Valter Hugo Mãe escreve na pandemia sobre infância, racismo e democracia

Autor fala sobre seu livro, 'Contra Mim', no Encontro de Leituras nesta terça (12), parceria da Folha com o Público

São Paulo

Valter Hugo Mãe pedia há anos por um milagre que o deixasse ficar mais tempo em casa. Mas nem a imaginação deste escritor português nascido em Angola e que já ganhou os prêmios Saramago e Portugal Telecom —atual Oceanos— poderia prever que seu pedido fosse atendido por uma tragédia “tão grande e universal”.

Pois que, obrigado a ficar em Portugal o ano todo de 2020, Hugo Mãe se pôs a trabalhar recolhendo, unindo e reescrevendo retalhos de memórias já escritas para compor o livro “Contra Mim”, que chegou às livrarias brasileiras dias antes do Natal.

O romance, o mais pessoal do autor de “A Máquina de Fazer Espanhóis”, conta histórias de sua infância e adolescência. Hugo Mãe diz que encarou o livro como um espelho, “para olhar dentro e entender se encontro ainda o sentido ou não”.

“Estivemos, e seguimos estando, desafiados na pura sobrevivência, e isso impõe resistência que, no caso específico, passa pela força mental e identitária”, diz o escritor sobre a pandemia e sobre ter sentido que era um convite a uma introspecção profunda. “Vamos querer sobreviver sem perdermos a lucidez.”

Ele, que completa 50 anos em 2021, conta que o ano passado foi a terapia mais importante de sua vida. O milagre que solicitava, para ficar em casa, era para que desse conta de uma espécie de crise, pela qual se encontrava fisicamente debilitado, sofrendo de ansiedade, com rejeições alimentares e enxaquecas frequentes.

Os relatos dos pequenos lances de memória que tem de Angola, de onde saiu ainda muito criança, e de uma infância no interior de Portugal logo após a Revolução dos Cravos misturam humor com reflexões poderosas sobre racismo e o fim da ditadura.

Há parentes mais ou menos estranhos ou misteriosos, como a avó que teve 21 filhos e que nunca falava com Hugo Mãe criança, e há uma violência na escola, palmadas, ameaças, reguadas, que pode chocar o leitor acostumado à pedagogia que hoje viceja.

“O que conto no meu livro faz parte daquelas verdades históricas que custa crer venham ainda de há tão pouco tempo”, diz o escritor. “Somos facilmente acostumados com as mudanças, sobretudo as que nos trazem maior liberdade e bem-estar, e tendemos a esquecer rápido e achar que certas coisas são de uma qualquer pré-história.”

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O escritor Valter Hugo Mãe - Karime Xavier/Folhapress

Ele diz ser importante lembrar que há poucas décadas a escola era assim, “não porque as pessoas vivam hoje marcadas por isso, mas porque, esquecidas disso, tomam decisões que arriscam voltar às consciências persecutórias e torpes de antigamente”.

Segundo Hugo Mãe, consciências ultraconservadoras e puritanas, que nasceram na ditadura, ainda acreditavam em sociedades essencialmente punitivas e discriminatórias. “Haverei sempre de vociferar contra saudades de qualquer ditadura, à esquerda ou à direita”, diz ele.

Não tolero senão a democracia, com todas as suas deficiências. Populistas extremistas, imbecis e bobões, que nem sequer sabem articular, não respeito. Nem que a maioria vote.”

Segundo Hugo Mãe, maiorias já foram capazes de votar nas maiores atrocidades da humanidade e a agressão à democracia é sempre atrocidade. “Maioria não cura isso.”

As palavras mais ternas de “Contra Mim”, porém, são usadas para falar da mãe do escritor e para descrever a descoberta da escrita e da literatura. Numa das passagens, quando o personagem-autor estava na idade de começar a escola, ele conta que sua mãe adorava cantar e que, num retrato de juventude, lembrava Elis Regina.

Hugo Mãe conta que seu contato com a música brasileira se deu, primeiro, com clássicos da MPB e, depois, com o rock dos anos 1980. Graças a um amigo que chegou do Brasil quando o escritor tinha 17 anos, ele ficou “entre Legião Urbana e Titãs insistentemente”.

Ele cita vários músicos brasileiros que ouve, entre os quais Caetano Veloso, Chico Buarque, Maria Bethânia, Ney Matogrosso, Chico César, Marisa Monte, e “deusa Elza e deus Cartola”.

“É infinita a música brasileira de tão incrível. Sabe que me comove como se ouve música brasileira em países como o Japão?”, diz ele. “No Japão, se você quiser ser muito chique, você toca o maravilhoso Gilberto Gil e toda a gente fica com mais dez centímetros. Fica tudo mais perto do sol.”

Relutante, com medo de ir à escola, Hugo Mãe criança se esconde no mato nos primeiros dias de aula. Aceita, porém, enfrentar as ofensas e petelecos generalizados dos bancos da educação em troca de aprender a escrever, oportunidade que já vislumbrava ser determinante em sua vida.

“Ainda vivo nessa maravilhada expectativa de transformar a palavra na coisa que significa”, diz ele sobre sua relação com a palavra. “Quero que o texto não diga simplesmente, mas seja. Quero que seja o que diz. É minha loucura de doente pelas palavras.”

Hugo Mãe participa nesta terça (12), às 19h de Brasília, do Encontro de Leituras, no qual conversa com leitores da Folha e do jornal português Público sobre "Contra Mim". O evento é gratuito e livre, via Zoom, neste link.

Contra Mim

  • Preço R$ 54, 90 (256 págs.)
  • Autor Valter Hugo Mãe
  • Editora Biblioteca Azul
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