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Cinema

Morte de Paulo Gustavo pode ser fim de lucrativo filão de comédias no país

Em 'Minha Mãe é uma Peça' , ator incorporou símbolos do universo da classe C de forma mais genuína do que seus pares

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Antes de tudo, um mea culpa —a elite do jornalismo cultural, encastelada nas grandes Redações, nunca digeriu muito bem o fenômeno das comédias brasileiras, que nos últimos 15 anos levaram nas costas o cinema nacional e, ao fomentar a indústria, permitiram até mesmo o fortalecimento das produções autorais.

O ator Paulo Gustavo como Dona Hermínia, seu principal personagem - Victor Pollak/Globo

A morte de Paulo Gustavo, maior nome desse filão, nesta terça, pode significar a pá de cal nesse bem-sucedido surto. São longas-metragens que se beneficiaram da expansão dos shopping centers, sobretudo nas periferias das grandes cidades do país, impulsionados por uma classe média emergente, que enfim se viu representada na tela grande.

Não que o pessoal atrás das câmeras soubesse exatamente como se comunicar com esse novo público —o setor do cinema também faz mais parte do lado de cá do balcão da "intelligentsia" do que do outro. Mas entre muitos tiros no escuro, reciclagens de velhas fórmulas sobre a troca de identidades –"Se Eu Fosse Você"– e piadas pueris sobre brinquedos sexuais –"De Pernas pro Ar"–, os acertos foram vários.

"Loucas pra Casar" apostou na ideia de que a classe C, mais conservadora nos costumes, se identificaria com aquelas mulheres que faziam de tudo para subir ao altar. "O Candidato Honesto" remoeu a onda antipolítica. ​Ao fazer troça do desconforto dos novos ricos, "Até que a Sorte Nos Separe" parecia falar direto a milhões de brasileiros que ascendiam de uma hora para a outra.

Valeu até cravar no título algum signo que remetesse àquele universo, sem sutileza alguma, caso de "Os Farofeiros" e "Um Suburbano Sortudo".

A partir de 2017, com o aprofundamento da crise econômica, as bilheterias começaram a minguar. Se até então quase todo filme do gênero ultrapassava a marca do milhão de espectadores no país, naquele ano só um sujeito havia batido a meta —mais do que isso, quintuplicado. Era Paulo Gustavo, com seu "Minha Mãe É uma Peça 2".

Como podia um ator gay fantasiado de mulher fazer tamanho sucesso num país tão notadamente preconceituoso como este?

Em primeiro lugar, porque talvez os dois detalhes não sejam assim contraditórios, basta olhar a veneração que teve por essas bandas uma transformista como Rogéria. Em segundo lugar, porque a performance de Paulo Gustavo não era afrontosa, era palatável, digerível para qualquer um.

É que Paulo Gustavo conhecia o seu público com mais propriedade do que seus colegas. E a incorporação dos símbolos do universo da classe C, tão cortejada, era mais genuína naquele niteroiense nascido em família de classe média baixa.

Sua Dona Hermínia, personagem com que vendeu mais de 22 milhões de ingressos, era a perfeita mãe suburbana. De bobes na cabeça, ralhava aos berros com os filhos e despejava impropérios que o refinamento social não permitiria, ao menos não naquela entonação cheia de "ô, minha filha" e "hoje eu não tô boa, sabe?".

A crítica especializada, é claro, nunca assimilou bem aquele humor gritado. Esqueceu, por exemplo, do interesse que alguém do porte de Paulo Emílio Sales Gomes, pai da Cinemateca Brasileira, havia devotado às chanchadas cariocas dos anos 1940, com as quais o público havia criado "laços de tamanha intimidade que sua participação adquiria elementos de criatividade", como apontou em seu mais famoso ensaio, "Cinema: Trajetória no Subdesenvolvimento", de 1973.

Foi Paulo Emílio mesmo quem viu nos sucessos populares, de forma muito mais forte do que na celebrada produção autoral, as faíscas de um elemento verdadeiramente brasileiro, escancarado na precariedade da forma, na pobreza do conteúdo. Mesmo quando emula o estrangeiro, defendeu, o cinema brasileiro se faz original, graças à sua "incompetência criativa em copiar".

O outro Paulo, o Gustavo, que tinha introjetado essa ideia sem qualquer elucubração teórica, agora tem seu rosto estampado nos grandes jornais com uma reverência que deles jamais teve em vida. ​

Mais irônico ainda, ganhou condolências até de Jair Bolsonaro. Seja por cálculo político ou desfaçatez pura e simples, o presidente que minimizou a Covid disse que o ator "conquistou o carinho de todo o Brasil". Só não disse, é claro, que gente da idade dele, em outros países, já está vacinada.

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