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Grammy pandêmico repete vícios, mas volta ao que importa, a música

Premiação conseguiu fugir do formato de teleconferência, e performances foram alento depois de um ano sem shows

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A cantora H.E.R. estava prestes ganhar o Grammy de música do ano, um dos maiores da cerimônia do último domingo (14), quando a câmera mostrou o casal Beyoncé e Jay-Z, ambos de máscara, sentado numa mesa na área externa do ginásio Staples Center, em Los Angeles.

A simples presença da cantora, que este ano se tornou a mulher com mais prêmios Grammy na história —são 28, o que faz dela também a cantora mais premiada entre homens e mulheres— foi o suficiente para ofuscar a vitória de H.E.R.

Essa cena diz muito sobre o apelo deste Grammy pandêmico, ocorrido depois de um ano em que a experiência da música ao vivo foi limada, e os artistas ficaram distantes do público. A plateia que ovacionou Beyoncé estava enxuta, mas representava uma ideia de premiação que funcionou bem em um ano atípico —cortar tudo até só sobrar o que é essencial.

Dessa forma, o Grammy conseguiu uma façanha improvável –fazer uma cerimônia que não parecesse uma videoconferência e voltasse a ter algum apelo para o público. Megan Thee Stallion saiu consagrada e, com o hit “Savage”, também ajudou a conterrânea de Houston e parceira na canção, Beyoncé, a fazer história. Foram as performances, no entanto, que fizeram a diferença no evento.

Além da área externa, onde os prêmios foram entregues, uma estrutura de quatro palcos emendados recebeu vários artistas que se revezaram durante a noite. Da performance segura de Harry Styles com “Watermelon Sugar”, que rendeu a ele seu primeiro Grammy, até Roddy Ricch deixando o piano para cantar “The Box”, foi um alento ver músicos fazendo o que fazem de melhor —mas estão impossibilitados de fazer por algum tempo ainda.

As manifestações do Black Lives Matters, que marcaram os Estados Unidos no ano passado, ecoaram na vitória de H.E.R., que batizou sua faixa premiada com a frase eternizada por George Floyd, “I Can’t Breathe”. E também em “Black Parade”, faixa politizada de Beyoncé que ganhou em performance de R&B.

Mas foi com o rapper Lil Baby que o tema ganhou ares épicos. Ele cantou “The Bigger Picture” num cenário cinematográfico que recriava um protesto, incluindo uma encarada em policiais, bombas atiradas a prédios, um verso inédito do rapper Killer Mike e um discurso da ativista Tamika Mallory endereçado ao presidente americano, Joe Biden.

Lil Baby saiu da noite de mãos vazias —assim como o BTS, que cantou de cima de um prédio na Coreia do Sul—, mas isso pouco importou. A impressão é de que a falta de plateia nos shows permitiu que os artistas pudessem experimentar melhor suas linguagens, da simplicidade pop do trio Haim ao brilho disco de Dua Lipa, passando pela floresta encarada de Taylor Swift e a pegada retrô de Bruno Mars e Anderson Paak.

Mas o ápice da noite foi mesmo a apresentação de Megan Thee Stallion, emendada na de Cardi B. Elas cantaram músicas individuais e depois se juntaram para “WAP”, parceria delas que só concorre ao Grammy no ano que vem, mas que já faz barulho desde o ano passado.

Versando sobre lubrificação vaginal, o hit tem tantos termos sujos que teve alguns trechos da letra silenciados na transmissão. Dividindo o palco com um sapato de salto alto gigante, Cardi ainda incluiu alguns segundos do remix de “WAP” em funk, do brasileiro Pedro Sampaio, com o verso “fica de quatro”, em português mesmo.

Foi o único modo que o Brasil esteve presente na cerimônia, já que os brasileiros Bebel Gilberto e Chico Pinheiro, que concorriam nas categorias de música global e jazz latino, nesta ordem, saíram da noite derrotados.

