Pandemia tornou 2020 o ano que mais frustrou todas as expectativas na cultura

Previsões que a Ilustrada fez em janeiro bateram de frente com o imponderável coronavírus

São Paulo

Como diz o antigo provérbio judaico, o homem faz planos e Deus ri. Não que o ano de 2020 tenha tido muita graça, mas talvez nenhuma outra frase resuma tão bem suas expectativas mundialmente frustradas.

O jornalismo cultural não passou incólume a isso. Num exercício que mistura sentimentos de solidariedade, autocrítica e puro sadismo, decidimos voltar à Ilustrada de 365 dias atrás (sim, o ano ainda por cima foi bissexto).

O título na primeira página da edição impressa de 1º de janeiro era “2020 - O que vem por aí”. Quanta inocência.

Há que se reconhecer que a abertura da reportagem já não era lá muito otimista. “Tudo de bom —e de ruim— do ano passado vai ressurgir com mais força nas telas, nos palcos, nas galerias de arte e nas ondas do streaming. É sinal de uma pegada nostálgica que não arrefece, talvez porque o nosso presente não seja lá muito animador.”

Imagina se o nobre escriba soubesse o que viria dali a algumas semanas. Ou melhor, o que não viria.

Dos 12 filmes lembrados na seção de cinema, só dois estrearam. “Aves de Rapina” ainda pegou as salas funcionando normalmente, em fevereiro, e “Mulher-Maravilha 1984”, anunciado para junho, chegou só faz poucas semanas até os espectadores.

Mas nos Estados Unidos o filme foi objeto de uma jogada revolucionária que o pôs nos cinemas e no streaming ao mesmo tempo, o que fez muitos programadores do circuito tradicional arrancarem os cabelos.

Foram adiadas obras como as sequências de “Um Lugar Silencioso” e “Legalmente Loira”, as adaptações de “Eduardo e Mônica” e “A Paixão Segundo G. H.” e o novo “Amor, Sublime Amor”, de Steven Spielberg.

As previsões de teatro acertaram ao dizer que as peças ficariam mais ousadas. Mas não como reação ao conservadorismo do governo, como se previa, mas pela necessidade de se adaptarem ao fato de não haver palcos onde se apresentar na maior parte do ano.

Em vez de uma retomada de fôlego de musicais e da vinda de companhias estrangeiras, o que se viu foi o inédito fenômeno das performances por Zoom, em que o teatro da esquina está à mesma distância do Cirque du Soleil, e das montagens com o radical experimentalismo do distanciamento social combinado com álcool em gel.

No campo das artes plásticas, o prometido ano que priorizaria a temática indígena nos grandes museus foi adiado, como boa parte das exposições, já que as “Histórias Indígenas” do Masp vão ficar para 2023. Mas a Pinacoteca abriu “Véxoa”, reunião de artistas contemporâneos.

As bienais de São Paulo, tanto a de arte quanto a do livro, viraram trienais momentaneamente. Em 2020, só conseguiram fazer mostras prévias, no caso da primeira, e debates virtuais, no caso da segunda.

As previsões literárias acertaram a primazia de “Torto Arado”, de Itamar Vieira Junior, nas premiações. Mas falharam ao dizer que a Flip manteria Elizabeth Bishop como homenageada. Não havia como saber que a festa não teria nem homenagem nem curador nem Paraty, pela força das circunstâncias.

A expectativa para a política cultural foi feliz, ou melhor, pessimista o suficiente para acertar a queda no poder de órgãos de preservação do patrimônio histórico e a ingerência política na verba do Fundo Setorial do Audiovisual. E isso porque não anteviu a nova crise que se instalaria na Cinemateca.

Mas pecou ao dizer que haveria uma compreensão maior do governo sobre a importância política da indústria cultural —a Lei Aldir Blanc, auxílio voltado aos profissionais da cultura afetados pela crise, precisou de muito esforço da oposição para ser votada e executada.

E nem o mais extravagante dos videntes poderia prever as figuras que dominariam o noticiário digno de novela da secretaria da Cultura bolsonarista —a atriz Regina Duarte e o ator Mario Frias. Isso para não mencionar a performance de tintas nazistas feita pelo secretário anterior naquele fatídico discurso.

A televisão foi a melhor amiga de nove entre dez pessoas na quarentena e, também, a que melhor se ateve à programação. Novidades como CNN, HBO Max e Disney+ foram, de fato, grandes destaques da indústria cultural deste ano.

O que não havia como prever era a dominância absoluta que o streaming teria sobre o audiovisual, num ano tão privado de novelas inéditas na TV e filmes exclusivos nos cinemas. Os brasileiros imaginavam que passariam um tempo diante das telas neste ano. Mas não tanto.

As expectativas de música estavam atentas ao que escutaríamos em diversos gêneros, do funk ao pop. O imponderável estava em como ouviríamos tudo isso. Os maiores hits foram consumidos dentro de casa, e a pista de dança mais segura era a improvisada no meio da sala. Contato com artistas, só se for pelo chat da live.

Antecipar tendências culturais é uma tarefa tão desafiadora quanto inglória. Antes de tudo, porque arte é uma das coisas mais imprevisíveis que existem.

Quem imaginaria que um filme sul-coreano arrebataria um Oscar de melhor filme? Quem diria que uma minissérie ficcional sobre xadrez ia ser a mais vista da história da Netflix? Quem apostaria em Barões da Pisadinha como um dos principais hitmakers de 2020?

E esses três acontecimentos não tiveram nada a ver com o coronavírus —a guinada mundial mais inesperada em muito, muito tempo.

Se as previsões desta vez seguirem os planos, o próximo ano verá um alastramento de vacinas e um progressivo arrefecimento da pandemia. E a cultura em breve não terá mais que se preocupar com confinamentos e contaminações.

Falando nisso, não perca em breve as apostas da Ilustrada para 2021.

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