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Paulo Venancio Filho

Guy Brett é caso raro de crítico que se dedicou mais a arte de outro país

Quando pouco se conhecia da arte brasileira, britânico promoveu artistas do país e agiu como um verdadeiro admirador

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Paulo Venancio Filho

Caso raro, talvez único, de crítico que se dedicou mais a arte de outro país do que a de seu próprio, Guy Brett foi um dos pioneiros no reconhecimento das artes plásticas além das fronteiras da Europa e dos Estados Unidos.

Quando pouco, ou nada, se conhecia da arte brasileira no âmbito internacional –o Brasil de fato não existia—, Brett promoveu e agiu como um verdadeiro e sincero admirador daqueles artistas que primeiramente conheceu no início dos anos 1960 –Sergio Camargo, Hélio Oiticica, Lygia Clark e Lygia Pape.

O crítico Guy Brett durante na galeria Raquel Arnaud em 2011
O crítico Guy Brett durante na galeria Raquel Arnaud em 2011 - Felix Lima/Folhapress

São artistas hoje reconhecidos mundialmente que, já naquela época, quando ainda eram pouco mais que iniciantes, Brett –“cidadão do mundo”, como escreveu Baudelaire– foi capaz de perceber e admirar. Ele reconheceu a originalidade e a inventividade de seus trabalhos, o que mostrava já o seu apurado discernimento de manifestações que iam além dos limites do construtivismo europeu.

Mais do que um crítico, Brett foi um interlocutor, estimulador e amigo de pelo menos duas gerações de artistas brasileiros. Por mais de 40 anos manteve um contato ininterrupto com o que se fazia de arte no Brasil, seja in loco ou em intensa correspondência.

Além da ligação que manteve ao logo de anos com os artistas aqui lembrados, ele também se aproximou e criou a mesma intimidade com a geração de artistas mais jovens como Antonio Manuel, Cildo Meireles, Waltercio Caldas e Tunga, entre outros. Era isso que caracterizava sua atuação de crítico e também curador; estar junto aos artistas, num contato intenso e constante que ia muito além de uma colaboração eventual.

Brett se iniciou na crítica muito jovem, primeiro no The Guardian, de 1963 a 1964, e depois no The Times, de 1964 a 1975. Ele era uma figura respeitada e admirada no meio artístico britânico, embora, e talvez por isso, nunca tenha feito parte do status quo. Dispensando o meio do qual facilmente poderia fazer parte, atuando sempre em áreas às quais era dada pouca atenção, foi um dos primeiros a promover e analisar a arte cinética, sobre a qual escreveu um ensaio pioneiro, "Kinetic Art: The Language of Movement", de 1968.

Mas foi sua fundamental participação –junto aos artistas David Medalla , Gustav Metzger, Marcello Salvadori e o crítico Paul Keeler— na criação, e breve vida, da galeria Signals, de 1964 a 1966, que propiciou as exposições pioneiras em Londres de Lygia Clark, Sergio Camargo e Mira Schendel.

E foi Brett quem intercedeu decididamente, com o fechamento da Signals, que a exposição de Hélio Oiticica para ali programada acontecesse na Whitechapel Gallery em 1969, aquela que ficou conhecida como "Whitechapel Experiment", verdadeiro "turning point" na trajetória artística de Oiticica.

Sua decisiva participação no contexto da arte brasileira moderna e contemporânea ainda está para ser devida e amplamente reconhecida. Entre outras de suas publicações, se destacam os ensaios monográficos que redigiu sobre Lygia Clark, Hélio Oiticica, Sergio Camargo, Lygia Pape, Cildo Meireles, Antonio Manuel, Tunga e Waltercio Caldas.

Foi curador eventual, mas não menos rigoroso –creio que não se considerava como tal—, de importantes exposições nas seguintes instituições –South Bank Center, Ikon Gallery, Witte De With, Jeu de Paume, Institute of Contemporary Art, Museu d'Arte Contemporani de Barcelona e Hayward Galllery.

Na Pinacoteca do Estado de São Paulo, realizou a curadoria da exposição "Aberto/Fechado: Caixa e Livro na Arte Brasileira", em 2012, a única que fez no Brasil. Na Tate Modern foi o organizador da retrospectiva de Cildo Meireles, na virada de 2008 para 2009, e a de Takis, em 2019, a última que realizou.

Para quem o conheceu vai ficar para sempre a imagem do indivíduo afável, gentil, discreto, inteligente, sempre curioso e aberto a novas manifestações e perspectivas artísticas. Um verdadeiro gentleman. Nobre de sangue e de espírito.

Paulo Venâncio Filho

Professor da Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

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