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Entenda por que super-heróis de blockbusters da Marvel se multiplicam no streaming

Plataformas criam filmes e séries que expandem e cruzam histórias de figuras populares para conquistar assinantes

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São Paulo

Wanda Maximoff vai aparecer no próximo filme do Doutor Estranho, treinando com o herói para finalmente abraçar seu alter ego de Feiticeira Escarlate. Mas o que foi que motivou a superpoderosa? Quem só viu os filmes do Universo Cinematográfico Marvel, o MCU, não vai saber, mas quem assistiu à série “WandaVision”, no Disney+, já acompanhou seu processo de superação do luto, que moldou a sua nova identidade.

É uma estranha e inédita —pelo menos numa escala tão grande e ambiciosa— sinergia que a Disney quer promover entre seus filmes e séries. Para entender totalmente a jornada dos personagens da Marvel, agora, o espectador precisará não só comprar ingressos de cinema, mas também assinar o serviço de streaming de Mickey Mouse.

“WandaVision” inaugurou essa estratégia com a Feiticeira Escarlate. “Falcão e o Soldado Invernal” segue o mesmo caminho agora, com episódios semanais que destrincham a vida de Sam Wilson e Bucky Barnes depois que o Capitão América sai de cena —os primeiros minutos da série se passam, aliás, logo após o final de “Vingadores: Ultimato”.

“Loki” chega em junho para mostrar onde o irmão de Thor foi parar e Gaviã Arqueira, Miss Marvel, Mulher-Hulk e novos guerreiros de Wakanda serão introduzidos ao bilionário MCU em séries próprias, construindo a ponte para depois aparecerem nas telonas, muito provavelmente.

Esses universos compartilhados, é importante dizer, diferem um pouco das já onipresentes séries de filmes. Neles, temos conteúdos centrados em diferentes personagens. Todos pertencem a um mesmo mundo e existem em paralelo, mas não necessariamente precisam ter suas tramas conectadas de forma direta —cada um tem sua própria história individual.

“Piratas do Caribe”, por exemplo, é apenas uma série, porque seus longas-metragens seguem uma mesma narrativa, dando continuidade à jornada do capitão Jack Sparrow. Já o MCU é um universo compartilhado, porque engloba diferentes franquias, como “Homem de Ferro” e “Capitão América”, que eventualmente se juntam, mas não dependem uma da outra para sobreviver.

Para criar esses mundos gigantescos e superpovoados, os estúdios lançam mão de sequências e derivados, que podem vir na forma de filmes e séries ou até mesmo de livros, desenhos animados, videogames e peças teatrais.

Mas não é só de heróis que vive a Disney. Outros personagens populares da companhia também estarão sujeitos a essa simbiose nos próximos anos, com a expansão e criação de universos baseados nos astros de “Kingsman: Serviço Secreto”, “Uma Noite no Museu”, “A Lenda do Tesouro Perdido” e “Star Wars” —dez séries, aliás, já foram anunciadas para a saga intergaláctica, na onda do sucesso de “The Mandalorian”.

Até mesmo os recentes live-actions de “A Bela e a Fera” e “Aladdin” devem render frutos, com produções inspiradas no vilão Gaston e no príncipe loiríssimo e sem importância interpretado por Billy Magnussen, nesta ordem.

A notícia soou o alarme nos concorrentes do Disney+, que apesar de jovem já abocanhou uma fatia mais do que generosa do mercado de streaming —são 100 milhões de assinantes em um ano e meio de vida.

Recém-lançado, o Paramount+ anunciou que trabalha em universos do desenho “Avatar: A Lenda de Aang” e de “Star Trek”. O Amazon Prime Video vai apostar em novas séries ligadas a “The Boys” e o HBO Max tem duas marcas poderosas à sua disposição —“Game of Thrones” e “Harry Potter”, que já tem seu universo cinematográfico, mas que, dizem os rumores, pode render novas aventuras mágicas no streaming.

Na poderosa Netflix, a ordem parece ser atirar para todos os lados. O gigante trabalha em “The Gray Man” e “Army of the Dead”, de olho na expansão dos filmes seminais a serem lançados no futuro próximo, e nos games “The Witcher” e “Assassin’s Creed”, com mais de uma série planejada para cada um. Recentemente, a empresa comprou os direitos de adaptação dos quadrinhos da Millarworld, o que parece ser uma ousada incursão no mundo dos heróis.

“Franquias são mais fáceis para reter gente. Essa identificação que elas promovem, criando uma base de fãs, é uma estratégia que funciona num setor que precisa atrair e depois manter assinantes”, explica Fabio Lima, fundador da agregadora de conteúdo sob demanda Sofá Digital. “É um ambiente dinâmico e agressivo, em que a audiência é líquida e pode mudar facilmente de assinatura.”

Ele diz que essas eventuais franquias funcionarão como um tratamento homeopático. São pílulas de conteúdo que criam uma relação afetiva entre espectador e personagem e, consequentemente, entre espectador e a própria plataforma. “Se você é fã da Marvel e sabe que no Disney+ há uma recorrência de conteúdos desse universo, você não vai deixar de ser assinante.”

Essa lógica é bastante específica do streaming, já que na televisão tradicional as principais emissoras já estão consolidadas, com público cativo menos propenso a trocar de canal. No setor sob demanda, ainda jovem, o futuro de muitas plataformas é incerto.

Nessa infindável paquera das plataformas com o público, é preciso, portanto, saber exatamente o que o espectador quer ver. Para isso, os estúdios podem usar desde números de bilheteria de um personagem nos cinemas até dados obtidos pelos algoritmos de seus serviços para tomar o caminho certo.

“Hoje temos mais pistas do que o público quer, respostas quase que imediatas. O grande lance de trabalhar com um universo expandido em diferentes plataformas é poder agradar a diferentes nichos, conhecendo as preferências de cada um”, afirma Pedro Curi, coordenador do curso de cinema da Escola Superior de Propaganda e Marketing.

“WandaVision”, por exemplo, permitiu que os heróis da Marvel alcançassem um novo tipo de público, com seus episódios engraçadinhos que reverenciam a era de ouro da TV. Lá para o meio da série, quando a fórmula de ação e efeitos especiais do MCU começou a impregnar a trama, era tarde demais —o espectador já estava envolvido e disposto a conhecer mais sobre aquele universo compartilhado, o que inclui acompanhar os Vingadores nas telonas.

Com isso, há uma outra faceta desses universos que vai muito além da estratégia de retenção de assinantes. É como se o Disney+ funcionasse também como uma máquina de autopropaganda. O serviço leva o público do streaming para o cinema, e os filmes, o do cinema para o streaming.

Para os fãs, é um ciclo vicioso sem escapatória. Para as plataformas, uma aposta segura, que envolve muito menos esforço criativo do que conceber um novo e adorado personagem do zero, aumentando seu arsenal na atual guerra infinita do streaming.​

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