Descrição de chapéu Artes Cênicas

Balé da Cidade volta ao palco com bailarinos separados por telas em rave do apocalipse

Companhia retorna ao Theatro Municipal depois de um ano parado e sem seu diretor, demitido e investigado por assédio

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Balé da Cidade volta ao Theatro Municipal de São Paulu depois de um ano parado Eduardo Knapp/Folhapress

Iara Biderman
São Paulo

O Theatro Municipal de São Paulo está aberto. Cortinas escancaradas, a parede nua ao fundo, coxias expostas. É neste cenário que o Balé da Cidade volta a se apresentar depois de um ano fora dos palcos. Com duas estreias, a companhia de dança municipal retorna à casa para sua temporada de 2021.Os espetáculos começam agora e vão até o fim desta semana.

“A Casa” é nome e tema da coreografia de Marisa Bucoff, bailarina que está há 21 anos na companhia. Sua obra abre o programa e fala do presente. “A volta ao teatro que é nossa casa, as experiências do confinamento e seus efeitos no corpo, também nossa casa, a primeira”, resume a coreógrafa.

Depois vem o “Transe”, de Clébio Oliveira, uma rave do fim do mundo que condensa passado e futuro. Desde 2006, Oliveira sonhava em coreografar um ritual futurista para o Balé da Cidade. Só em novembro do ano passado foi convidado a trabalhar para a companhia.

Ele acredita em coincidências —sua ideia inicial de coreografar um êxtase coletivo é, também, a realidade por ele imaginada para os corpos do futuro pós-pandêmico.

Coincidência ou não, são duas obras complementares. O clima intimista de “A Casa” extravasa para a libertação de “Transe”, ambos contornados por limitações e inquietações atuais.

O elenco inteiro do Balé da Cidade estará em cena. São 17 bailarinos em cada uma das duas obras do programa. Seguindo os protocolos sanitários, eles devem usar máscaras ou manter entre eles a distância de cerca de três metros, salvo os profissionais que já convivem na esfera privada. É o que acontece quando dois bailarinos casados na vida real transformam em coreografia uma DR em torno da mesa de jantar, em “A Casa”.

Outros pas-de-deux acontecem, respeitando a proibição de contato físico. Para isso, Bucoff, a coreógrafa, usa biombos com telas acrílicas, como aquelas adotadas em alguns bares e estabelecimentos comerciais. Corpos colados mas separados pela barreira transparente dançam assim as carícias, os beijos e os abraços possíveis.

Mesa, cadeiras, sofá, poltronas, biombos e uma escada com rodinhas que desliza sobre o palco e faz as vezes de morada de bailarinos solitários são os únicos elementos cênicos da coreografia.

A ausência de cenário, parte dos protocolos determinados para a criação do espetáculo, além de evitar diversas mãos tocando a mesma superfície, facilita a transição de cena. Não há intervalo entre as duas coreografias.

Com as cortinas abertas, em cinco minutos os funcionários do teatro limpam o palco às vistas da plateia, que permanece em suas cadeiras –não é dessa vez que o público –limitado a 35% da capacidade total do teatro– vai matar as saudades das filas intermináveis para os banheiros do Municipal.

O programa também será transmitido ao vivo no YouTube, em duas partes. No sábado, dia 27, transmitem “A Casa” e, no domingo, dia 28, “Transe”.

Mudam a cena e o clima. No palco escuro, surge o primeiro ser da rave concebida por Clébio Oliveira, coreógrafo brasileiro radicado em Berlim. O bailarino solitário em busca do lugar da festa é uma espécie de inseto de ficção científica, com duas lanternas como olhos iluminando uma terra devastada.

Não ficará só por muito tempo. Em “Transe”, quase toda a coreografia é realizada em aglomerações, o elenco todo em cena, todos de máscara.

Outra coincidência –quando imaginou a obra, em 2006, Oliveira já pensava em bailarinos mascarados. Sua referência foi uma imagem do festival Burning Man, realizado anualmente no deserto de Nevada, nos Estados Unidos. “As pessoas vão todas montadas com roupas de grife, mas usam máscaras ou cobrem nariz e boca com lenços para se proteger das nuvens de areia levantadas pelo vento do deserto”, conta.

Suas inspirações para coreografar o êxtase coletivo de “Transe”, além das raves, são movimentos animalescos, jardins selvagens e experiências alucinógenas. Disso surgem os movimentos em grupo e os corpos individuais que emergem da massa dançante, cada um em sua viagem. O efeito, acentuado pela iluminação crepuscular, busca recriar um estado entre vigília e sono. “É nesse estado que o transe acontece. Sempre”, diz Oliveira.

A escolha de Oliveira e Bucoff para criar as obras da temporada do Balé da Cidade foi feita por um comitê composto por bailarinos e técnicos da companhia. Desde o último mês de novembro, o balé está sem diretor artístico. Naquele mês, Ismael Ivo, que tinha assumido a direção em 2017, foi demitido.

Com o cargo de diretor vago e a retomada das atividades presenciais e da programação, as decisões sobre a montagem do espetáculo foram tomadas de forma colaborativa. Segundo Ricardo Apezzato, gestor artístico da Santa Marcelina Cultura, a organização social responsável pelo Theatro Municipal, isso se deu em caráter emergencial, a partir da formação de um comitê com membros eleitos pelos profissionais da companhia. O grupo é presidido por Paulo Zuben, diretor artístico e pedagógico da organização.

Alguns meses antes da demissão do ex-diretor Ismael Ivo, um processo em sigilo conduzido pelo Instituto Odeon, então gestor do Theatro Municipal, apurava denúncias de assédio moral contra ele.

As informações vazaram e foram reveladas então pela revista Veja. Na época, o advogado de Ivo afirmou, por meio de nota, que “as acusações não guardam qualquer relação com a realidade”. O diretor artístico, assim como funcionários e ex-funcionários do Balé da Cidade, não se pronunciaram sobre as acusações. No final de novembro, Ismael Ivo foi contratado como assessor artístico da TV Cultura.

O Instituto Odeon deixou a administração do Municipal em outubro e a Santa Marcelina Cultura assumiu interinamente a gestão. O contrato emergencial, iniciado em novembro, termina em abril deste ano. A gestora interina também não comenta sobre a demissão do diretor artístico da companhia.

“A Santa Marcelina Cultura só pode comentar sobre decisões tomadas após o início da sua gestão emergencial", diz uma nota da instituição. Segundo a organização social, há um processo seletivo em curso para escalar a nova direção do Balé da Cidade.​

Transmissão ao vivo de 'A Casa'

Transmissão ao vivo de 'Transe'

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