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Cinema festival de cannes

Cannes tem negro tapa-buraco e dá vantagem ainda a machos brancos

Spike Lee no júri não disfarça a falta de diversidade do festival, que tem também só quatro mulheres na competição

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Marilene Felinto

Foram necessárias mais de 70 edições do Festival de Cannes —considerado o maior festival de cinema do mundo— para que um negro chegasse à presidência do júri. A atual edição —que começou em 6 de julho e vai até o dia 17— é a 74ª e traz na presidência o cineasta americano negro Spike Lee.

Mas a presença de Lee, a despeito de significar algum avanço, serve mesmo é de tapa-buraco ao histórico desdém de Cannes pela pluralidade ou diversidade racial e de gênero.

A exclusão é facilmente verificada em números. Contei um único diretor negro entre os 24 dos filmes selecionados às principais premiações desta edição, Mahamat-Saleh Haroun, do Chade. E apenas quatro mulheres (nenhuma negra).

A esse disfarce no campo da inclusão social, o revolucionário líder negro americano Malcolm X chamava de “tokenismo” (“tokenism”, em inglês), termo que surgiu nos Estados Unidos na década de 1950 e se refere à inclusão de fachada de minorias raciais com o objetivo de manter uma aparência de igualdade racial.

Essa mesma prática excludente ocorreu em 2019, quando o protagonismo poderia ter sido inteiramente negro (diretor, elenco, temática etc.) e não foi. Naquela edição, o filme “Les Miserables”, do diretor negro francês Ladj Ly, dividiu o prêmio do júri —o terceiro mais importante do festival— com a esquisitice brasileira chamada “Bacurau”.

A potência estética e política do filme de Ly, que trata da violência policial e dos abusos cotidianos sofridos pelas populações pobres de origem africana num subúrbio de Paris, não se compara ao realismo confuso, entre mágico e fantástico, do indigesto “Bacurau”.

Para além da qualidade do filme de Ly, se Cannes tivesse interesse também em multiculturalismo e integração social, teria premiado apenas “Les Miserables”. E mais: é claro que, para esta atual edição, não convidaram Ly para o júri, mas sim o macho branco brasileiro Kleber Mendonça Filho, codiretor de “Bacurau”.

Quanto à representatividade das mulheres no festival, há um burburinho festivo sobre o fato de elas formarem este ano, pela primeira vez, maioria no júri: cinco, contra quatro homens. Ressalte-se, porém, que nestes 74 anos, uma única diretora mulher recebeu o prêmio principal, a Palma de Ouro (Jane Campion, com “O Piano”, de 1993).

O próprio Spike Lee foi, durante muito tempo, um excluído das premiações desses milionários festivais da indústria cinematográfica, do Oscar a Cannes. De Cannes, foi excluído em 1989, com o genial “Faça a Coisa Certa”, e só ganhou estatueta do Oscar em categorias secundárias (nunca como melhor diretor ou filme).

Mas Spike Lee esperneia e grita contra a discriminação flagrante e continuada. Na abertura de Cannes, nesta semana, protestou contra o que descreveu como os negros continuarem “caçados como animais” mundo afora, ainda hoje.

E sua presença surte algum efeito: a academia americana do Oscar, após protestos encabeçados por Lee recentemente, começou a tingir de preto a cena de indicados e premiados à estatueta.

Conheço Lee de velhos carnavais: entrevistei-o três vezes para esta Folha, duas em Nova York e uma em São Paulo, em 1996, quando ele veio filmar um clipe de Michael Jackson e me convidou para acompanhar a filmagem em Salvador.

Ele é o tipo de artista que tem dificuldade de aceitar críticas negativas a seu trabalho (mas quem não tem, não é?, no mundo egocêntrico do cinema) ou a sua figura pública.

A questão aqui com Lee é uma constatação: como se algo faltasse em sua performance militante, como se ela se encerrasse nele mesmo. E uma preocupação: de que ele vire figurinha carimbada, caricatural, desses eventos.

O terno cor de rosa que ele ostentou esses dias em Cannes representava, por acaso, as mulheres negras ausentes do júri? Ele lhe representa? Você, mulher negra, se sentiu representada? O que diria Malcolm X sobre essa postura de conciliação (nada revolucionária) que não altera, de fato, o status quo da exclusão e do racismo sistêmico global?

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