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Mariana Mandelli

O noticiário ou a realidade: o que faz mal?

Preservar-se da enxurrada de informações trágicas não pode virar negação da realidade

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Mariana Mandelli

Coordenadora de comunicação do Instituto Palavra Aberta

Nos últimos quinze dias, o Brasil ultrapassou a inacreditável marca dos 400 mil mortos por Covid-19 e perdeu, para a mesma doença, um dos seus artistas mais adorados. O luto generalizado, a indignação com o projeto político e a ânsia por vacinas, misturados a notícias sobre fome, desemprego e crimes assombrosos, como a tragédia numa creche catarinense, compõem uma sensação perene de que não há nada que não seja profundamente triste sendo publicado pelos veículos de comunicação nesse momento.

Se há um ano estávamos curiosos e atentos ao noticiário, mais conectados do que nunca, a impressão agora é de que ninguém suporta mais tanta angústia. E esse sentimento não é um achismo: existem estudos que mostram que a repetida exposição a notícias ruins tem impactos negativos na saúde mental da audiência.​

Um artigo publicado em 2020 na revista científica estadunidense Health Psychology, tratando especificamente do coronavírus, afirma que o consumo insistente desse tipo de conteúdo pode ter efeitos de longo prazo no bem-estar dos indivíduos, aumentando índices de estresse e ansiedade. O impacto pode ser ainda maior no público de comunidades que já sofreram com acidentes, atentados e desastres, como mostra um estudo de 2015 publicado pela Association for Psychological Science (APS).

Alguns especialistas chamam a atenção para um hábito denominado doomscrolling, que sintetiza a prática de buscar continuamente notícias ruins e distópicas. O termo, também chamado de doomsurfing, faz referência a downscrolling (algo como “rolar a tela para baixo”). Ou seja: no atual contexto, trata-se de acompanhar em tempo real tudo o que é divulgado sobre a pandemia, incluindo as constantes atualizações sobre o número de vítimas e as novas cepas do vírus.

Nesse sentido, cabem dois questionamentos. O primeiro trata da imprensa: a responsabilidade por esse cenário midiático desolador seria, portanto, do jornalismo? A resposta para essa pergunta deve qualificar o tipo de jornalismo do qual estamos falando, excluindo veículos sensacionalistas cuja linha editorial sempre se pautou pela hiperinformação baseada na violência e no sofrimento.

Também deve considerar algo importante: precisamos saber o que é notícia. Em linhas gerais, sua definição passa por algo que é de interesse público, que tem impacto na vida da sociedade e, portanto, é indispensável para o cidadão. A pandemia de Covid-19 definitivamente encaixa-se nesse conceito. É necessário sim divulgar sim o número de vítimas, a ausência de uma política nacional de imunização, os riscos de uma nova onda e outros eventos que fazem parte dessa realidade assustadora na qual vivemos há mais de um ano.

Críticas podem e devem ser feitas às formas com que isso vem sendo feito, mas não há dúvidas de que essas são informações fundamentais para a vida dos brasileiros. Na ausência de campanhas governamentais de conscientização, o jornalismo responsável ensinou à população a usar corretamente a máscara e a higienizar as mãos, repetindo incessantemente as orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS). Não podemos, portanto, culpar os jornalistas por estarem fazendo o trabalho deles.

O segundo questionamento possível complementa o anterior: se a culpa não é da imprensa, então é da audiência? Para responder a essa pergunta, é melhor fazer outra: como se manter informado e proteger a estabilidade emocional durante esse período?

Precisamos lembrar que o maior problema de refutarmos o noticiário é que, no desespero por boas notícias, abrimos espaço para desinformação, negacionismo e discursos oportunistas disfarçados de otimismo. Entre uma verdade e uma mentira, existem muitos tons, mensagens e contextos que podem ser moldados e distorcidos ao gosto do leitor, ouvinte ou espectador.

Um bom exemplo disso foi a pressão de autoridades sobre o que motivaria a imprensa a não divulgar o número de recuperados da Covid-19, dando espaço apenas para “fatos negativos”. Segundo infectologistas, esse tipo de informação dá a falsa impressão de normalidade e mascara os riscos de contaminação e morte por uma doença sobre a qual ainda pouco sabemos.

Assim, as respostas para as duas perguntas estão relacionadas ao que se chama de “dieta informacional”. Precisamos aprender a consumir informações de fontes confiáveis, distinguindo gêneros jornalísticos, autoria e motivação dos discursos e veículos, em doses saudáveis, conhecendo nossos limites e confiando no que cientistas e médicos comprometidos com a saúde pública vêm dizendo desde o início do ano passado.

Vale lembrar que, nas redes sociais, não faltam páginas dedicadas a divulgar e contar histórias positivas, que não são necessariamente notícias de acordo com os critérios jornalísticos, e que ajudam a balizar o nosso consumo de conteúdo. O Lado Bom das Coisas e Razões para Acreditar são dois exemplos desse tipo de perfil, e contam com milhões de seguidores. Outra iniciativa que debate as formas com que usamos a internet é a plataforma Contentevc, que tem como mantra a hashtag #ainternetqueagentequer.

Equilibrar tempo e informação é um dos maiores desafios da época em que vivemos e a pandemia apenas exacerbou isso a um nível inédito. Ao passo que nos educamos midiaticamente, não podemos perder de vista o verdadeiro papel do jornalismo e os riscos de nos deixarmos levar pelas nossas crenças em momentos críticos e de exceção. Afinal, ninguém escolhe os fatos: a realidade apenas é.

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