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Grammy, adiado às vésperas, vai acontecer cercado de desconfiança

Marcado para março, prêmio trocou de comando e abandonou termo 'urbano', mas segue na mira de artistas dos quais depende

A cerimônia do Grammy 2021 foi adiada menos de quatro semanas antes da data para a qual estava marcada originalmente, o próximo dia 31 de janeiro. Agora, o evento está marcado para o dia 14 de março.

A própria divulgação da notícia, adiantada pelo site da revista Rolling Stone e confirmada apenas horas depois pela organização do evento, demonstra a confusão em que se encontra a premiação neste momento.

Beyoncé segurando gramofones na edição do Grammy de 2017 - AFP

A razão do adiamento é o crescimento dos casos de Covid-19 em Los Angeles, que está com hospitais lotados de pacientes infectados pelo novo coronavírus. A premiação de 2021 será feita só com a presença de artistas e apresentadores, sem convidados.

O adiamento, feito de última hora, se soma a uma série de reclamações de artistas e críticos, que parecem aumentar a cada mês. Mais do que a próxima edição da premiação, as críticas ao Grammy, na verdade, vêm se tornando a tônica nos últimos anos, enquanto os novos organizadores do prêmio —considerado o mais importante da indústria fonográfica— penam para manter sua credibilidade.

Ken Ehrlich, que produziu o Grammy por quatro décadas, abriu mão da posição no ano passado. O novo comandante da cerimônia, Ben Winston —que trabalhou com James Corden— promete uma revolução em seu primeiro ano no posto.

No ano passado, a transmissão do Grammy no canal americano CBS foi assistida por 18,7 milhões de pessoas. Foi a menor audiência em 12 anos da premiação, que acontece anualmente.

Entre o fim de 2019 e o começo de 2020, Deborah Dugan assumiu e foi retirada da presidência da Academia de Gravação, instituição que faz o Grammy. Ela trabalhou para rejuvenescer a premiação —que em 2020 consagrou Billie Eilish, então com 18 anos—, mas saiu do cargo dez dias antes da cerimônia, dizendo ter sido retaliada por revelar escândalos de abuso sexual, irregularidades na votação e conflitos de interesses.

The Weeknd, que num atípico de pandemia teve um disco muito bem recebido —tanto pelo público quanto pela imprensa— é o grande algoz da vez. Seu álbum lançado em 2020, “After Hours”, foi esnobado em todas as 84 categorias, e ele chamou a Academia de corrupta.

Outros artistas fizeram coro. “Acho que deveríamos parar de nos chocar todo ano pela desconexão entre as músicas que impactaram e esses prêmios, e apenas aceitar que, o que uma vez foi a maior forma de reconhecimento, talvez não tenha mais importância para os artistas de agora e os que virão depois”, escreveu Drake, que foi provavelmente o artista mais ouvido do mundo na última década.

No Twitter, Nicki Minaj endossou. “Nunca se esqueçam que o Grammy não me deu meu prêmio de artista revelação quando eu tinha sete músicas simultaneamente aparecendo na Billboard. Eles o deram ao homem branco Bon Iver”. Para Elton John, a música “Blinding Lights”, de Weeknd, merecia ganhar em música do ano e gravação do ano.

Fiona Apple, queridinha da crítica em 2020 e cujo disco “Fetch the Bolt Cutters” rendeu a ela três indicações, também falou mal do Grammy em entrevista ao Guardian. Ela não aceitou a indicação de Dr. Luke, acusado por Kesha de assédio sexual —o que ele nega— a produtor do ano pelo trabalho com Doja Cat.

Ela também falou sobre a saída de Deborah Dugan da presidência da Academia. “Há muitas coisas que ela trouxe à tona e que fazem com que seja impossível para mim ignorar a situação. E eu realmente não quero ir até lá e apoiar [a cerimônia].”

Recentemente, três dos cinco artistas indicados ao Grammy de melhor álbum infantil recusaram suas nomeações em protesto pela ausência de negros na categoria. O cantor Alastair Moock e as bandas Okee Dokee Brothers e Dog on Fleas disseram, em carta, que “não poderiam, em sã consciência, se beneficiar de um processo que historicamente negligenciou as mulheres e artistas negros".

Artistas de hip-hop, que na última década cresceu ainda mais em importância e popularidade, se queixam do Grammy há décadas. Em 2019, Childish Gambino, premiado em quatro categorias, não foi à cerimônia, enquanto Drake até apareceu, mas para criticar o prêmio e ter seu microfone cortado.

Kendrick Lamar também boicotou o Grammy naquele ano. Frank Ocean —quase unanimidade para a crítica americana— sequer inscreveu seus discos para serem votados.

No ano passado, Tyler, the Creator, que ganhou o melhor disco de rap, saiu da cerimônia dizendo —com razão— que seu álbum “Igor” misturava gêneros, e que relegá-lo à categoria configurava racismo. Anos antes, Drake disse o mesmo, quando recebeu um prêmio de rap pela música “Hotline Bling”, considerada por ele —com razão— uma canção pop.

Tais reclamações fizeram a Academia abandonar o uso de termo genérico "urbano" para categorizar discos ou músicas. Harvey Mason Jr., atual presidente da Academia, justificou a decisão citando "um novo capítulo em nossa história".

"Estamos ouvindo e aprendendo por meio dos nossos parceiros, constituintes e acionistas. Nós estamos tentando garantir que estejamos aptos a mudar e adaptar. E queremos ser verdadeiramente inclusivos", ele afirmou no ano passado.

Até mesmo cantoras pop, como Ariana Grande e Taylor Swift, faltaram à cerimônia em anos recentes. A primeira acusou ter sofrido censura em uma de suas performances, e apareceu no ano seguinte cantando seu trap-festeiro de maneira pouco adequada com uma orquestra. A segunda, que coleciona gramofones na carreira, sentiu-se injustiçada em 2020 e em 2021 retorna como uma das mais indicadas.

As queixas de mulheres e de artistas negros encontram fundamento nos números. O caso de Beyoncé é exemplar. Artista mais indicada este ano, ela já foi citada 79 vezes em categorias do Grammy, igualando Paul McCartney e atrás apenas de Quincy Jones e Jay-Z, que têm 80 indicações cada.

Ao todo, ela ganhou 24 gramofones, mas a maioria deles em categorias menores. Ela já perdeu em disco do ano três vezes, em gravação do ano cinco vezes e em música do ano duas vezes. A única vez que ela foi premiada em uma das quatro categorias principais —que também incluem artista revelação— foi com “Single Ladies (Put a Ring on It)”, em música do ano.

Talvez a situação mais marcante tenha sido em 2015, quando Beck —com um disco pouquíssimo lembrado atualmente, “Morning Phase”— bateu um dos mais aclamados álbuns de Beyoncé, o autointitulado, em disco do ano.

As reclamações se acumulam, e o Grammy tem a cada dia uma tarefa ainda mais difícil para conseguir driblar as desconfianças. E isso vale não apenas para o público, mas para os artistas —que, cada vez menos dependentes da estrutura das grandes gravadoras, são a matéria-prima tanto do prêmio quanto da própria indústria da música.

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