras, tantas reclamações, consegui arrumar isso. A mulher passa por um abuso verbal e reage da forma que tem que reagir, não da forma que eu achava que ela ia reagir.”

Algo que não mudou, por outro lado, está bem expresso em outra parte do prefácio, em que Ferréz se dirige aos seus companheiros, que chama de seus irmãos. “Vocês estão aqui comigo, em cada linha, em cada vírgula. Ninguém vai apagar mais a nossa história.”

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