Como o Globo de Ouro, hoje alvo de boicote, foi de piada a potência em Hollywood

Trajetória de um dos prêmios mais importante do cinema é envolta em polêmicas ao menos desde os anos 1980

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troféu dourado com símbolo do planeta terra

Troféu Globo de Ouro Reprodução

Nicole Sperling Brooks Barnes
Los Angeles | The New York Times

Hoje ameaçado, o Globo de Ouro foi criado pela HFPA, a Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood, na sigla em inglês, em 1944, e não demorou a desenvolver uma reputação dúbia.

No final da década de 1960, a FCC, a Comissão Federal de Comunicações americana, proibiu a transmissão televisiva da cerimônia de entrega da láurea, afirmando que o público era “iludido quanto à maneira pela qual a premiação é decidida”.

A rede de TV CBS deixou de transmitir o programa em 1982, quando Pia Zadora foi apontada como “a nova estrela do ano”, uma honraria essencialmente comprada pelo marido da atriz, o bilionário Meshulam Riklis, que pagou viagens dos integrantes da HFPA a Las Vegas, onde foram hospedados e festejados no hotel e cassino Riviera, uma das propriedades de Riklis.

Hollywood via o prêmio como insignificante, na melhor das hipóteses, ou como corrupto. A cerimônia era mais conhecida por seu serviço de bar gratuito e pelas mordomias que a indústria do cinema propiciava a alguns dos cerca de 80 membros votantes da associação.

Jack Mathews, crítico de cinema na revista Newsday, certa vez definiu os eleitores do Globo de Ouro como “os fila-boias mais bem alimentados do mundo do entretenimento”.

Quando “Questão de Honra”, de Rob Reiner, perdeu o prêmio na categoria de melhor drama para “Perfume de Mulher”, depois que eleitores foram levados a Nova York pela produtora do segundo filme, a Universal Pictures, numa viagem com todas as despesas pagas, Mathews definiu a associação como “ilegítima” e descreveu suas práticas como “uma elaborada trapaça”.

Homem e mulher brancos dançam agarrados um ao outro e dão risada
Cena do filme "Perfume de Mulher", de Martin Brest - Divulgação

Mas, até os últimos meses, o Globo de Ouro se manteve firme, e até ganhou importância, com a ajuda de uma produtora importante, a Dick Clark Productions, que organizou cerimônias televisivas de premiação “que têm algumas coisas a ensinar ao Oscar”, segundo disse Stephen Galloway, diretor da escola de cinema da Universidade Chapman e ex-editor executivo da revista Hollywood Reporter.

A combinação entre apresentadores autorizados a falar sem censura, bebida à vontade e a concessão simultânea de prêmios a astros do cinema e da televisão, numa sala de tamanho modesto, onde os convidados muitas vezes paravam para conversar entre as mesas, era garantia de que o programa do Globo de Ouro raramente decepcionasse.

“De alguma forma, a legitimidade do programa compensava a ilegitimidade da premiação”, disse Galloway.

Em fevereiro deste ano, investigações jornalísticas detalharam, entre outras, a falta de diversidade na HFPA —não há membros negros— e seu sistema heterodoxo de remunerar os integrantes por seu trabalho nos comitês de premiação.

Reportagens semelhantes de crítica ao Globo de Ouro vinham sendo publicadas há décadas.

Na última cerimônia do prêmio, em 28 de fevereiro, os integrantes da associação prometeram diversificar o grupo e, na semana passada, anunciaram diversas reformas. Entre elas, está um aumento de 50% no quadro de membros da organização nos próximos 18 meses. (Atualmente, ela consiste em 86 jornalistas.)

A associação prometeu também contratar consultores de diversidade, depois que os contratados inicialmente para o trabalho renunciaram em protesto.

Hollywood, que por muito tempo se dispôs a fingir que não via a estrutura problemática da associação, decidiu se posicionar.

A Netflix declarou na semana passada que não trabalharia com a HFPA a não ser que outras mudanças fossem realizadas. A Amazon e a Warner disseram o mesmo.

Scarlett Johansson divulgou uma declaração na qual afirma que as entrevistas coletivas da associação “ficam perto do assédio sexual”. Na segunda, Tom Cruise devolveu à associação os três troféus do Globo de Ouro que conquistou.

Tudo isso —e o conhecimento de que a audiência da cerimônia de premiação realizada em fevereiro sofreu uma imensa queda— levou a rede de TV NBC a cancelar a transmissão do Globo de Ouro em 2022.

“Continuamos a acreditar que a HFPA tem o compromisso de realizar reformas sérias”, a rede afirmou num comunicado, divulgado na segunda. “Mas mudanças dessa magnitude requerem tempo e esforço, e nossa opinião sincera é de que a associação precisa de tempo para realizar essas mudanças corretamente.”

A rede afirma ainda que tinha a esperança de retomar a transmissão da cerimônia em janeiro de 2023. O contrato da NBC para transmitir o Globo de Ouro se estende até 2026.

