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'Adeus, Gana' revela como traumas podem rachar famílias e países

Romance de Taiye Selasi exige fôlego com escrita ritmada e poética, permeada por complexas metáforas

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Jéssica Moreira

Coautora do blog Morte sem Tabu e cofundadora do Nós, Mulheres da Periferia

Adeus, Gana

  • Preço R$ 42,68 (352 págs.)
  • Autor Taiye Selasi
  • Editora Tusquets
  • Tradução Isadora Prospero

Com uma prosa carregada de poesia, em "Adeus, Gana", Taiye Selasi nos conduz ao seio da família ganense-nigeriana Sai, marcada pelas dores e dilemas de quem é forjado em travessias.

Autora da série "The Sex Lives of African Girls", neste romance de estreia ela narra a trajetória de Kweku, um cirurgião ganense bem-sucedido, sua companheira Folasadé, uma nigeriana-escocesa, e os quatro filhos já nascidos em solo americano –o mais velho Olu, o casal de gêmeos Kehinde e Taiwo, e a caçula Sadie.

Culpabilizado injustamente pela morte de uma paciente branca de família influente, Kweku é demitido. Imerso no medo do julgamento, esconde o fato de sua família, abandona Folasadé e os quatro filhos e volta para Gana. Ela se mantém nos Estados Unidos com Olu e Sadie e divide o cuidado dos gêmeos com parentes na Nigéria.

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Capa da edição brasileira de 'Adeus, Gana', da escritora britânica Taiye Selasi, de origem nigeriana e ganense - Divulgação

Dividido em três partes —"Partido", "Partida" e "Partir"— a narrativa começa pelo fim. “Em um domingo, antes de amanhecer, Kweku morre descalço”, convidando o leitor a calçar as pantufas do patriarca da família, acompanhando o personagem de Gana aos Estados Unidos.

Em uma escrita ritmada e permeada por complexas metáforas, é possível sentir as rachaduras de uma família marcada por traumas profundos, raiva, tristeza, medo e solidão.

De pano de fundo, somos apresentados aos diferentes períodos de Gana e Nigéria, compreendendo por que Kweku naturaliza a morte e como as dificuldades de acesso à saúde e educação minguaram a existência de muitos.

O título original "Ghana Must Go” faz referência à expulsão de milhares de ganenses de território nigeriano em 1983, quando reuniam seus pertences em bolsas de náilon adornadas de xadrez, até hoje chamadas de “Ghana Must Go”, uma bagagem carregada de preconceito, mesmo após 40 anos.

Para além da construção altamente poética, não é exagero dizer que, a cada parágrafo, é possível criar quadros das arquiteturas, rodovias ou temperaturas misturadas a cheiros e texturas tanto de Gana, da Nigéria ou dos Estados Unidos.

Profundo, histórico e primorosamente amarrado, Selasi aposta em um roteiro não linear, com retrospectivas que vão pouco a pouco desvendando as trajetórias das personagens em inesperados "plot twists" vivenciados em diferentes geografias, mostrando personalidades abertas às mudanças.

Embora "Adeus, Gana" apresente uma família em ascensão social, com pais e filhos bem sucedidos —Olu se torna médico; Kehinde, um artista renomado; Taiwo e Sadie, estudantes exemplares— a narrativa mostra como o racismo e o sentimento de não pertencimento os afeta profundamente.

Olu pede a mão de sua namorada oriental em casamento, é encurralado pelo preconceito do sogro. "Os pais não honram os filhos nem as esposas. É por isso que vocês têm as crianças-soldados, o estupro. Como podem valorizar a filha de outro homem, ou filho, se não valorizam nem os seus?", escuta, incrédulo, e responde sabendo que o pai o deixou por outras questões. "Eu sou exatamente como meu pai. Ele é um cirurgião como eu, o melhor na área."

Todas as questões são tratadas pela autora, também pós-graduada em relações Internacionais em Oxford, no Reino Unido, pois ela também é de família multiétnica. Filha de mãe nigeriana e pai ganense, Selasi nasceu na Inglaterra, cresceu nos Estados Unidos, estudou em Londres e viveu em vários países ao longo de sua história, como Alemanha, Itália e Portugal.

Escreveu o ensaio “O Que é um Afropolitano”, em que já refletia sobre as identidades de pessoas cosmopolitas de origem africana, como bem faz no romance. Não se limita a uma nacionalidade e reivindica a potência do “ser local” como a mais importante experiência de sua identidade e escrita. “Ela não é uma cidadã do mundo, mas uma cidadã dos mundos. Ela é local de Nova York, Acra, e Roma”, aponta em vídeo do TEDx.

Para quem busca uma leitura leve e rápida, esse não é o livro mais indicado, já que exige atenção e fôlego em suas 352 páginas. Selasi não adjetiva as dores das personagens. Escolhe as palavras de forma minuciosa, nos fazendo sentir todas as dores, tanto as do estômago quanto as das partidas, inclusive a do título.

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