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Em 'Free Guy', mundo dos videogames vira palco para reflexões embaladas em ação

Estrelado por Ryan Reynolds, longa mostra personagem de jogo que desafia os limites de seu mundo para escrever sua história

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Boston

Ao caminhar pelo centro de Boston, você percebe as fortes raízes inglesas, irlandesas e italianas em seus prédios históricos e restaurantes. Também nota como a cidade tem orgulho de ter sido palco de importantes batalhas contra os britânicos na independência americana.

Mas ninguém está preparado para entrar na Liberty Square, no coração do distrito financeiro da maior cidade do estado de Massachusetts, e trombar com grupos de cyberpunks de cabelos coloridos tomando café com caubóis neofuturistas.

Muito menos para a visão do astro Ryan Reynolds, de “Deadpool”, andando calmamente de camisa azul piscina e calças cáquis, enquanto um carro conversível passa velozmente disparando uma metralhadora contra um edifício travestido de banco.

Reynolds não se abala porque ele está no meio das filmagens de “Free Guy: Assumindo o Controle”, realizadas em junho de 2019. O ator canadense vive Guy, um personagem não-jogável, ou NPC, de um videogame imaginário chamado “Free City” que toma consciência do seu papel e deseja algo mais para sua vida imortal e pré-roteirizada.

“A grande diversão deste filme é que não há regras. Se precisarmos de mais explosões ou mais pessoas maquiadas, tudo bem”, afirma o diretor Shawn Levy numa rara pausa nas filmagens do seu primeiro longa desde o sucesso de “Stranger Things”.

“Uma das ideias de ‘Free Guy’ é ter um personagem alheio à constante violência no seu mundo. Quando ele começa a ganhar conhecimento da própria identidade, o que acontece ao seu redor ganha mais evidência.”

Levy logo nos abandona para comandar outro take da cena, uma das principais do longa que estreia agora no Brasil. Ele corre na direção do banco onde Guy trabalha e, tediosamente, é assaltado todos os dias por uma gangue diferente.

Ao encontrar uma misteriosa mulher, Guy começa a questionar sua existência e desperta a consciência de que faz parte de um mundo virtual violento onde jogadores reais entram para cumprir missões e causar o caos —como em games como “Grand Theft Auto” e “Fortnite”.

De certa forma, “Free Guy” é um cruzamento divertido entre “O Show de Truman”, “Matrix” e “Detonando Ralph”. “Mas somos diferentes de várias maneiras”, lembra Levy já sentado ao lado do astro Ryan Reynolds para uma entrevista com dez jornalistas internacionais –este repórter foi o único de um jornal brasileiro no set. “Nosso jogo é fotorrealista, não passamos uma sensação falsa e não é uma adaptação. Não estamos tentando replicar ou recriar a experiência de um game existente.”

A discussão existencialista num filme de US$ 100 milhões foi uma exigência de Reynolds assim que ele assinou o contrato. Ao lado do diretor e do roteirista Zak Penn, de “Jogador Nº 1”, ele passou seis meses ajudando a reescrever a ideia original de Matt Lieberman. “Para mim, cinema envolve a criação de algo que você está desesperado para ver nas telas”, diz o astro. “Precisamos criar momentos e personagens que nunca vimos antes. Foi uma ótima colaboração.”

Foi um processo similar ao de “Deadpool”, maior sucesso do ator canadense. A coincidência, contudo, não vai adiante. “Amo Deadpool, mas esse é um personagem completamente diferente”, afirma Shawn Levy. “Ryan é conhecido por seus papeis cínicos, mas Guy é um inocente num mundo cínico. Quando decide aumentar de nível para enfrentar vilões mais poderosos, ele começa a fazer o bem, sem contribuir com a violência.”

“É muito fácil admitir que seu mundo é assim, violento. Que a vida é essa merda. Mas todo ser humano tem de ser capaz de escrever a própria história. Mudar algo que não está agradando a você é o grande desafio”, diz Reynolds.

“Guy não está tentando escapar do jogo. Ele quer causar um impacto no seu mundo. É uma fábula humana com efeitos visuais insanos e ação, mas é uma história existencialista”, reforça Levy.

É quando Guy então se une à Garota Molotov, papel de Jodi Comer, de “Killing Eve”, avatar de uma programadora de games que procura uma evidência de que “Free City” é plágio de uma antiga criação dela.

De repente, “Free Guy” se torna um filme ágil e cheio de referências pop. “Nunca estive em um projeto tão grande”, confirma a atriz britânica. “Tem ação e drama, mas a alma do longa é essa relação quando percebem que podem fazer a diferença naquele mundo.”

E “Free Guy” também pode fazer a diferença deste lado da tela. O longa estreou no último fim de semana com cerca de US$ 28 milhões de bilheterias nos cinemas americanos, superando as projeções mais otimistas e aliviando o medo dos estúdios com o avanço da variante delta do coronavírus nos Estados Unidos.

Se estrearem mesmo em 2021, “007 – Sem Tempo para Morrer” e “Duna” precisarão agradecer a um filme sobre videogames, uma das indústrias que mais lucraram durante a pandemia. Doce ironia.

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