Mas se a premiação foi motivo de piada por tantas décadas, como ela adquiriu tamanho poder? A resposta resumida é dinheiro.

Comecemos pela NBC. Na metade da década de 1990, a emissora estava enfrentando problemas. As séries “The Cosby Show” e “Cheers” tinham acabado, e “Friends” e “ER” ainda não estavam no ar. Um novo presidente da rede, Don Ohlmeyer, via a transmissão de eventos ao vivo como uma possível solução.

Mas os grandes programas de premiação realizados no começo de cada ano já tinham dono –a rede CBS tinha o Grammy, e a ABC tinha o Oscar. Por isso, a NBC decidiu apostar no Globo de Ouro, em 1996, dando início a uma parceria cuja renovação mais recente aconteceu em 2018.

A NBC vinha gerando cerca de US$ 50 milhões ao ano em receita publicitária com a transmissão do Globo de Ouro, nos últimos anos, segundo o grupo de pesquisa Kantar.

A audiência do Globo de Ouro cresceu em 500% quando o programa se transferiu da TBS, que tinha exibido a cerimônia entre 1989 e 1995, para a NBC. A premiação se tornou uma plataforma poderosa para filmes, estrelas e, mais recentemente, serviços de streaming.

Os estúdios começaram a divulgar as indicações e as vitórias no prêmio em sua publicidade, para ajudar a atrair mais espectadores para as produções.

Em sua busca de equivalência com as potências estabelecidas de Hollywood, a Netflix mergulhou no Globo de Ouro cerca de uma década atrás e, desde então, despejou dezenas de milhões de dólares em esforços para influenciar os votantes do prêmio e em publicidade embasada no sucesso de suas produções na premiação.

Harvey Weinstein também era forte proponente do Globo de Ouro e sabia aproveitar bem o momento da premiação no calendário para potencialmente influenciar a votação do Oscar.

O produtor manipulava a organização de muitas maneiras —presentes caros, acesso especial aos astros de seus filmes, além de dedicar tempo e atenção aos integrantes da associação num momento em que os chefes de outros estúdios mal conseguiam ocultar seu desprezo por ela. Isso valeu a ele um número assombroso de indicações.

Os demais estúdios terminaram por adotar estratégias semelhantes e passaram a usar o evento da HFPA para tentar ditar o tom da temporada de premiação.

“A HFPA foi uma organização legitimada por figuras como Harvey Weinstein, que buscavam ganhar impulso para obter prêmios no Oscar, e o setor todo seguiu seu exemplo”, Johansson disse em seu comunicado.

A associação também tirou vantagem de sua nova importância e buscou melhorar sua reputação, contratando a Sunshine Sachs, uma das mais conhecidas agências de relações públicas de Los Angeles, uma década atrás.

A entidade ainda elevou consideravelmente seus gastos filantrópicos. Em seu site, ela afirma ter doado US$ 45 milhões nos últimos 28 anos destinados a organizações sem fins lucrativos relacionadas ao entretenimento, à criação de bolsas de estudo universitárias e à restauração de filmes clássicos.

Todo mundo recebia seu quinhão. Os agentes de imprensa recebiam para encaminhar seus clientes aos eventos de tapete vermelho que antecediam a premiação. Os estrategistas especializados em premiações começaram a ser pagos pelos estúdios por seus conselhos sobre como manipular os eleitores do Globo de Ouro.

O jornal Los Angeles Times noticiou, em fevereiro, que um consultor da HFPA pode receber honorários de US$ 45 mil por seu trabalho, além de uma bonificação de US$ 20 mil caso um filme seja indicado ao prêmio de melhor filme, com mais US$ 30 mil em caso de conquista do prêmio.

O dinheiro fluía para um exército de estilistas, motoristas de limusines, aplicadores de bronzeado artificial, organizadores de banquetes, fornecedores de tapetes vermelhos, e também para as revistas e jornais de cinema, que se beneficiavam da receita publicitária adicional.

Veículos noticiosos convencionais, como o jornal The New York Times, começaram a cobrir a cerimônia do Globo de Ouro de maneira mais intensa, o que ajudou a despertar intenso interesse online e conferiu um ar de legitimidade ao evento, ainda que o prêmio não tenha conseguido rivalizar com o Oscar como marco de sucesso artístico.

“Fundamentalmente, todas as pessoas que ocupavam posições que poderiam tornar suas críticas efetivas eram parte do sistema –a imprensa especializada, os grandes jornais, os atores e os diretores”, disse Galloway.

“Quem pudesse argumentar, legitimamente, que não acreditava no que estava acontecendo, por não agir pessoalmente dessa maneira, tinha um incentivo para manter o sistema em funcionamento, até que, por fim, o possível dano à imagem dessas pessoas fez com que se virassem na direção contrária.”

Tradução de Paulo Migliacci

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