Descrição de chapéu
racismo mostra de cinema

'Judas e o Messias Negro' ensina que não se faz revolução do sofá de casa

Apesar de não converter ninguém, filme traz sermões que dão vontade de levantar do assento de punho cerrado para o alto

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Judas e o Messias Negro

  • Quando Estreia nesta quinta (25)
  • Elenco Daniel Kaluuya, LaKeith Stanfield, Jesse Plemons
  • Produção Estados Unidos, 2021
  • Direção Shaka King

Quem tem a sensibilidade e a frieza de olhar o mundo será responsável por guiar outros olhares. O pantera negra Fred Hampton era uma dessas pessoas. Em “Judas e o Messias Negro”, que chega agora aos cinemas, o ator Daniel Kaluuya, que interpreta esse ativista visionário de só 21 anos, presidente do partido mais emblemático do movimento negro, é um vulcão em pleno trabalho de erupção, um Vesúvio; e o sistema racista, sua Pompeia.

Assim como os messias das religiões monoteístas, Hampton tinha à sua disposição um exército de fiéis prontos para dar a vida ao movimento. Sua grande intenção era fazer esse exército crescer e multiplicar; branco, latino ou preto, isso não importava para ele. E é aí que entra o personagem principal dessa história, Judas e suas 30 moedas de Dracma.

William O’Neal, o infiltrado do Exército de Roma, digo, do FBI, é interpretado pelo ator-camaleão LaKeith Stanfield. Com suas expressões e trejeitos, ele deixa o espectador se perguntando se o enredo, baseado em uma história real, tem ou não um desfecho diferente.

Para Martin Luther King, Malcolm X ou Jesus, discursar para o povo é sua maior arma. O diretor Shaka King soube captar bem o poder desses sermões a ponto de nos emocionar. Mesmo sendo poucos esses momentos, quando ocorrem, é grande a vontade de levantar do assento de punho cerrado para o alto.

Uma tática já muito bem vista em “Pantera Negra”, da Marvel e “Corra!”, a trilha sonora com sons característicos de músicas de países africanos foi bem usada nesses momentos. Atabaques e tambores imitam as respirações e batidas do coração. É de tirar o fôlego.

Os atores Martin Sheen e Jesse Plemons, que interpretam agentes do FBI, fazem muito bem o papel de demônios brancos que estão ali apenas para mudar a história com seus privilégios, dinheiro, culpa e muito racismo. Nada diferente de uma atuação padrão de brancos num filme como esse.

Assim como em qualquer filme que se passa nos anos 1960 e 1970, as cores emudecidas dos ambientes criam contrastes com as roupas das gangues, coloridas e padronizadas como uniformes, e com os ternos pretos e camisas brancas dos agentes policiais, padrão de filmes policiais de época.

Outro contraste perceptível são as atuações de Daniel Kaluuya e LaKeith Stanfield, interpretando dois revolucionários que crescem e ganham destaque diante de seu povo com objetivos parecidos —a liberdade—, mas em dimensões bem diferentes.

Diferenças de finalidades que nos fazem perguntar o que torna alguém um revolucionário. São os fins ou os meios? Ou seria o objetivo da revolução? E até que ponto Judas era um revolucionário, assim como Jesus?

Polêmicas à parte, o filme não converte ninguém. Aparentemente, o diretor estudou numa escola sem partido, e talvez este seja o grande diferencial de "Judas e o Messias Negro", uma obra só acadêmica. Isso talvez pelo fato de um simples filme não poder cumprir esse papel. Ele se atém aos fatos —mesmo que ninguém saiba toda a verdade até hoje.

Vale dizer que Fred Hampton aparece em outra produção recente, "Os 7 de Chicago", na Netflix, já como líder dos Panteras Negras e saido em defesa de Bobby Seale, que na época estava sendo processado. Ele morre durante o julgamento.

A entrevista dada pelo verdadeiro traidor William O’Neal, divulgada em 17 de fevereiro de 1990, dois dias depois de sua morte e no dia em que se comemora o aniversário de Martin Luther King nos Estados Unidos, é o que conduz a história. Sem mais e nem menos, na sua visão, claro.

Ser um filme chapa-branca deixa a frase “você pode matar o revolucionário, mas você não pode nunca matar a revolução”, dita por Fred Hampton, um pouco sem sentido, já que em suas ausências o movimento negro durante o filme é falho e quase inexistente. Algo que claramente não é verdade.

Se há uma lição a ser tirada da obra, é que a revolução não se faz no sofá de casa ou com notas de repúdio no Twitter. Se faz com o povo nas ruas, tentando dominar o mundo.

Mas fique tranquilo. Toda a experiencia de assistir a “Judas e o Messias Negro” colabora para que depois de duas horas de filme você saia arrepiado, indignado com os últimos acontecimentos, ainda mais confuso sobre a história de Fred Hampton. E, claro, louco para comprar uma calça camuflada verde, jaqueta preta, uma boina e óculos escuros Ray-Ban clássico.

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