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Cinema

Filme mostra como o FBI tentou arruinar a luta de Martin Luther King

Documentário exibido no festival É Tudo Verdade escancara mau-caratismo de departamento policial

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MLK/FBI

  • Quando 15 de abril, às 19h00
  • Onde Festival É Tudo Verdade, através da plataforma Looke
  • Preço Gratuito
  • Produção 2020; EUA
  • Direção Sam Pollard

Morra como herói ou viva o bastante para se tornar o vilão. Não é assim para os negros. Martin Luther King, assassinado em 4 de abril de 1968, aos 39 anos, não era a personificação do sonho americano —ele era só o porta-voz do sonho de liberdade. E, como qualquer mensageiro, um humano falho e cheio de defeitos.

O documentário "MLK/FBI", exibido agora no É Tudo Verdade, revela não só esses momentos de fraqueza da vida de King, mas também como eles foram usados pelo governo americano para tentar parar o homem mais temido nos Estados Unidos nos anos 1960.

De fiel temente a Deus a um homem dado a infidelidades conjugais, King surge no documentário baseado no livro “The FBI and Martin Luther King, Jr.: From ‘Solo’ to Memphis”, de 1981, do historiador David Garrow, além dos 2.800 relatórios secretos sobre a morte do presidente John Kennedy, liberados pelo presidente Donald Trump em 2017.

A vinculação de arquivos sobre King à morte de Kennedy é a porta de entrada para entender como o reverendo era o inimigo número um americano. Tudo guiado pelas acusações racistas do diretor do FBI, J. Edgar Hoover, que dizia que King era um comunista a ser “abatido”.

O diretor Samuel D. Pollard, conhecido pelos seus trabalhos com Spike Lee, consegue ser delicado e objetivo, mesmo quando temas como a infidelidade de King aparecem nos documentos, até porque não se sabe se os áudios gravados nas escutas plantadas pelo governo dos hotéis e lugares onde King se hospedava eram totalmente autênticos.

Homem negro acena em cima de palanque para milhares de pessoas na rua
Martin Luther King na Marcha sobre Washington, em 28 de agosto de 1963 - AFP

Ao mesmo tempo que mostra como o tentavam incriminar como um pecador e hipócrita, o documentário escancara como o departamento de investigação federal, a mando inicialmente de John Kennedy, retratava o ativista internamente como um comunista e inimigo dos Estados Unidos.

Um dos pontos altos foi os registros de que Hoover enviava para sua família gravações de supostas traições de King, acompanhados de cartas sugerindo que ele se matasse.

Durante séculos, o negro americano era posto como algo a se temer. Isso é bem retratado no documentário, quando filmes e anúncios publicitários da época mostravam atores brancos com blackface interpretando não só bandidos, mas principalmente criminosos sexuais.

O homem negro como estuprador de mulheres brancas era um vilão conhecido nos filmes e séries. Essa mentira estava na história americana, e o medo justificaria qualquer ação violenta do FBI contra os movimentos sociais da época. Este era o vilão que Hoover queria construir.

O estopim para a segurança nacional foi o discurso “Eu Tenho um Sonho”, quando King levou 250 mil pessoas a Washington em 28 de Agosto de 1963 e chancelou de uma vez o seu poder como líder do povo negro. Na visão de Hoover, foi a demonstração de poder que ele precisava para perseguir, prender e até ameaçar a vida de King, sua família e companheiros de militância.

À primeira vista, as várias camadas usadas por Pollard parecem não ter ligação, mas, quando postas em sequência, mostram a construção da história que o FBI queria contar.

Por mais que Kennedy fosse um presidente minimamente a favor dos direitos civis, suas atitudes administrativas mostravam que ele não confiava nos ideais dos manifestantes negros e sempre os olhava com um microscópio procurando falhas para retirar seu apoio durante sua gestão até seu assassinato. Segundo o FBI, isso era um dos motivos para King talvez ter tentado matar o presidente.

Apesar de falar muito da intimidade de King, "MLK/FBI" não se aprofunda nos dilemas da primeira-dama dos movimentos negros, Coretta Scott King, mulher dele. Toda hora em que algo mais íntimo é revelado, você se pergunta como deve estar a cabeça dela nesse momento. Ou, até mesmo, por que Coretta não se separou do marido depois dos indícios de infidelidade dele. Vamos aguardar, então, essa versão do documentário.

Uma questão bem levantada é como o FBI age como uma organização fiel aos interesses do governo americano, mas só até o momento em que esses interesses não contrariam suas ideologias. No caso de King, agiu de forma oposta ao que pensava o governo da época.

Já durante a invasão supremacista branca do Capitólio, em Washington, agiu de forma passiva. Na ideia apresentada por Pollard, o FBI é um tribunal racista que há anos constrói o negro como um perigo à nação.

Muito ainda vai ser falado sobre um dos maiores representantes do movimento negro no mundo, seja ele infiel ou não. Martin Luther King foi muito mais que um homem falho, ele era uma ideia. E uma ideia, depois de ser plantada, não se destrói nunca mais.

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