Descrição de chapéu Livros

Quem eram as sinhás negras, ex-escravas ricas que tinham também os seus escravos

Antropólogo Antonio Risério discute trajetórias singulares em ensaio histórico sobre os períodos colonial e imperial

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Turbante, saia comprida, camisa de musselina bordada, coberta por panos da costa feitos com tecidos de baeta. Nos braços e pescoço, joias de ouro. Dessa forma o pintor Jean-Baptiste Debret descreveu certas mulheres negras em solo brasileiro em 1830.

A essa altura, o artista francês se encontrava no Rio de Janeiro, mas a descrição poderia servir para descrever a baiana Marcelina Obatossí, negra ex-escravizada de origem nagô que comprou sua liberdade com o próprio trabalho; ou sua mãe-de-santo Yá Nassô, outra ex-escravizada liberta, de quem Obatossí comprou a alforria; ou ainda Otampê Ojaró, que chegou ao Brasil como escrava ainda criança e mais tarde fundou o terreiro do Alaketu.

As três mulheres fazem parte do elenco de personagens que compõem o livro “As Sinhás Pretas da Bahia”, de Antonio Risério, lançado pela Topbooks. A obra que chega às livrarias neste mês é um estudo sobre mulheres escravizadas que, entre os séculos 17 e 19, ascenderam à condição de “sinhás”, enriquecendo e comprando não só sua liberdade, como também imóveis, joias e escravos.

Embora o autor defenda que seja possível identificar uma elite socioeconômica negra nesse período histórico, ele mesmo reconhece que tais histórias de sucesso não foram suficientes para aplacar as desigualdades sociais brasileiras.

É estimado que Salvador recebeu por volta de 1,5 milhão de africanos até o fim do tráfico negreiro em 1856. Segundo João José Reis, professor da Universidade Federal da Bahia que coordena o grupo de estudos “Escravidão e Invenção da Liberdade” no departamento de história, a maioria dos cativos morria escravizada.

“Poucos se libertaram considerando o total de africanos importados e um número ainda menor conseguiu prosperar. Era um fenômeno sobretudo urbano, em que a escravidão de ganho permitia que o escravizado acumulasse uma poupança após muitos anos de trabalho duro e pudesse assim comprar sua alforria”, ele diz.

Com esse tipo de escravidão, em que os senhores mandavam seus cativos à rua para trabalhar em serviços diversos, cobrando por seus rendimentos, algumas mulheres enriqueceram. “Eram mulheres que ganhavam dinheiro principalmente no pequeno comércio. Elas monopolizavam as quitandas, as vendas, os tabuleiros”, diz Antonio Risério. “E, à medida que enriqueciam, elas investiam em imóveis para alugar e terrenos para as macumbas.”

Algumas dessas mulheres estão por trás da criação de importantes terreiros de candomblé da cidade. É o caso das já mencionadas ialorixás Marcelina Obatossí e Yá Nassô, ambas sacerdotisas da Casa Branca do Engenho Velho, lugar até hoje atuante.

Criticando uma visão "esquemático-maniqueísta" do Brasil e uma visão “esquemático-idealizante” da África negra por parte de “militantes racialistas”, Risério afirma que “as coisas aqui eram bem mais ricas e complexas do que costuma imaginar quem fica preso no padrão dicotômico, na visão de um mundo rigorosamente dividido entre senhores brancos e escravos negros, porque as mulheres eram escravas e viraram senhoras de escravos”. Na sua visão, “qualquer antropólogo, ao andar por ruas brasileiras, vê que quase todo mundo é mestiço”.

O antropólogo e poeta Antonio Risério - Zanone Fraissat/Folhapress

No entanto, chama a atenção que em nenhum momento do livro Antonio Risério emprega o termo “racismo” ou se detém numa análise sobre as desigualdades raciais existentes na época. Ele afirma que já disse tudo o que pensa sobre o assunto no livro “A Utopia Brasileira e os Movimentos Negros”, publicado pela editora 34 em 2007, e que em seu último trabalho tratou das questões raciais no contexto das desigualdades sociais.

Com vasta vivência em meio às religiões de matriz africana, Risério publicou em 1996 o livro “Oriki Orixá”, pela Perspectiva, uma coletânea de cantos sagrados traduzidos do iorubá. Depois de 25 anos, o autor volta ao registro poético com “Outrossim” com a Editora de Los Bugres, uma antologia de poemas autorais que abarca mais de 40 anos de produção.

Influenciado pelo princípio da devoração crítica de Oswald de Andrade, escritor modernista, Risério não se furta a misturar poesia concreta com o universo dos orixás e poesia indígena. “Eu vivo num mundo mestiço do plano biológico ao cultural. E, na medida em que isso se transforma em matéria de minha personalidade, aparece nos poemas que escrevo.” Se o autor fosse escrever um poema sobre sua própria obra, o resultado seria uma ode ao sincretismo.

As Sinhás Pretas da Bahia: Suas Escravas, Suas Joias

  • Preço R$ 64,90 (248 páginas)
  • Autor Antonio Risério
  • Editora Topbooks

Outrossim

  • Preço R$ 63 (289 páginas)
  • Autor Antonio Risério
  • Editora Editora de los Bugres
  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.