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'Portas', novo álbum de Marisa Monte, propõe cura em tempos turvos

Primeiro disco da artista com faixas inéditas em dez anos faz um convite para celebrar a esperança e cantar o futuro

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Zeca Camargo

Portas

  • Quando Nesta quinta (1º)
  • Onde Nas plataformas digitais
  • Autor Marisa Monte
  • Gravadora Phonomotor Records e Sony Music

No princípio eram portas. Dezesseis delas, para ser exato. Todas infinitas, mas só uma, a primeira, com uma rima torta, "corredor" com "ao redor". Para nos lembrar que mesmo o que é mais estranho faz sentido quando o que a vida mais pede é poesia. E música.

Marisa Monte diz que isso é remédio no encarte de seu novo álbum, o primeiro com faixas inéditas em dez anos. É um lembrete que salta no meio das telas de Marcela Cantuária, que ilustra o trabalho.

Nas 16 composições que "Portas" reúne, a música é não só a própria cura, mas um oráculo. Nem todas foram feitas no presente, mas todas apontam para o futuro.

O tempo em que vivemos é turvo, e procuramos nessas músicas significados apressados. "Calma", por exemplo –"eu já tô driblando a madrugada, não é tudo isso, é quase nada". Um canto chamando forças para enfrentar mais um dia de notícias ruins? Ou apenas um casal em crise tentando sair dela? Ouça com atenção. Ou não.

Entrar pelas portas desse disco não exige nada de você a não ser um silêncio interno. Para que os sons o possam receber. Primeiro, os da Terra.

Marisa Monte nunca celebrou a natureza com tanta inspiração. "Encontrar um passarinho, para conversar sobre assuntos sobrenaturais", em "A Língua dos Animais" -- "água aguaceira, que lava cada telha", em "Praia Vermelha".

Marisa abre nossos pulmões e convida a cantar, a felicidade e a tristeza. Ela sempre foi boa nessas duas vertentes do amor. "Em Qualquer Tom" comemora --"são muitos poetas habitando aqui na gente". Para mais adiante encarnar uma alma adolescente reclamando que nem mensagem seu amor manda, em "Você Não Liga".

Essa é uma das parcerias felizes de Marisa com Marcelo Camelo, só não melhor do que em "Sal". A pergunta que abre a canção, "como vai você?", já serviu de marchinha para Carmem Miranda e de lamento pra Roberto Carlos. Agora é uma feliz afirmação de esperança. Sobre um amor que não está mais lá. Marisa procura notícias "na cidade sem saber". No rádio toca uma música que fala de saudade. Metamensagem. Será?

Nada é certo sobre o futuro, apenas a possibilidade de o cantar, em músicas quase sem refrões. Aliás, poucas são as que ultrapassam os três minutos. Nem por isso são menos envolventes.

Uma década gesta coisas belas e afina parcerias antigas --Nando Reis, Pedro Baby, Arnaldo Antunes--, bem como cultiva as que trazem as novas gerações, como Chico Brown, filho de Carlinhos, neto de Chico Buarque, e Flor, filha de Seu Jorge.

"Portas" nos faz esquecer sobre o tempo. Marisa traz surpresas modestas nas interpretações, e isso é bom. Há brincadeiras com algumas palavras, como em "Calma" e "Sal". Há serenidade, como em "Quanto Tempo", a linda colaboração com Pretinho da Serra e Pedro Baby.

Há meros 26 anos, eu escrevia neste mesmo jornal que queria morar no país onde Marisa Monte cantava. Saindo de um de seus show da turnê de "Verde, Anil, Amarelo, Cor-de-Rosa e Carvão", quando o Brasil guardava outras promessas, declarei que queria me mudar para onde morava sua inspiração.

Minhas malas estão prontas de novo. Destino –portas que me tragam mensagens tão fortes e promissoras quanto as que a mesma Marisa oferece neste disco. Que no final, longe da cacofonia tola, do ruído inócuo, do medo paralisante, é o que você quer saber de verdade. De verdade.

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