Aqui vale uma observação. O vencedor da categoria em que Bebel Gilberto concorreu foi Burna Boy, nigeriano que faz um pop eletrônico muito mais sintonizado com o que é feito no sul global. Nesse sentido, fica evidente que Cardi B está muito mais antenada com a música brasileira —o funk é o gênero nacional mais ouvido fora do país— do que a própria Academia.

Se o Grammy de 2021 conseguiu cortar o falatório desnecessário e aumentar o dinamismo, ele também repetiu velhos vícios. Ao longo dos últimos anos, a premiação vem sendo sistematicamente criticada, o que levou a mudanças no comando tanto da Academia quanto da cerimônia.

O Grammy até tentou consertar erros do passado. Nas, rapper que nos anos 1990 lançou o fundamental “Illmatic”, só agora ganhou seu primeiro Grammy. O mesmo aconteceu com os Strokes, que ganharam agora depois de despontar há 20 anos com uma nova estética roqueira.

​Fiona Apple tinha potencial para estar nas grandes categorias, e levou o que pôde nos prêmios de rock e música alternativa. Mas se os indicados nas seções de rock não soam exatamente como rock, e “música alternativa” é um guarda-chuva genérico, o R&B tem divisões incontáveis. Algo precisa, portanto, ser revisto.

Mesmo sendo a cantora com mais prêmios, Beyoncé só ganhou um deles numa das quatro categorias principais —música do ano, com “Single Ladies”, em 2010. Todos os outros foram em categorias menores, como as de R&B e música pop.

Isso se repetiu neste ano. Beyoncé ganhou quatro prêmios —dois por categorias de R&B, melhor videoclipe e performance no gênero, e dois por categorias de rap, pegando carona em "Savage". Não é que “Black Parade”, “Black Is King” ou "Savage" fossem indiscutivelmente melhores que concorrentes. Mas até aí “Everything I Wanted”, de Billie Eilish, também não era indiscutivelmente a melhor opção de gravação do ano.

Eilish, uma jovem que como tantos têm paixão pela música afro-americana, percebeu a incoerência e ao ganhar o prêmio disse que Megan Thee Stallion era quem o merecia de fato. “Estou até com vergonha. Megan, menina, eu ia escrever um discurso sobre como você merece esse prêmio, mas nunca achei que ia ganhar”, disse.

O Grammy mostra que quer trazer de volta os artistas —especialmente os negros— que hoje boicotam a premiação, mas ainda tem dificuldade em reconhecer, nas quatro categorias mais importantes —de disco, gravação e música do ano, além de artista revelação—, nomes que dominam há anos esses prêmios menores.

Neste ano, as críticas mais fortes vieram do inexplicavelmente esnobado The Weeknd, endossadas por Drake e Nicki Minaj. Mas vale lembrar que Kanye West recentemente fez xixi num Grammy, Tyler the Creator chamou de racismo as categorias genéricas para negros, Kendrick Lamar e Childish Gambino boicotaram uma edição e Frank Ocean parou de inscrever seus discos para votação da Academia.

H.E.R., que era zebra, ganhou em música do ano, e Megan Thee Stallion até levou como artista revelação, mas não foi capaz de superar o single melancólico de Eilish no principal prêmio da noite. A vitória da cantora soou mais como um eco de 2020, quando ela dominou, do que um reconhecimento justo.

Vale dizer que Eilish, que ainda nem completou duas décadas de vida, tem mais prêmios do “big four” do que a recordista Beyoncé acumulou em duas décadas de carreira. Nesse sentido, soou só burocrática a vitória de Taylor Swift, que se tornou a mulher com mais discos do ano ao ganhar seu terceiro troféu do tipo por “Folklore” na noite.

Para não passar sem registro, Doja Cat saiu da premiação sem prêmio algum. “Say So”, principal música dela neste ano, tem produção de Dr. Luke, acusado por Kesha de assédio sexual —ele nega— em caso famoso na indústria fonográfica. Luke até mudou o nome artístico para Tyson Trax, mas não conseguiu despistar os membros da Academia.

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